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Wings For Life: o que aprendi sobre corrida de rua com uma tetraplégica

Débora Miranda

09/05/2019 04h00

É domingo no Rio de Janeiro. Faltam poucos minutos para as oito da manhã, e o sol já queima forte. Milhares de pessoas se acumulam na altura do posto 12, no Leblon. Todo o mundo quer um lugar na sombra. Inclusive eu, ainda meio sonolenta, mas já suando em bicas.

Mais de 5.000 pessoas ocuparam as ruas do Rio na corrida (Marcelo Maragni/Divulgação)

Me encolho debaixo de uma árvore e espero. Às oito em ponto é dada a largada da corrida. Disparo meu relógio e parto, ziguezagueando entre as pessoas. Saio em em um ritmo forte. Aquele trecho ainda tem sombra, e a brisa do mar dá um fôlego a mais.

Estou na Wings For Life World Run, prova que converte o valor arrecadado para financiar pesquisas para a cura da lesão medular. Em vários lugares do mundo, naquele mesmo horário, outras milhares de pessoas estavam largando com o mesmo objetivo. Lembro da preciosa lição que aprendi no dia anterior conversando com Danielle Nobile e tiro um dos fones do ouvido.

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Danielle ficou tetraplégica em 2012, após um acidente de carro. "Na época, eu já havia corrido sete meias-maratonas. Estava treinando para a maratona que correria no ano seguinte e para o meu primeiro triátlon. No dia em que eu passei uma linha de chegada pela primeira vez, eu soube que era o que eu queria fazer para o resto da minha vida. Foi ali que me encontrei."

A lição que ela havia me dado no dia anterior consistia basicamente em: não correr de fones de ouvido –o que eu sempre fiz. "Na maratona de Nova York, uma corredora com fones de ouvido me derrubou no chão. É importante estar atento ao que acontece em volta, até por segurança. Às vezes tem um corredor que é mais rápido do que você. Ou pode ser necessário a ambulância entrar na pista para ajudar alguém. A pessoa de fone de ouvido não escuta e não sai da frente, não dá passagem. Ela esquece que está correndo com outras 10 mil, 20 mil pessoas."

Enquanto pensava nisso, cruzei com o primeiro de muitos cadeirantes que eu veria ao longo da prova. Ele contava com a ajuda de uma outra pessoa, que o empurrava. Ambos muito animados, conversando e gesticulando para os outros corredores. Me emocionei. Corridas de rua são espaços de superação, cada um no seu ritmo tentando ser um pouco melhor do já foi antes, tentando ir mais longe, tentando conseguir mais fôlego e mais força. Talvez a metáfora mais perfeita do que é o dia a dia de alguém batalhando para voltar a andar.

"O médico disse para os meus pais que se eu fosse uma pessoa sedentária tinha morrido no acidente", conta Danielle. "Mas o meu preparo físico e a minha saúde fizeram com que a minha recuperação fosse muito mais rápida. Eu tenho lesão medular na C7, então, clinicamente, eu sou tetraplégica. Eu não mexia os braços. Nada. Aí, na UTI, a fisioterapueta me disse: 'Quando você lembrar, tenta mexer os braços'. E eu ficava forçando. Era a minha vida, não era algo que alguém poderia fazer por mim. Então, fui devagarinho recuperando os movimentos, apesar de ainda ter sequelas. Mas hoje eu me viro bem", afirma a atleta, que atualmente, sem condições de pagar fisioterapia, faz seus exercícios sozinha.

Assim que recebeu alta da UTI e foi para o quarto, Danielle começou a procurar um esporte que conseguisse praticar. "Pensei que eu não podia correr, não podia pedalar, então decidi nadar. No dia em que eu completei nove meses de acidente, ganhei minhas duas primeiras medalhas na natação." Daí para as maratonas e para o triátlon não demorou muito.

