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A campeã mundial que queria dar um chapéu em Neymar

Débora Miranda

22/07/2018 04h00

O time Resenha 013, que ganhou a categoria feminina do torneio Neymar Jr's Five

"A Andreza ainda sonha em ser jogadora profissional." Assim fui apresentada a Andreza Guedes, 20 anos, capitã do Resenha 013, time feminino que representou o Brasil no Neymar Jr's Five. Maior campeonato de futebol amador do mundo, o evento contou com a participação de mais de 60 países e teve sua final ontem, no Instituto Neymar Jr., na Praia Grande (litoral de São Paulo).

Cada equipe contou com seis participantes (jogam cinco por vez), e este ano foi o primeiro em que o torneio abriu espaço para o futebol feminino. Formada na Baixada Santista, a equipe brasileira contou com Edely, Marynara, Nasstajsa, Taliane e Fernanda, além de Andreza, que "ainda sonha em ser jogadora profissional".

Mas Andreza chegou à etapa final do Neymar Jr's Five com um outro sonho: dar um chapéu em Neymar, acredite se quiser. Isso, no entanto, só seria possível se o Resenha 013 vencesse o torneio, pois um dos prêmios era justamente entrar em campo com o craque brasileiro.

Determinada, partiu em busca de realizar seus sonhos. Venceu a semifinal contra a Eslováquia e a final contra a Itália numa espécie de prorrogação que é disputada num tenso um conta um, ou seja, todo o mundo sai de campo e ficam apenas duas jogadoras, uma de cada time, que se enfrentam sozinhas. Quem marcar primeiro ganha. E Andreza, fria e talentosa, garantiu os gols de ouro, as vitórias brasileiras e a conquista do título de melhor do mundo.

Andreza domina a bola, observada por Neymar

Neymar comemorou: "Estou feliz. Foi o primeiro torneio aberto para as meninas, e o Brasil representando tudo isso… Espero que essas meninas sirvam de exemplo para todas as outras, e que o futebol possa ser mais aberto não só para o masculino, mas também para o feminino".

Me preocupei com o sonho de Andreza –o de se tornar jogadora– e questionei:  você acha que essa vitória pode abrir espaço para essas meninas se profissionalizarem?

"Acho que sim, é um caminho que precisa ser trabalhado. As pioneiras disso tudo sabem o que elas sofreram, e espero que daqui para a frente seja cada vez melhor."

Após a vitória, Andreza demonstrava a mesma confiança que o craque: "Estou muito feliz, graças a Deus deu tudo certo. Ainda vou conseguir realizar meu sonho de ser jogadora profissional". E como foi jogar sob o olhar atento de Neymar? "É emocionante ter o melhor do mundo assistindo a gente. Ainda mais para mim, que sou santista roxa!"

Elogios à parte, Andreza seguia concentrada para o último jogo do dia:  aquele em que enfrentaria Neymar e amigas — para a partida comemorativa, o craque escalou Andressa Alves, do Barcelona; Alline Calandrini, do Corinthians; Érika, do PSG; e Raquel, que pratica freestyle.

"Agora estou mais relaxada. Esse jogo vai ser mais uma brincadeira com o Neymar.  Mas espero ainda realizar meu sonho! Vou dar um chapéu nele", anunciou, determinada.

Neymar e os dois times vencedores do torneio: as meninas do Brasil e os rapazes do México (Reprodução/Instagram)

Posicionei-me à beira do campo e fiquei esperando que Andreza, contaminada pelo clima de ousadia e alegria do evento, cumprisse a promessa. O jogo começou. Acompanhei a tudo atenta. A bola passou muitas vezes pelos pés de Andreza. Mais vezes ainda pelos de Neymar.  A certa altura, os dois se encontraram, frente a frente.

Ela parou, prendeu a bola sob o pé e olhou Neymar nos olhos. Ele ficou ali, parado, em posição de marcação, sem saber o que o esperava. Fiquei tensa e vi que Andreza movimentava o pé, carregando a bola de baixo para cima. Tudo isso deve ter demorado dois segundos e meio, mas juro que, para mim, passou em câmera lenta. A bola subiu, passou por cima de Neymar, mas Andreza seguiu parada. Não correu para completar o drible com que tanto sonhou.

Fiquei dividida entre o alívio e a frustração. Mas, de fato, talvez não fosse legal dar um chapéu no dono da festa. No fim do jogo, encostei ao lado dela, que me disse: "Não deu". Sua voz não carregava arrependimento nem tristeza. Tinha mais orgulho. De ter dividido o campo com aquele que, segundo ela mesma tinha me dito 15 minutos antes, era "o maior do mundo". E muita esperança. Afinal, que importância tem um simples chapéu na vida de uma jogadora que — por enquanto– não é profissional, mas que já é campeã do mundo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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