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Camisa 24 e grito de bicha: futebol não é coisa de viado?

Débora Miranda

12/01/2020 04h00

Houve um tempo em que futebol não era coisa de mulher. A não ser que fosse mulher-macho. Quem gostava de futebol, jogava futebol, torcia por futebol só podia ser lésbica e masculinizada. Afinal, coisa de homem.

Vadias também eram relativamente bem-aceitas, desde que não se importassem com os gritos criminosos vindos da arquibancada. E elas não se importavam, afinal, vadias. Mereciam aquela recepção.

Mulher de verdade, delicada, de bem, feminina, recatada e do lar não podia ter nada a ver com esporte. Onde já se viu mexer o útero de lá para cá, correndo o risco de ficar infértil e impossibilitando sua mais importante realização social, a procriação?

Não podia. Agora pode. Foram anos de luta e resistência. Foi até meio goela abaixo, eu diria. Mas foi. Ninguém mais pode hoje decidir que tipo de mulher gosta de futebol. Tem lésbica, tem vadia, tem virgem, tem mãe de família, tem criança, tem grupo de amigas, tem senhoras de idade, tem evangélica e muçulmana. Tem todas nós, de mãos dadas, avançando. Respeitando e exigindo respeito.

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E, curiosamente, de tanto serem chamadas de sapatão, as mulheres que de fato gostam de mulheres encontraram coragem e acolhimento –mesmo que ainda em maior parte ele seja mesmo feminino– para se assumir. Há inúmeras jogadoras, ídolos mundiais e brasileiras, que já vivem seus relacionamentos com outras mulheres abertamente. Que postam fotos das namoradas e esposas nas redes sociais, felizes da vida, e que se tornaram referências para tantas outras meninas que frequentam a arquibancada dos estádios ainda num combate árduo e diário contra a homofobia.

E o machismo, quem diria?, vem agora fazendo dos homens do futebol suas grandes vítimas. Futebol, o maior orgulho do macho brasileiro, não pode nem nunca poderá ser coisa de viado. O grito de bicha nos estádios, a cada cobrança de tiro de meta do goleiro adversário, está entre as coisas mais graves e ao mesmo tempo tolas já criadas no mundo do esporte. Inclusive e especialmente porque, queridos, ser bicha não é ofensa alguma.

A temida camisa de número 24 também permanece temida. O Corinthians ressuscitou, na última sexta, a lamentável associação do número do jogo do bicho com a homossexualidade e orientou o recém-contratado Victor Cantillo, que já usava o número 24 no Júnior Barranquilla, seu antigo clube, a trocá-lo pela camisa 8.

O goleiro Cássio brilhou muito com a camisa 24 na Libertadores de 2012 –no campeonato, os jogadores vestem de 1 a 30 (Rubens Cavallari/Folhapress)

O atleta ficou sem entender direito, mas acatou. Disse que foi orientado a não usar a 24 aqui no Brasil. Fenômeno que com frequência inacreditável se repete nas equipes nacionais. Numa espécie de maldição sem sentido algum, o 24 é pulado nas escalações. Vai que né?

Vai que o quê? O que de ruim pode acontecer com o sujeito homem que vestir a camisa 24 para jogar futebol, me digam?

Mas é a mística da masculinidade tóxica brasileira ferindo todos nós, uma vez mais. Os gays que amam o esporte –e há muitos, acreditem, jogadores, torcedores, jornalistas, dirigentes–, que recebem novamente a clara mensagem de que não são bem-vindos no mundo do futebol. E os próprios clubes, que têm obrigação de criar ambientes inclusivos e diversos para receber atletas e especialmente seus torcedores apaixonados, sem reproduzir comportamentos discriminatórios.

Quanto tempo mais os times de futebol vão levar para entender a importância social que eles têm na transformação da sociedade, na quebra de paradigmas, no enfrentamento à violência doméstica, no fim do preconceito de toda e qualquer espécie? Campanhas sociais são importantes, mas antes de falar ao mundo sobre respeito e amor, é importante praticar dentro de casa. E a lição número 1 é: DE UMA VEZ POR TODAS, FUTEBOL É COISA DE TODO O MUNDO.

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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