A principal dificuldade enfrentada por ela foi conseguir os equipamentos adequados para competir. Mas nada disso fez diminuir sua vontade de praticar esporte. "Com um ano e meio de lesão completei a minha primeira meia-maratona. Na época, eu não tinha experiência nem informação, mas eu não estava lá para competir. Estava lá para fazer a minha prova. E, naquele dia, uma amiga me falou uma coisa que me marcou muito. Estávamos no pórtico para largar e ela me disse: 'Aqui é o seu lugar, de onde você nunca deveria ter saído'", lembra, emocionada.

O calor no Rio de Janeiro já chegava aos 30 graus, com sensação térmica de 60 (pelo menos a minha sensação era essa). O calor subia do asfalto pelos meus pés, o suor pingava nos meus olhos e escorria pelo corpo todo. Cheguei a um ponto de hidratação! Quase um milagre. Peguei dois copinhos de água. Um bebi e o outro joguei na cabeça e na nuca. Meu relógio mostrava o coração a 190. Decidi caminhar um pouco.

A Wings For Life não tem linha de chegada nem quilometragem estabelecida. Meia hora após a largada, um carro parte na direção dos competidores. Assim que ele passa, sua participação na corrida termina — pelo menos oficialmente. Se você ainda se sente bem e disposto, pode seguir correndo. Eu achei que o carro chegaria até mim logo, mas entrei no quilômetro seis e nem pistas dele. Esperei o coração acalmar um pouco e voltei a correr.

Danielle Nobille antes da largada (Divulgação)

"Tem momentos em que eu fico triste, tem momentos em que eu choro", me contou Danielle no dia anterior. "Mas eu não gosto de deixar isso se prolongar demais. Eu simplesmente falei: 'Chorar não vai me fazer voltar a andar'."

Danielle me disse que as pesquisas conduzidas pela Wings For Life são sua grande esperança. "Acredito que a tecnologia é que vai me ajudar. Os neuroestimuladores em que eles estão trabalhando estimulam a medula de forma geral, então não se trata só de voltar a andar, mas de recuperar outras funções, como as urológicas. Eu acredito que [a cura] vai ser mais na parte tecnológica do que na área da medicina."

Enquanto esse projeto não se realiza, o esporte, a seu modo, é que vem transformando a vida de tantos cadeirantes. "O esporte salvou a minha vida, de várias formas. Primeiro porque o médico disse para o meu pai que se eu fosse uma pessoa sedentária, tinha morrido dentro do carro no acidente. Segundo porque a corrida não me deixou enlouquecer. Como eu tinha o objetivo de voltar a correr, eu me apeguei a isso e pensei lá na frente. Não pensei em tudo o que estava acontecendo naquele momento. E o esporte me deu uma missão: mostrar que podemos fazer o que quisermos. Eu falei que ia fazer triátlon e me disseram: 'Mas não tem nenhuma mulher no Brasil que faz triátlon. Então eu vou ser a primeira. Se não tem ninguém, agora vai ter eu e depois de mim vai aparecer mais alguém."

Chego aos nove quilômetros e nada de o carro passar por mim. Estava exausta. Poucas vezes eu havia corrido mais de dez quilômetros na minha breve carreira de corredora de rua. Ao mesmo tempo, me sentia bem. Feliz. Encorajada. Levantei o olhar e uma vez mais li a mensagem nas costas da camiseta da moça que estava na minha frente: "Corra por aqueles que ainda não podem".

Quando atinjo os 11 quilômetros, escuto uma gritaria. É o carro. As pessoas levantam os braços, comemoram. Faço o mesmo, rio sozinha e, óbvio, paro de correr, desfalecendo. Uma vez mais penso em Danielle, em como a história dela me inspirou a chegar além do que eu achei que fosse capaz e no que ela me disse ser seu maior sonho.

"Fazer uma maratona. Andando. O plano A é esse, desde o começo: andar. O plano B é ser uma grande atleta. Eu quero motivar outras pessoas, mas principalmente as mulheres. Mostrar que a gente pode tudo o que a gente quiser. Nós somos pensadoras, inteligentes, atletas, engenheiras, médicas, CEOs de empresa. Nós somos, sim, uma força poderosa."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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