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Aprender a nadar aos 70 é possível e gratificante

Débora Miranda

2006-02-20T18:05:00

06/02/2018 05h00

Medo de água, falta de coordenação motora, dificuldade para respirar. Nada disso foi impedimento para que as aposentadas Ilza Marlene Kuae Fukuda, 70 anos, e Yone Maria Domingues, 77 anos, decidissem aprender a nadar. Apesar de não se conhecerem, as histórias de vida de ambas são semelhantes, e a determinação também.

Yone comemora sua evolução com o professor Rafael Penninck de Miranda (Débora Miranda/Extraordinárias)

"Comecei a nadar há pouco tempo, acho que há uns três anos. Eu me aposentei, meus filhos já estavam independentes e casados. Aí meu marido faleceu, e eu  fiquei muito perdida na vida. Muito perdida mesmo. Não sabia por onde recomeçar e como continuar a viver sem ele", conta Ilza, que, decidiu, então, procurar uma atividade física.

"Quando você é jovem, nunca acha que vai envelhecer. Eu tive que começar a pensar na minha qualidade de vida. E a atividade física, além de trazer esse ganho, ajuda muito na saúde mental. É muito bom fazer novos amigos", diz ela, que hoje vai à academia todos os dias e se reveza entre natação, hidroginástica, musculação, pilates e aulas de alongamento.

Yone conta que também decidiu praticar exercícios depois da morte do marido. "Quando o perdi, fiquei meio desorientada e fui morar com a minha irmã. Foi meu cunhado que me incentivou muito a fazer uma atividade física. Comecei com a hidro, mas levei um tombo na piscina e isso me assustou. Decidi, então, que precisava aprender a nadar. E não estou nem um pouco arrependida. Tenho um professor ótimo, que entende as minhas limitações", destaca.

Yone brinca que seu treino é em "slow motion" (velocidade lenta), mas garante que a prática está ajudando seu corpo, sua saúde e sua mente. "Quando a gente atinge essa idade, acha que tem todos os reflexos em dia, mas evidentemente que não. E eu só tive essa consciência quando parti para a natação. Estou muito feliz de ter começado uma atividade aos 76 anos. É uma nova fase da minha vida. Claro que, às vezes, bate aquela tristeza, penso que meu marido não está vendo nada disso. Mas tenho minha conversa diária com ele e, se tem que chorar, eu choro. E choro muito. Mas estou levando. Não deixo deprê nenhuma me dominar. Estou vivendo."

Ela conta que sua principal frustração é a dificuldade em sincronizar os movimentos de pernas e braços, mas comemora sua evolução e destaca que, aos poucos, conseguiu superar o medo de água. "Eu entrava na piscina e enrijecia. Sentia pavor. Mas tenho uma força interior muito grande, modéstia à parte. A minha motivação é a minha força."

Ilza também reconhece as dificuldades, mas diz que não pensa em desistir. "Aprender a respirar é muito difícil, além do medo de água. Mas é importante persistir e vencer essas barreiras. Eu, por exemplo, nunca pensei que fosse conseguir atravessar uma piscina olímpica. Quando conseguimos algo assim, é muito gratificante."

Nenhuma das duas havia praticado atividade física ao longo da vida. "Antigamente, quando a gente era jovem, não tinha tantas academias como hoje. E também não havia essa cultura de cuidar do corpo, especialmente para as mulheres. Muitas se sentiam culpadas de cuidar delas mesmas, porque tinham que priorizar a família e a casa. Naquela época, a gente cuidava dos outros só. Agora está mudando, as mulheres estão se cuidando mais e pensando em sua saúde. Isso é muito bom!", comemora Ilza.

Questionada se a determinação pode ser considerada uma característica inerente à mulher, Yone dispara: "Minha querida, e o que não é da mulher? A mulher é o ser humano mais polivalente da face da Terra. Eu não sou feminista, mas a verdade é que a gente só não faz brotar dinheiro em árvore, porque de resto a gente está aí para o que der e vier".

Não é feminista?

"Eu digo isso porque a feminista mais assim, radical, acha que o homem é um zero à esquerda. Eu não considero o homem um zero à esquerda. Mas acredito totalmente na igualdade entre os sexos. Inferioridade nunca!", encerra.

Agradecimentos: academias Bio Ritmo e Mundo Azul

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?