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Extraordinárias

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"Depois de mim, mulheres ganharam direitos iguais aos homens no vôlei"

Débora Miranda

01/11/2018 04h00

Ela foi afastada três vezes da seleção brasileira de vôlei, acusada de indisciplina. Mas se calar diante de injustiças é algo que Jackie Silva, medalha de ouro do vôlei de praia na Olimpíada de Atlanta (1996), não faz. Com temperamento forte, sempre batalhou para que as atletas mulheres tivessem os mesmos direitos que os homens –o que teve grande custo em sua vida profissional.

Jackie Silva batalhou pela igualdade de direitos entre homens e mulheres no vôlei (Divulgação)

"Os jogadores recebiam dinheiro pelo patrocínio, e as jogadoras, com os mesmos patrocínios, não recebiam nada", lembra ela. Um dos momentos mais marcantes dessa fase foi quando Jackie decidiu vestir o uniforme, durante o treino, do avesso. Foi chamada de rebelde e afastada –na época, ainda jogava vôlei de quadra.

O episódio, no entanto, fez com que as mulheres começassem a receber ajuda de custo dos patrocinadores. Mas não Jackie, que ficou desempregada. Entre 1984 e 1985, passou pelo pior momento de sua carreira. As equipes consideravam o salário que a então levantadora pedia alto demais, e ela precisou contar com a ajuda dos amigos. Fazia jogos de demonstração, vendia camisetas, lançou um livro e, a certa altura, chegou a rifar a Vespa que tinha. Mas diz que tudo valeu a pena, pois manteve seus princípios.

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Em 1987 foi contratada por um clube da Itália. Paralelamente, começou a jogar vôlei de praia nos Estados Unidos, o que a fez se apaixonar pelo esporte em que teria sua maior conquista.

Hoje aposentada, Jackie trabalha no instituto que leva seu nome e atua dentro de escolas públicas, levando o esporte como agente transformador para crianças e jovens. Recebeu da Unesco, em 2009, o prêmio Atleta pelo Esporte, reconhecimento a quem promove educação e atividades esportivas como forma de construir um futuro melhor.

Em entrevista ao "Extraordinárias", a ex-atleta diz que não se arrepende de nada, mas que a luta tem que continuar. "Ainda hoje existe a falta de reconhecimento, e mulheres não trabalham em cargos de direção no esporte, no Brasil."

*

Você ficou conhecida como uma jogadora rebelde. Qual era a luta mais importante para você na época?

A luta era por igualdade de gêneros. Os jogadores recebiam dinheiro pelo patrocínio, e as mulheres, com os mesmos patrocínios, não recebiam nada.

Você foi prejudicada profissionalmente por causa do seu posicionamento, chegou a ser afastada várias vezes da seleção. Arrepende-se de suas posturas?

Não tenho arrependimento, e a luta continua. Ainda hoje existe falta de reconhecimento, e o esporte é dirigido por homens. Mulheres não trabalham em cargos de direção no Brasil.

Jackie conheceu o vôlei de praia nos Estados Unidos, depois de sofrer com três afastamentos da seleção brasileira de quadra (Sergio Moraes – 9.out.2003/Reuters)

Você jogou na época do regime militar e estava na ativa durante as Diretas Já, movimento em que muitos esportistas se engajaram. Você se envolveu em alguma luta política na época?

Eu não me envolvi em nenhum movimento, pois estava fora do Brasil. Tinha me posicionado contra a forma como o presidente Nuzman agia e, por isso, fui cortada do esporte no país [Carlos Arthur Nuzman foi presidente da Confederação Brasileira de Voleibol e do Comitê Olímpico Brasileiro; esteve preso em 2017 acusado de integrar um esquema de compra de votos para que o Rio fosse escolhido sede da Olimpíada de 2016]. Acho que no vôlei, depois do meu posicionamento, as atletas começaram a ter direitos iguais aos dos homens.

Como avalia o posicionamento das jogadoras da geração atual?

Posso falar pelo vôlei. Acho que os atletas atuais pensam muito nas suas próprias atuações como esportistas e só.

Uma das grandes polêmicas atuais é a questão de mulheres transexuais jogando vôlei. Você tem opinião a respeito?

Minha opinião é que deve existir espaço para todos. Precisamos repensar as mudanças e encontrar formas de aceitá-las para evoluirmos.

No vôlei de praia, ela venceu o ouro olímpico em 1996 (Kevork Djansezian – 13.set.1997/AP)

Hoje você trabalha com projetos sociais. Pode falar um pouco deles?

Meu trabalho no Instituto Jackie Silva é realizado dentro de escolas públicas. Acredito no esporte como forma de transformação de pessoas e ambiente. Quero colaborar com a educação e me esforço para fazer bem e ajudar a quem precisa.

Acabamos de ter um presidente eleito, em um processo eleitoral bastante carregado de polêmicas e agressividade. Qual é a sua expectativa para o mandato que começa em janeiro?

Sobre o atual presidente , acredito na democracia e vou lutar pela nossa liberdade acima de tudo, sempre. Desejo a ele boa sorte e bom senso. E boa sorte ao Brasil e aos brasileiros.

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?