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“Ninguém espera que a mulher vá reagir”, diz aluna de krav maga

Débora Miranda

14/03/2018 05h00

Foi o medo que me deu coragem. O medo de dirigir à noite sozinha. De usar certas roupas. De andar em alguns lugares. De estar vulnerável. Ou pelo menos de me sentir assim a maior parte do tempo. Histórias e mais histórias de mulheres que enfrentaram assédio, abuso, violência. Uma vez li o depoimento no Facebook de uma menina que foi atacada no Parque Villa-Lobos e puxada pelo cabelo e, desde então, passei a sair para correr sempre de coque, para não dar chance ao azar. É cada coisa com que a gente tem que se preocupar… E se você não é mulher talvez não entenda isso, mas foi essa pessoa que eu me tornei. Sempre alerta, mas sem saber o que fazer. Sem ter a menor ideia de como reagir ou me defender.

E aí, há um ano, eu decidi ir à minha primeira aula de krav maga. Se você, como eu, nunca fez nenhuma luta na vida, sabe do receio gigante que é tomar essa decisão. E se eu não conseguir? E se eu não tiver força? Jeito? Físico? Psicológico? Mas a verdade é que eu já não tinha força, jeito, físico nem psicológico para viver naquela tensão. E foi uma das experiências mais libertadoras que eu experimentei, porque a primeira descoberta foi que força não importa tanto assim. Você pode, sim, se defender de alguém maior do que você. Físico a gente desenvolve, psicológico a gente trabalha. É empoderador.

Não que eu vá sair batendo em gente na rua. Longe disso. O krav maga, para quem não conhece, é uma modalidade de defesa pessoal. Foi desenvolvido em Israel, na década de 1940, e é ensinado lá ao Exército. Trata-se de DE-FE-SA. E a defesa pressupõe que você esteja sendo atacado. E, diante disso, seja capaz de reagir de alguma forma. Que você se torne uma pessoa mais atenta, consciente e mais SEGURA.

Fabiana diz que o krav maga é essencial, especialmente para as mulheres (Arquivo Pessoal)

“Eu acho o krav maga essencial, especialmente para as mulheres. Você entende que não é porque é menor ou não tem tanta força que alguém pode fazer o que quiser com você. Eu passei a ficar mais atenta e mais segura, a ponto de eu não ter receio de andar em determinados locais. Hoje sinto confiança, sei que posso me defender”, diz a advogada Fabiana Soares Vieira, 35 anos, que treina há nove anos e é faixa azul.

Ela vive em Niterói e conta que já usou o krav maga em situações reais de perigo. “Uma vez, um homem veio atrás de mim, colocou o cotovelo nas minhas costas, como se fosse uma arma, fazendo pressão, e pediu minha bolsa. Já tinha percebido a presença dele antes e vi que não estava armado. Usei meu cotovelo e bati no rosto dele, entre o nariz e a boca, quebrando um dente. Numa outra vez, estava num ponto de ônibus, um homem puxou minha bolsa. Puxei de volta e, quando ele se desequilibrou para a frente, virou o pescoço. Eu o mordi”, lembra.

“O krav maga te condiciona e, quando você tem segurança, está preparada psicologicamente e fisicamente, você simplesmente reage”, completa ela. “E ninguém espera que a mulher vá reagir.”

Vanessa Marinho Igayara Ziotto, 27 anos, também advogada, que vive no Rio de Janeiro, conta que chegou ao krav maga por acaso. “Fui à academia procurando uma aula de balé, mas a professora estava grávida, e a recepcionista me sugeriu experimentar o krav maga. Me disse que tinha muita menina que fazia e gostava. Nunca tinha praticado nenhuma luta na vida, mas, desde o início, me senti muito confortável”, conta ela, que treina há cinco anos e é faixa verde.

Ela faz parte de uma turma exclusiva para mulheres. “É bastante receptivo, especialmente para quem já sofreu algum tipo de violência. Às vezes, quando essas mulheres treinam com outros rapazes, essas situações voltam. Temos um clima de muita amizade, todo o mundo se sente segura e acolhida. As meninas reconstroem sua autoestima, sabem que podem dizer não em qualquer situação, que têm um corpo feminino e não há nada de errado nisso. Aprendem a se defender.”

Vanessa treina em um grupo só de mulheres: “Todo o mundo se sente acolhida” (Arquivo Pessoal)

Pesquisa Datafolha divulgada no início do ano passado mostrou que, em 2016, 503 mulheres foram vítimas de agressão física a cada hora no país. De olho nisso, sempre no mês de março, quando é comemorado o Dia Internacional da Mulher, há seminários gratuitos de krav maga dados a quem quer aprender a se defender. Neste ano, durante todo o mês, as escolas da Federação Sul-Americana estão de portas abertas a mulheres que queiram ter noções básicas da modalidade. As interessadas podem procurar a academia mais próxima no site www.kravmaga.com.br e retirar seu convite.

Óbvio que todas sonhamos com o dia em que o mundo será um lugar seguro para viver. Esperamos poder sair na rua com qualquer roupa, a qualquer hora, carregando qualquer objeto de valor. Com o cabelo solto, sem medo de sermos atacadas. Sem termos que estar atentas a tudo, preocupadas o tempo todo. Mas até para isso saber se defender é importante. Enquanto esse dia não chega, enquanto precisamos pensar onde vamos, a que horas vamos e com que roupa vamos, que pelo menos tenhamos a capacidade de reagir e resistir.

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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