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"Eu me considero um homem feminista", diz marido de Joanna Maranhão

Débora Miranda

09/06/2018 04h00

Todo o mundo que acompanha a luta das mulheres contra o assédio sexual e pelos direitos feministas tem em Joanna Maranhão um exemplo. Para mim, ela sempre foi um ídolo –e quanto mais eu escrevo este blog mais eu acredito que essa palavra deveria ser um substantivo feminino. Joanna teve coragem de denunciar o abuso que sofreu na infância, se expôs publicamente para que isso não se repetisse na vida de outras meninas, lutou contra a impunidade, se transformou numa mulher campeã e sempre se colocou politicamente de forma transparente e admirável.

O judoca Luciano Corrêa e a nadadora Joanna Maranhão são casados (Divulgação)

Com a proximidade do Dia dos Namorados, pensei em fazer aqui uma reportagem sobre o amor entre esportistas. Contar a história de atletas que enfrentam juntos não apenas os momentos de vitória, mas também as dificuldades do árduo dia a dia de quem se dedica ao esporte no Brasil. Mas quando ouvi os depoimentos de Joanna e do marido dela, o judoca Luciano Corrêa, percebi que a data era só o pano de fundo de uma história que vai além do amor. Que tem sua base na caminhada em busca dos mesmos ideais, no compartilhar lutas mais do que títulos e medalhas. Uma vida em comum pela realização de sonhos individuais e por um país melhor.

Quando perguntei a Luciano se ele se considerava um homem feminista, ele me disse: “Eu vejo a luta da Joanna e de tantas outras mulheres, e acredito que o mundo precise de igualdade entre os gêneros. E a partir do momento em que eu a conheci, todas as nossas lutas passaram a ser juntas. Quando você se casa, você acredita totalmente nos ideais da outra pessoa também. Então, eu me considero, sim, um homem feminista”.

E foi além: “Uma coisa que eu admiro muito na Joanna são as lutas dela e o engajamento. Principalmente no que se refere ao assédio sexual. E, vou ser bem sincero, foi ela que me mostrou tudo isso. A partir de então, eu passei a ser engajado com ela. Joanna é um exemplo, acho que não só para mim, mas para toda a minha família e para todos os nossos amigos. Ela é um exemplo de superação, de batalha, uma pessoa que não se cala quando vê uma coisa errada. Então, eu fico honrado e feliz. É disso que o Brasil está precisando, de pessoas mais honestas, mais competentes e mais transparentes”.

Leia, abaixo, o depoimento de cada um deles sobre o amor e a vida a dois:

:: Joanna Maranhão

“Eu conheci o Luciano em 2004, mas, na época, eu tinha 17 anos, e ele tinha uma outra namorada. Voltamos a ter mais contato em 2009, quando eu já tinha acabado meu primeiro casamento. E comecei a olhá-lo de forma diferente. Num primeiro momento, pela questão física. Luciano é muito bonito, mas eu confesso que jamais passaria pela minha cabeça que eu pudesse ter alguma chance com ele. Eu o colocava num patamar de homem inatingível. Aí, encontrei-o numa festa, comecei a conversar com ele e acabou que eu que dei o primeiro beijo. O que fez com que eu me apaixonasse por ele foi a pessoa que ele é. Um atleta de muito sucesso, com título de campeonato mundial, e tão disponível, nada egoísta. Com muita ética e respeito. Então, eu percebi que ele é muito mais bonito por dentro do que ele é por fora, por mais difícil que isso possa parecer.

Eu tive, desde muito cedo, educação política e sempre tentei sair da minha bolha de classe média e dos meus privilégios. E o Lu teve uma educação mais conservadora, mas também sentia vontade de fazer alguma coisa. E, a partir do nosso encontro, a gente aprendeu um com o outro, vamos em busca de um mundo mais fraterno em que os dois acreditam. A ideia da minha ONG [Infância Livre, que cuida de crianças que sofreram abuso em Recife, terra natal da nadadora, e onde ela ensina natação, na “filial” de Belo Horizonte, a crianças da rede pública] surgiu a partir do projeto social do Lu, que ele lançou em 2012. O Instituto Arrasta, que nasceu da vontade dele de retribuir tudo o que o judô tinha dado a ele.

