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Adria Santos: carta da maior medalhista paralímpica do Brasil

Débora Miranda

24/05/2018 05h00

Sempre muito elétrica, sempre muito rápida. Quando Adria Santos fala de sua infância, ela se lembra de velocidade. Nascida na pequena Nanuque, no interior de Minas Gerais, a menina pobre, caçula entre nove irmãos _quatro deles com deficiência visual_, virou a maior medalhista paralímpica mulher do Brasil. São 13 medalhas, sendo quatro de ouro, oito de prata e uma de bronze conquistadas em provas de atletismo de 100 metros, 200 metros e 400 metros. Adria tem em seu currículo 76 medalhas internacionais e 583 nacionais.

Adria corre, acompanhada pelo guia Rafael Krub (Arquivo Pessoal)

Nasceu com retinose pigmentar, doença que a fez perder a visão total do olho esquerdo aos 13 anos e a do olho direito aos 18 _mas, mesmo antes disso, nunca enxergou 100%. Nada impediu, no entanto, que ela fizesse o que desde sempre mais amou: correr. Hoje, aos 43 anos, afastada das provas oficiais, Adria escreve carta a ela mesma lembrando da infância, de quando brincava de Rouba Bandeira com os amiguinhos e eles reclamavam: “Você é rápida demais”.

Fala da gravidez aos 15 anos, do amor pela filha, Bárbara, de como realizou seu sonho de conhecer o mundo e de se tornar campeã. Lembra as dificuldades, as dúvidas, as lesões. E reafirma que nunca, sob nenhuma circunstância, pensou em desistir.

*

Adria,

Uma das memórias mais antigas que tenho de você é brincando, sempre muito elétrica. Aos sete anos, você vai se lembrar, viveu um momento de muita tristeza. Quando seus pais decidiram se mudar, você esqueceu sua boneca. Você era uma criança de família pobre e tinha uma bonequinha bem simples, com umas roupinhas que sua mãe havia feito. E, quando teve que se mudar, deixou-a para trás.

A ida para Belo Horizonte foi difícil, mas seus pais sonhavam em conseguir uma vida melhor e em encontrar tratamento para você, que havia nascido com deficiência visual. Você viveu com sua família em vários lugares diferentes de Belo Horizonte e adorava brincar na rua. Costumava participar de um jogo chamado Rouba Bandeira. Nessa época, você ainda enxergava um pouco, e era muito difícil de os colegas conseguirem te pegar. Eles reclamavam que você era rápida demais.

Você já nasceu com dom para o esporte, Adria. E, num dia muito chuvoso, sua mãe te levou para o Instituto São Rafael. Primeiro você foi para uma sala cheia de brinquedos. Eram brinquedos coloridos, e você sempre gostou das cores fortes e vibrantes, por isso, aqueles brinquedos te chamaram muito a atenção. Você não sabia ainda, mas aquele lugar transformaria a sua vida e, ali, você começaria a sua história.

Alguns anos depois, você foi encaminhada para a Associação de Deficientes de Belo Horizonte. Você foi indicada, porque sempre se destacava nas brincadeiras, especialmente nas que envolviam corrida. Você deve se lembrar de como gostou de lá no primeiro dia. Você fez testes e começou sua vida no esporte. Teve muitos momentos de vitórias, mas também muitas angústias. Precisou se superar. Mas você nunca desistiu. Aliás, Adria, você nunca nem pensou nisso.

Mesmo com as dificuldades, você foi guiada por um sonho. Você queria se superar, queria buscar sempre o melhor. Você acordava cedo, ia para a escola, depois para o treino, e só voltava para casa à noite. Mas sabia que isso tudo valeria a pena. Anos depois, você pôde conhecer o mundo. E o melhor: subiu no lugar mais alto do pódio, conquistou muitas medalhas e recordes.

Maior medalhista paralímpica brasileira, Adria tem 76 medalhas internacionais e 583 nacionais (Arquivo Pessoal)

Aquele mundo era o seu! Você sempre foi determinada, sempre foi focada nos treinamentos. Tragédia para você eram as lesões. Lembro-me quando acontecia de você se lesionar próximo de uma competição, como você ficava desesperada! Preocupada se ia conseguir se recuperar a tempo. Hoje eu posso te dizer, Adria, você sempre conseguiu se recuperar! Você sempre foi muito cuidadosa consigo mesma, com seu corpo. Sempre soube esperar cicatrizar antes de dar o próximo passo. Antes de voltar aos treinos.

Tudo aconteceu cedo em sua vida, e você também foi mãe muito jovem. Engravidou aos 15 anos e, aos 16, você já tinha uma filha para cuidar. Mas esse foi o momento mais importante da sua vida. Quando a sua filha nasceu e você ouviu aquele chorinho… Parecia que era uma bonequinha ali. E você sempre deu a ela todo o carinho do mundo. Você teve que fazer sacrifícios, é bem verdade. Muitas vezes precisou abrir mão de ficar com ela para competir, mas você pensava nela o tempo todo.

Você sabia que suas conquistas dariam a ela mais oportunidades, mais qualidade de vida. E isso te fez amadurecer. Quando você ia competir, pensava que tinha de vencer para a sua filha. E o seu coração acelerava cada vez mais. A adrenalina de competir, de ganhar uma prova, de escutar a sua filha vibrando com um resultado seu, tudo isso não tinha preço para você.

Foram 27 anos competindo pelo Brasil, representando o seu país. E foi difícil demais quando tudo isso teve que acabar. Acabar entre aspas, porque você mais uma vez deu a volta por cima. Você se lesionou e não conseguia se ver fora das pistas. Você sempre foi tão apaixonada pelo esporte, Adria! Você, então, buscou tratamentos e, depois, partiu para novas competições. Passou a disputar corridas de rua e a se dedicar a outras atividades, como a dança e o pole dance, e vibrava muito toda vez que conseguia fazer um movimento novo.

E agora você está feliz, pois está realizando mais um sonho, que é cursar uma faculdade. Agora você quer se formar, quer ser uma profissional de educação física e trabalhar com o esporte. Imagina esse coração quando você conseguir! Vai ser mais uma vitória, mais um sucesso na sua vida. E essa, Adria, é a mensagem mais importante que você pode transmitir para os sonhadores deste mundo.

Você sempre será uma referência pela paixão que transmite, pelo que vem de dentro do seu coração. Muitas vezes você pensou se conseguiria. Muitas vezes outras pessoas duvidaram de você. Você perdeu a visão, mas manteve todos os seus sonhos. Sempre curiosa, sempre querendo aprender.

Como em todo esporte individual, a corrida também tem seus momentos de solidão. De precisar treinar consigo mesma. Mas, como você não enxerga, teve a sorte de contar com um guia ali, do teu lado. Muitas vezes ele te motivou, em outras você precisou motivá-lo, formando essa parceria e criando essa conexão que não te deixava desistir.

Você sempre mostrou que nada é impossível. Basta querer e ir buscar.
E foi exatamente isso o que você sempre fez. E sempre fará.

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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