Extraordinárias

“Para comemorar meus 60 anos, decidi correr 56 quilômetros”

Débora Miranda

11/05/2018 05h00

Só quem corre sabe o que é. A dificuldade do início, quando falta ar, falta perna, falta tudo. E aí vem a percepção de que os cinco minutos já podem virar dez. De que os dois quilômetros podem virar cinco. Você já respira, já se sente forte. Encara sua primeira prova, normalmente com aquele pânico secreto de ser a última a atravessar a linha de chegada. Ou de nem conseguir chegar lá. Mas você chega e é imediatamente tomada por um orgulho gigante. O maior orgulho do mundo. Porque não importa o tempo, não importa a distância, você conseguiu!

Só quem corre sabe o quanto esse esporte pode transformar vidas. Profundamente. Por ser tão desafiador e ao mesmo tempo tão acessível. Mas o melhor de tudo é descobrir que pessoas comuns como eu e você ganharam superpoderes correndo. É ver que mulheres que trabalham, cuidam da casa e têm filhos não viram nada disso como barreiras. Começaram do zero e hoje são, verdade seja dita, supermulheres. Com histórias maravilhosas, inspiradoras e emocionantes.

Rosangela enfrentou uma prova de 56 quilômetros (Imagem: Arquivo Pessoal)

Rosangela Bacima da Silva é psicóloga e consultora de empresas e completou 60 anos em 2017. Para comemorar, ela decidiu que iria correr a ultramaratona Two Oceans, na África do Sul. O percurso? CINQUENTA E SEIS QUILÔMETROS. Para ter uma ideia, é quase a distância entre São Paulo e Jundiaí. Sendo que cerca de 30 quilômetros desse caminhozão de subidas e descidas íngremes.

“Foi espetacular e foi o meu maior desafio. O treinamento foi muito difícil, porque correr 56 quilômetros é uma façanha. Mas eu pensava apenas que estava exausta. Jamais cogitei não conseguir. Completei a prova em seis horas e 48 minutos. O limite eram sete horas. Foi um privilégio! A chegada é uma hora de muita gratidão. Pela minha saúde, pela minha condição, pela minha disposição, por eu ter vontade de fazer tudo isso.”

Rosangela começou a correr aos 42 anos, após descobrir um problema de saúde. “Até aquele momento, eu não sabia o que era calçar um tênis e praticar um esporte. Era absolutamente sedentária. Quando tive esse pequeno problema, percebi que precisava mudar meu estilo de vida. Decidi que iria envelhecer e com qualidade. Foi aí que comecei a correr. E me apaixonei.”

Ela diz que logo percebeu as diferenças de praticar uma atividade física. “Me tornei uma pessoa muito mais focada, mais orientada para os meus objetivos. Percebi que o esporte era o grande combustível para me dar energia. A minha saúde foi melhorando. E passei do manequim 44 para o 38, de onde nunca mais saí. Equilibrei a minha vida.”

O início, como acontece com a maioria das pessoas, não foi fácil. “Eu nunca pensei ‘vou desistir’, mas achei que não conseguiria. No entanto, estava em um ambiente que me estimulava bastante, e isso foi importante. Eu via as pessoas indo correr São Silvestre, meia-maratona, maratona e pensava: ‘Isso eu não posso, mas de uma provinha de dez quilômetros eu dou conta. Essa era a minha meta. Levei dez anos para correr uma maratona.”

Uma maratona são 42 quilômetros. A primeira que Rosangela enfrentou foi em Berlim, na Alemanha, em 2010. E ela diz que foi um dos momentos mais marcantes e inesquecíveis de sua vida. “Foi uma prova muito pensada, e a sensação, ao ver que eu ia completá-la, foi maravilhosa. Não andei nem um metro, só corri. Foi indescritível.” Daí até chegar aos 56 quilômetros da Two Oceans foram muitos outros desafios. E seis maratonas.

O pensamento de “não vou conseguir” nunca mais voltou à mente de Rosangela. “Hoje eu penso que tudo é só questão de decisão. E depois da decisão, de preparação. Tem que treinar, tem que dormir na hora, tem que comer certo. Tem que fazer as coisas como se deve.”

A motivação também é importante, e ela conta que a encontrou em uma parceira de treinos que virou amiga. “Por ela ser mulher, por ter as mesmas lutas que eu, que são as lutas de todas nós –família, filhos, trabalho, casa, uma agenda cheia, responsabilidades–, isso fez toda diferença. O fato de termos a mesma faixa etária também é importante, porque envelhecer não é fácil. Eu brinco que envelhecer é para os fortes. Precisamos não só superar as questões físicas naturais da vida, como as dificuldades do corpo, que já não responde como na juventude. Então, ter uma companheira de esporte e de objetivos é muito bom. Isso sem falar nas boas conversas e nas gargalhadas.”

