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Manifesto de mulheres no futebol acaba em machismo e viraliza: "Beija!"

Débora Miranda

2031-01-20T19:11:45

31/01/2019 11h45

17 de fevereiro de 2017. É dia de Re-Pa em Belém. Torcedores de Remo e Paysandu dividem espaço no estádio Mangueirão. A menos de um mês do Dia Internacional da Mulher, líderes de torcida de ambos os times e algumas torcedoras entram em campo, antes de o jogo começar, carregando uma faixa com os dizeres: "Lugar de mulher é onde ela quiser. Inclusive no estádio". Em baixo, a hashtag #respeitaasminas.

Ao passarem pela torcida do Remo, são recebidas com gritos de "Beija, beija, tá calor, tá calor. Eu só quero enrabar as mulecas da Terror." Terror Bicolor é uma torcida organizada do Paysandu. A situação foi registrada em um vídeo que só agora, dois anos depois, viralizou na internet, escancarando o machismo e o desrespeito que ainda existem nos estádios de futebol.

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Essas torcedoras fizeram uma manifestação pedindo mais respeito nos estádios. E foi assim que os homens reagiram…

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A designer gráfico Victoria Luiza Santos de Oliveira, 22 anos, foi uma das mulheres que participaram da ação naquele dia. Ela faz parte do grupo Bicolindas, de líderes de torcida do Paysandu. "Era um protesto pela inclusão das mulheres no meio do futebol. Nos reunimos com algumas meninas do Remo e demos a volta no campo carregando aquela faixa. Foi quando a torcida começou a cantar. Além disso, atiraram objetos em nós. Foi muito difícil, eu me senti mal, nunca tinha passado por aquilo, ouvi muitos xingamentos", lembra.

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Ana Carolina Alves Camara Silva, 24 anos, professora, é coordenadora das Bicolindas (o nome é uma combinação das palavras bicolor, em referência ao azul e branco do Paysandu, e linda). Ela explica que a cultura das líderes de torcida –também conhecidas como cheerleaders— está se fortalecendo na região. No Pará, Castanhal e São Raimundo, além de Remo e Paysandu possuem projetos desse tipo.

"É costume aqui as líderes de torcida se unirem, apesar da rivalidade dos times, para fazerem algumas campanhas. Temos aliança com As Mais Queridas, que são as líderes de torcida do ABC, com as Leoas da Barra, que são do Vitória, e também com as Gloriosas, do Botafogo. Essa parceria funciona justamente para fortalecer essa cultura de líderes de torcida dentro do nosso país e para ter esse amparo, essa força, poder uma ajudar a outra diante de situações como essa do vídeo, por exemplo."

Ana Carolina conta que a seletiva para fazer parte do grupo é rigorosa e, antes de avaliar o talento para a dança, são testados os conhecimentos das meninas a respeito do time. Elas se consideram torcedoras e são assíduas. Mas se o preconceito na arquibancada ainda é grande, com relação às meninas que dançam dentro de campo a situação pode ser ainda pior.

"É uma luta constante. As meninas são sempre analisadas de forma pejorativa. Infelizmente, o trabalho delas não é visto como uma modalidade artística e, sim, como vulgaridade. Mas temos uma grande força ao nosso lado que é o clube, que nos apoia muito", revela.

O Paysandu divulgou uma nota nesta quarta (30), destacando torcedoras históricas e se posicionando contra o machismo. "Repudiamos qualquer ato de desrespeito contra toda e qualquer mulher, seja ela bicolor ou não, dentro ou fora do estádio, como mostra um vídeo antigo que curiosamente passou a circular hoje nas redes sociais, no qual as nossas líderes de torcida foram xingadas em uma partida. Preconceito tem de ser combatido e não tolerado! Meninas, mulheres, senhoritas, senhoras, o Papão também é e sempre será de vocês! Vocês sempre serão bem-vindas em qualquer lugar!"

As Bicolindas, grupo de líderes de torcida do Paysandu (Reprodução/Instagram)

Segundo Ana Carolina, as líderes de torcida também recebem apoio de torcedoras organizadas. "Nós temos uma relação muito boa com a Apayxonadas e a Charme Bicolor –que, inclusive, estava conosco na manifestação mostrada no vídeo. Principalmente nessa questão da luta pelo espaço das mulheres dentro do estádio. As meninas das organizadas participam de eventos, fazem palestras. A maior organizada do Paysandu é a Terror Bicolor, que também respeita muito as meninas. O nosso maior obstáculo é justamente a sociedade, é a cultura."

Mas Victoria diz que, desde o traumático 2017, pouca coisa mudou. "Continua a mesma coisa, pelo menos é o que eu presencio. Vou a 90% dos jogos em casa e vejo até comentários machistas de mulheres. Nós tiramos dinheiro do nosso bolso para estar ali, trabalhamos debaixo de chuva e de sol. Temos muito amor ao clube", afirma ela. As meninas não recebem salário. Beneficiam-se apenas de parcerias que o projeto faz.

A resistência, no entanto, segue forte. Especialmente nas redes sociais. Um post recente assinado pelas Bicolindas no Instagram responde a questionamentos desrespeitosos a respeito da forma física das meninas. E elas esperam que a divulgação do vídeo possa gerar reflexão e mudanças. Dentro de campo, nos intervalos dos jogos, as Bicolindas continuam mostrando suas coreografias e tradicionalmente formam uma pirâmide humana. No fim, levantam plaquinhas com letras que formam a palavra RESPEITO.

"É uma coisa básica e muito importante que, infelizmente, nem sempre existe", conclui Ana Carolina.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?