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"Tenho momentos de prazer e de dor sobrenatural", diz ultramaratonista

Débora Miranda

2031-08-20T18:04:00

31/08/2018 04h00

Vinte e seis horas correndo em montanhas com neve. Já imaginou? Pois a ultramaratonista Fernanda Maciel, 38 anos, é capaz disso e muito mais. "Para mim é natural, mas realmente é chocante para muita gente ver que tem uma mulher que é tão forte, que corre tanto. Acho que cada vez mais o mundo vai ver mulheres em situações extremas, mostrando força e coragem", diz a vice-campeã mundial de ultramaratona.

Fernanda Maciel correrá prova de 171 km (Mathis Dumas/Divulgação)

Fernanda subiu e desceu correndo montanhas como o Aconcágua e o Kilimanjaro, além de ter percorrido, em dez dias, os 900 quilômetros do caminho de Santiago de Compostela. Hoje, ela participa pela quinta vez da Ultra Trail Mont Blanc, prova de 171 quilômetros de extensão, que parte da França, passa por Itália, Suíça e volta para a França –sempre em montanhas. Da última vez em que ela competiu e completou a prova, seu tempo foi 26 horas e cinco minutos. E conseguiu um primeiro lugar em 2009.

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"Eu sou uma pessoa supermotivada e disciplinada. Essas virtudes me ajudam muito. Nunca estou cansada. E trabalho com meditação e muito foco. O trabalho mental é muito importante para manter equilíbrio entre corpo e mente. É preciso ter fé para poder suportar a dor, porque, claro, eu tenho inúmeros momentos de prazer [ao longo da prova] e momentos de dor sobrenatural", afirma.

Leia, abaixo, trechos da entrevista que ela deu ao "Extraordinárias".

Correndo da escola para casa

"Sou de Belo Horizonte e comecei a correr como meio de transporte, porque não gostava de pegar ônibus. Então, eu ia para o colégio caminhando e voltava correndo para casa. Aos 16 anos, comecei a correr 5 km, depois 10 km, mas sempre no asfalto. Quando tinha 25 anos, fui para a Nova Zelândia e, lá, corri pela primeira vez em montanhas. Depois, fui convidada para disputar minha primeira ultramaratona [prova que tem mais de 50 km, sempre com bastante desnível] na Califórnia. Isso faz dez anos e nunca mais parei. Eu vi que era melhor na montanha do que no asfalto, eu tinha mais técnica. Além disso, correr na natureza me inspira muito mais."

Treinos nos picos mais altos

"Eu treino correndo bastante e procuro estar sempre nas montanhas mais altas. Assim, durante a prova, fica mais fácil, porque eu faço muito mais esforço durante os meus treinos. Busco percursos muito técnicos, que tenham gelo, neve e pedras."

É importante saber quando parar

"Às vezes tenho medo, se está chovendo ou nevando muito. Quando as condições estão muito difíceis, é preciso ser rápida. Se você parar, se sentar numa pedra e ficar lá, você pode ter hipotermia, e eu já perdi amigos assim. Na minha primeira tentativa de subir o Aconcágua, comecei a ter tosse e, se continuasse, teria um edema pulmonar. Precisei ser resgatada de helicóptero. Na segunda tentativa também enfrentei uma situação arriscada, então desci. Quando começa algum sinal de mal de altura, eu sempre recuo e desço. Faço esporte porque eu gosto, não para prejudicar minha saúde. A montanha sempre vai estar lá, posso voltar a cada ano. No ano passado, nessa mesma prova que vou correr agora, entrou muito gelo no meu olho e cortou minha córnea. Eu abandonei. Claro que eu tento, me esforço e estou sempre fora da minha zona de conforto, mas isso não quer dizer que eu esteja em zona de perigo."

Expectativa para a prova

"Estou feliz porque parece que na primeira noite não vai chover, o que significa que não fará tanto frio nem vai nevar. Já é um alívio. A cada ano, a prova é mais difícil, são quase 3.000 corredores, de cem nacionalidades diferentes. Os melhores do mundo participam. É muito tempo no limite, em percurso extremo e longo. Tem gente que para nos check points ao longo do caminho, mas eu prefiro não. Passo rápido, só pego alguma coisa para comer e continuo correndo. Para chegar no pódio é preciso correr no máximo o tempo inteiro."

Como trabalha a mente?

"Eu sou uma pessoa supermotivada e disciplinada. Essas virtudes me ajudam muito. Nunca estou cansada. E trabalho com meditação e muito foco. A mente tem que estar também descansada. Porque em toda prova, por mais que você esteja preparada, coisas dão errado, saem do planejado e é preciso manter a calma. Também faço terapia, porque é importante ter equilíbrio emocional. Além disso, acredito que espiritualmente você tem que estar aberto e com muita fé. O trabalho mental é muito importante para manter equilíbrio entre corpo e mente. É preciso ter fé para poder suportar a dor, porque, claro, eu tenho inúmeros momentos de prazer [ao longo da prova] e momentos de dor sobrenatural."

Ser mulher num esporte extremo

"É difícil. Para mim é natural, mas realmente é chocante para muita gente ver que tem uma mulher que é tão forte, que corre tanto. Acho que cada vez mais o mundo vai ver mulheres em situações extremas, mostrando força e coragem."

Relação com as montanhas

"Sou de Minas Gerais e meus pais sempre me levavam para a Serra do Cipó, para passear, acampar. A gente também tinha uma casa de campo, e a minha melhor brincadeira de criança era correr até a cachoeira. Tudo isso sempre esteve muito enraizado em mim. Gosto de correr em montanha, porque, dessa forma, estou sempre no meio da natureza. Esteira eu fiz três vezes na minha vida."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?