O maior orgulho de Rosangela é, depois das provas, encontrar a neta de três anos. “Ela sabe que a vovó corre, e eu digo: ‘É para você que vou trazer a medalha!’. Volto e comemoro com ela. É um ritual e, para mim, um incentivo a mais.” Incansável, ela ainda sonha em conquistar sua meta mais ousada: correr o equivalente à volta ao mundo pela linha do Equador. “Fiz uma conta assim: a volta ao redor da Terra tem 39.840 quilômetros. Eu treino desde 1999 e nunca parei. Faço uma média de 1.800 quilômetros ao ano. Então, já corri 34.200 quilômetros. Em mais três anos devo completar a volta ao mundo. Também quero correr em todos os continentes. Ainda faltam alguns. Vamos ver se depois disso vou sossegar. Mas acho que não.”

Mulher de aço

A médica Luciana Haddad, 39 anos, também descobriu o esporte depois de adulta. “Comecei já mais velha, depois dos 30 anos. Primeiro veio a corrida. Parti do zero, totalmente. E fui aumentando o volume, aumentando as distâncias. Na época, queria melhorar o meu condicionamento. E a corrida é o que traz o resultado mais rápido. Comecei correndo um pouquinho na esteira da academia e fui gostando. Criei desafios pequenos. Correr um minuto, dois minutos, e fui aumentando progressivamente. Até que me inscrevi numa prova de dez quilômetros. Sempre digo que viciei muito rápido. No começo é sempre duro, mas a sensação de bem-estar depois é muito gostosa.”

Luciana começou a correr em busca de condicionamento físico e hoje faz Ironman (Imagem: Arquivo Pessoal)

Nesse meio tempo, Luciana engravidou duas vezes. “Depois que a minha filha nasceu, eu voltei e cheguei a fazer uma meia-maratona. Aí engravidei do meu segundo filho. Depois dele, eu voltei mais rápido, não queria esperar muitos meses, já estava empolgada com a corrida. Estabeleci que quando ele completasse um ano eu correria uma maratona.”

Mas 42 quilômetros correndo não foram suficientes para cansar a médica. “No segundo ano em que eu estava correndo, comprei uma bicicleta e comecei a pedalar. Então, aprendi a nadar, que eu não sabia. Sofri bastante, foi duro. Mas aí rapidinho fui para as provas de triatlo. Era um desafio enorme, mas depois da primeira adorei e não parei mais. Um ano depois, me inscrevi no meu primeiro Ironman.”

Se você não sabe o que é um Ironman, prepare-se para o choque: são provas de triatlo com longas distâncias. A mais tradicional, inclui 3.800 metros nadando (em mar aberto), mais 180 quilômetros de bicicleta e aí, para completar, corre uma maratona. E “tá pago!”, como dizem por aí. “Eu já tinha isso na minha vida de gostar das coisas difíceis. Se é um desafio, eu vou fazer de tudo para conseguir. Eu tinha muito medo do mar, da onda. E até hoje tenho essa sensação. Mas eu vou. A única saída é enfrentar isso várias e várias vezes, até ficar meio normal.”

Ela lembra a primeira prova de Ironman como a mais marcante. “Sempre tem a dúvida se você vai conseguir terminar aquele percurso enorme, desconhecido. E eu fui muito bem! Não imaginava que seria assim. A minha questão era: será que eu consigo terminar? Nunca imaginei que eu fosse ser competitiva. E, no final, eu fiquei em segundo lugar na minha categoria. Eu não acreditava! Foi uma emoção que eu nunca mais vou viver na vida, porque foi uma surpresa.”

Para quem começou a correr despretensiosamente na academia em busca de condicionamento físico, Luciana mudou muito. Ela diz que a transformação que a atividade física causou em sua vida foi imensa. “O que me motiva todo dia é que eu nunca mais tive uma sensação de tristeza, de monotonia. O esporte me garante bem-estar, apesar de qualquer coisa. Quem tem problema para dormir, problema em casa, sofre de depressão… Comece a correr! É difícil no começo, você vai achar um inferno! Mas depois de um ou dois meses você vai ver que muda tudo. O esporte é capaz de transformar profundamente a vida. Mesmo!”

*

Agradecimento a Marcos Paulo Reis, da MPR Assessoria Esportiva

 

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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