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O dia em que eu traí o Corinthians. E gostei

Débora Miranda

30/08/2019 04h00

O Pacaembu sediou, nesta quinta, partida de futebol feminino entre Brasil e Argentina

Foi difícil para mim. Na minha hierarquia futebolística, o Corinthians ocupa os dez primeiros lugares de importância. E os dez depois desses dez. E assim consecutivamente. Eu até simpatizo com a seleção, torço em época de Copa do Mundo e juro que nunca vesti uma camisa da Argentina. Mas quem faz meu coração bater mais forte é mesmo o alvinegro da zona leste.

Decidir ir a um outro jogo de futebol no mesmo dia e horário em que o Corinthians estava em campo foi, portanto, difícil para mim. Teve gosto de traição. E por um tempo eu até carreguei aquela ressaca moral de quem está fazendo coisa errada, mas voltar ao Pacaembu acalmou meu coração. Sentar de novo naquelas arquibancadas onde tantas vezes eu vi meu time ser campeão foi o primeiro indício de que a noite seria inesquecível.

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Em campo estava a seleção brasileira feminina de futebol, em seu primeiro jogo sob o comando da técnica sueca Pia Sundhage. Fora algumas jogadoras lesionadas, entre elas Marta, era basicamente o mesmo time que havia disputado a Copa do Mundo. Era o mesmo, mas era diferente. Organizado, aguerrido, ofensivo, veloz. Um futebol lindo de se ver.

Do outro lado, a Argentina, que é rival histórica, mas tem time nitidamente inferior, incapaz de ameaçar o Brasil. E dá-lhe 5 a 0, com gols de Ludmila, Formiga, Debinha, Erika e com direito ainda a um gol contra. Alegria pura!

Mas o melhor nem foi isso. O que tornou essa noite no Pacaembu inesquecível foi o que aconteceu fora de campo, nas arquibancadas. Nada de vaias nem de gente dormindo. O estádio foi dominado por um espírito elevado, pelo orgulho de cantar Brasil, de gritar os nomes das jogadoras e da técnica –que claramente já conquistou o coração da torcida. Era música, aplausos e olas intermináveis. E rolaram até uns gritos generalizados de "Fora Bolsonaro".

Famílias unidas, coletivos de futebol feminino, camisas de Corinthians, São Paulo, Palmeiras lado a lado e em paz. Crianças vibrando a cada gol, dançando ao som dos gritos de guerra e correndo pelos degraus históricos do Pacaembu. Homens, muitos homens também admirando o lindo futebol da nossa seleção. Um espaço sem espaço para preconceitos nem discriminação. Enfim, o futebol como ele deveria ser sempre. Com democracia, alegria e ingressos acessíveis. Treze mil cento e oitenta pessoas felizes da vida por estarem ali.

Quando a goleada finalmente se encerrou e o apito sinalizou o final da partida, o mais bonito aconteceu. As pessoas desceram das arquibancadas e se colocaram nos alambrados, esperando pelas jogadoras. E elas vieram. Conversaram, tiraram milhões de selfies, receberam o carinho da torcida brasileira e devolveram em agradecimento.

No fim do jogo, uma multidão se aglomerou no alambrado, esperando pelas jogadoras…

…que tiraram selfie com todo o mundo

Eu ainda tive tempo de ver o Casão passando no gramado.

Ele também tinha traído o Corinthians.

E parecia tão feliz quanto eu.

*

No domingo, o Brasil disputa a final do Torneio Uber Internacional de Futebol Feminino contra o Chile, às 13h. Ainda há ingressos à venda, e os valores vão de R$ 22 a R$ 26,40, dependendo do setor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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