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"Russos não têm muito respeito pelas mulheres, não", diz Glenda Kozlowski

Débora Miranda

21/06/2018 04h00

Num momento de vergonha generalizada e de autoestima profundamente abalada, para dizer o mínimo, em que vejo –e compartilho– a indignação de tantas brasileiras nas redes sociais, desculpando-se com as mulheres russas pelo comportamento de alguns dos nossos torcedores, volto a destacar aqui a luta diária das jornalistas esportivas que, ainda em minoria, estão na Rússia trabalhando na cobertura da Copa do Mundo. Conquistando espaço em um esporte ainda tão misógino, num país em que o machismo é, em muitas instâncias, sustentado pelo Estado.

Glenda Kozlovski em Rostov, onde o Brasil fez sua estreia na Copa (Reprodução/Instagram)

"Eu já tinha estado na Rússia em novembro, gravando a série 'As Matrioskas', com as mães de alguns jogadores. Passamos 15 dias lá, fizemos uma imersão em Moscou e fomos a São Petersburgo também. No que se refere a mulheres, o russo é  muito machista, muito preconceituoso. Não trata bem as mulheres. Isso você vê nas ruas, é muito claro. Eles são bem grosseiros. Você anda na rua, o russo te para, quer pegar seu telefone, é uma coisa muito louca. Eles não têm muito respeito pelas mulheres, não. Isso foi o que eu senti", diz Glenda Kozlowski, que está de volta ao país para a cobertura da Globo, acompanhando a seleção brasileira.

Janaina Xavier, que participa da cobertura do SporTV, conta que nunca tinha estado no país. "A Rússia, assim como o Brasil, ainda precisa avançar muito no que diz respeito à igualdade de direitos entre homens e mulheres. Elas também sofrem muito no mercado de trabalho. Talvez o preconceito sexista seja ainda maior do que no Brasil. Há um abismo salarial entre os sexos e é raro ver mulheres no poder. Além disso, muitas russas também precisam conquistar autonomia dentro da própria casa. Os índices de violência doméstica são enormes, infelizmente."

Em fevereiro de 2017 foi aprovada uma lei no país que descriminaliza a violência doméstica. Se um homem agredir a esposa e/ou os filhos, mas não deixar marcas e não quebrar ossos, ele não é punido com cadeia. Tem apenas que pagar multa ou fazer trabalhos voluntários. Ele só não pode partir para a violência mais de uma vez ao ano. E, mesmo assim, é responsabilidade da vítima reunir provas contra o agressor para apresentar diante de uma corte.

A jornalista colombiana Julieth González Therán foi agarrada e beijada em Moscou (Reprodução)

O clima de animação e bebedeira piora ainda mais as condições de trabalho para as jornalistas –que sofrem com as abordagens de torcedores de várias nacionalidades, não apenas os russos. A jornalista colombiana Julieth González Therán, da Deutsche Welle, grupo de mídia alemão, foi agarrada e beijada por um homem antes da cerimônia de abertura, em Moscou. Em seu Instagram, afirmou: "Compartilho a alegria do futebol, mas devemos identificar os limites entre afeto e assédio".

No jogo entre Argentina e Islândia, fora do estádio, um torcedor islandês ameaçou interromper com gracejos a entrada ao vivo da repórter Agos Larocca, da ESPN, mas foi impedido por um produtor. Dois torcedores argentinos também assediaram e tentaram beijar uma repórter de seu país no mesmo jogo. E muito disso aconteceu também aqui no Brasil, na Copa de 2014 (e acontece nos campeonatos regionais de futebol). Beijos e agarrões são distribuídos a torto e a direito em jornalistas que estão trabalhando.

Mesmo assim, orgulho!