Eu sempre falei para mim mesma que eu nunca iria namorar um atleta. A ideia de conviver com uma outra pessoa que tivesse a mesma rotina que eu, a vida louca de viagem, de treino, de seletiva, de ganhar, perder, ter de lidar com vitória e com fracasso… Mas quando eu conheci Lu, eu simplesmente joguei para o alto toda essa teoria, porque foi um encontro de almas. A desvantagem de namorar um esportista é sofrer com a pessoa quando alguma coisa não dá certo, quando ela enfrenta uma derrota. É algo que me dilacera e tenho que encontrar forças para dar apoio. As vantagens são a compreensão da rotina do outro, da ausência física, das concessões que precisam ser feitas pelo esporte.

Viajamos muito e foi algo a que tivemos que nos adaptar, mas eu nunca vi isso muito como problema. Até porque ficamos três anos e meio namorando a distância. Em alguns momentos a gente até pensou em desistir, teve períodos em que a gente mal se via. Mas ao mesmo tempo isso nos fortaleceu muito. Temos a consciência de que cada um tem o seu objetivo de vida e que se queremos estar juntos para o resto das nossas vidas, precisamos compreender que em primeiro vem a pessoa –vem ele com a vida dele, e eu com a minha própria vida– e depois a nossa vida juntos. Somos muito parceiros e respeitamos a liberdade e a individualidade do outro.

O mais bonito do nosso relacionamento é que a gente conversa sobre absolutamente tudo. A gente está sempre disposto a manter esse diálogo aberto. Eu nunca tinha tido nenhum namoro em que eu não precisasse tomar muito cuidado com o que eu vestia, ou com as amizades que eu tinha com outros homens, porque isso sempre tinha sido motivo de problema. E com o Luciano é diferente. Desconstruímos essa fórmula de que o casamento, para dar certo, tem que ser assim. Questionamos: tem que ser assim? Vivemos como nos sentimos bem.”

Joanna Maranhão, 31 anos, nadadora, tem entre suas principais conquistas cinco medalhas em Pan-Americanos. Foi finalista olímpica em 2004, com apenas 17 anos.

*

Luciano e Joanna nos jogos Pan-Americanos de Toronto, em 2015 (Reprodução/Instagram)

:: Luciano Corrêa

“Eu já conhecia a Joanna de vista, mas a primeira vez que nós ficamos foi em um show de axé, em Belo Horizonte. Ela brinca até hoje dizendo que ela deu em cima de mim. Uma coisa que me marcou muito desde o início foi a sinceridade dela, a lealdade, a transparência. E conforme eu fui convivendo com ela, fui me apaixonando.

Uma das coisas mais importantes do nosso relacionamento é a confiança. Cada um confia no outro e ajuda nos sonhos que ele tem. Nós dois temos alguns sonhos, e eles são compartilhados durante a nossa vida. Uma coisa que eu admiro muito na Joanna são as lutas dela e o engajamento. Principalmente no que se refere ao assédio sexual. E, vou ser bem sincero, foi ela que me mostrou tudo isso. A partir de então, eu passei a ser engajado com ela.

Joanna é um exemplo, acho que não só para mim, mas para toda a minha família e para todos os nossos amigos. Ela é um exemplo de superação, de batalha, uma pessoa que não se cala quando vê uma coisa errada. Então, eu fico honrado e feliz. É disso que o Brasil está precisando, de pessoas mais honestas, mais competentes e mais transparentes.

Eu vejo a luta da Joanna e de tantas outras mulheres, e acredito que o mundo precise de igualdade entre os gêneros. E a partir do momento em que eu a conheci, todas as nossas lutas passaram a ser juntas. Quando você se casa, você acredita totalmente nos ideais da outra pessoa também. Então, eu me considero, sim, um homem feminista.”

Luciano Corrêa, 35 anos, judoca, tem entre suas principais conquistas medalha de ouro no Mundial de 2007 e de bronze no Mundial de 2005. Além disso, ganhou dois ouros em jogos Pan-Americanos.

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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