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Craque da bocha trabalha como motorista e garçonete

Débora Miranda

11/08/2018 04h00

Você pode não saber o que é bocha, mas até o "New York Times" já fez uma reportagem atestando: o segredo para uma vida longa é praticar essa modalidade. Talvez porque o esporte seja tão tradicional entre os idosos –e bastante querido por eles. Mas não é só a terceira idade que joga bocha. Tem uma nova geração ocupando as canchas (como os campos são conhecidos) e o melhor: cheia de meninas.

Ana Caroline Martins, 29 anos, foi vice-campeã mundial de bocha duas vezes (Jardiel Carvalho/Folhapress)

Ana Caroline Martins, 29 anos, é uma delas. Conheceu a bocha por meio do pai. "Eu sempre ficava vendo ele jogar. Entrava na cancha para brincar e acabei me apaixonando. Comecei a jogar aos sete anos, de brincadeira. E aos 11 eu me filiei a um time", conta ela. Quase 20 anos depois, Caroline é duas vezes vice-campeã mundial na modalidade.

"Venci o campeonato individual em Roma, em 2015. E, no ano passado, fiquei em segundo no World Games em dupla, na Polônia. Mas é difícil, porque a bocha não tem reconhecimento. Eu queria que fosse diferente, que as pessoas pudessem conhecer esse esporte, que é tão bom e tem tanta gente que pratica", lamenta a atleta.

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Carol hoje representa o Chapecó, mas, como vive entre São Paulo e Valinhos, se vira como pode para treinar. Recebe um salário do time, mas também trabalha como motorista de Uber e garçonete. "Eu gosto de dirigir e juntei o útil ao agradável. Porque se eu tenho que viajar para algum campeonato, eu desligo o aplicativo e vou. É bom para mim. Além disso, trabalho há nove anos como garçonete na pizzaria do GDR Piquery", conta ela, referindo-se a um dos mais tradicionais clubes de bocha de São Paulo.

Além de praticar o esporte, ela é garçonete e motorista de Uber (Jardiel Carvalho/Folhapress)

O maior sonho é se mudar para o Sul do país, onde o esporte é bastante tradicional e mais reconhecido. Enquanto isso, ela se vira como pode para treinar em clubes de São Paulo ao lado do marido, que é seu técnico. "Ele jogava pelo Palmeiras e, quando eu fui jogar lá, a gente se conheceu. Não dá para se casar com alguém que não seja desse meio. Tem que viajar, participar de campeonato, e se o marido não gostar acho que não tem como dar certo."

Carol diz que sempre teve bastante mulher jogando bocha nas canchas de clubes do país, mas reconhece que ainda há preconceito no meio. "Alguns atletas aceitam bem a participação feminina, muitos não. Outro dia ia ter um torneio aqui em São Paulo e não me deixaram participar. Disseram: 'Imagina se fulano vier jogar e você ganhar dele?'. Alguns homens ainda têm medo de perder para mulheres. E, mesmo quando ganham, desvalorizam a vitória. É muito complicado."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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