Janaina Xavier está em Moscou para a cobertura do SporTV (Reprodução/Instagram)

Apesar dos problemas, todas as jornalistas escaladas para trabalhar na Copa do Mundo têm em comum um sentimento: o orgulho de poder fazer parte de um evento tão grande e importante para o esporte. "Espero ver muitas colegas de trabalho do Brasil e de tantos outros países dando exemplo de competência e mostrando que Copa do Mundo é lugar de mulher também! Me orgulha ir a mais uma Copa e acredito que desta vez o número de mulheres na cobertura será maior do que quatro anos atrás", afirma Janaina, que apresenta o "Planeta SporTV".

Ela conta que está em seu segundo Mundial e que o primeiro, no Brasil, foi a realização de um sonho. "Em 2014 eu ainda era repórter e cobri a seleção brasileira. Acompanhei o time desde a preparação até o último dia. Foi intenso, foi especial demais e um privilégio."

Já Glenda estreou na Copa da Alemanha, em 2006, e emenda sua quarta cobertura. "Essa Copa tem tudo para ser muito interessante. Há algumas novidades e países de peso que acabaram ficando de fora, como Itália e Holanda. Por outro lado,  a Islândia se classificou. Então, é uma Copa muito emblemática, com mensagens valiosas para os países que querem manter a tradição do futebol sobre a importância do investimento, da preparação de profissionais sérios. O futebol não é mais amador, e essa Copa da Rússia vem mostrando isso", analisa ela, que acompanha a seleção brasileira e apresenta o "Jornal da Globo" e o "Hora 1".

Trabalho em dupla

Carol (à esq.) e Monique: parceria na cobertura do Esporte Interativo (Divulgação)

O canal Esporte Interativo trabalha, na Rússia, com duas mulheres parceiras: a repórter Monique Danello e a cinegrafista Carol Albuquerque. "Esta é a minha segunda Copa, mas a primeira acompanhando somente a seleção brasileira. Estou realmente muito empolgada com o tamanho dessa cobertura, o desafio profissional e a oportunidade. A sintonia com a Carol será fundamental e estamos muito orgulhosas", conta Monique, que faz um pouco de tudo na cobertura. "Além de participar da programação da TV, tenho a missão de produzir para o digital, que é um dos pontos fortes do Esporte Interativo. É importante ter um olhar diferente na cobertura. Também ajudo com edição e imagens, se a Carol precisar. A gente se completa para entregar o melhor conteúdo possível."

Carol está em sua primeira Copa e se diz "entusiasmada com a oportunidade de cobrir de perto a seleção brasileira". Sobre o trabalho de cinegrafista, outra função que ainda conta com poucas mulheres, ela diz: "Há mais cinegrafistas homens, mas não me parece que seja uma questão de desigualdade de gênero ou preconceito. A profissão exige uma disponibilidade física muito grande. E, felizmente, posso dizer que nunca passei por nenhum acontecimento em que o meu trabalho fosse desvalorizado ou diminuído."

Brasil na final

"Minha expectativa com relação à seleção é alta e não é baseada em amor à pátria", declara Glenda. "É uma expectativa baseada no que a gente viu em campo nestes últimos dois anos, desde que o Tite assumiu. Ele fez uma mudança muito grande na seleção."

Janaina concorda e diz que a seleção está mais "madura e sólida". "Além de acertar o time tecnicamente, de planejar táticas e estratégias, Tite conseguiu deixá-lo emocionalmente mais forte. Estou confiante e acredito, sim, que o hexa é muito possível!"

Carol também destaca os méritos do técnico da seleção. "Acho que está à vista de todos que o Tite veio revolucionar a mentalidade da seleção. O Brasil sempre teve os melhores jogadores, mas agora foi criada uma ligação quase familiar entre todos. E isso vai ser chave nesta Copa! Penso que neste ano as chances de vencer são muito grandes."

Monique aposta que o Brasil vai longe. "Tite é um cara transparente, que construiu um bom ambiente na seleção e conquistou a confiança de todos que trabalham com ele. Para essa geração, e também para os brasileiros em geral, a conquista do hexa em 2018 será marcante e especial. Espero ser pé-quente e que estejamos todos em Moscou no dia 15 de julho."

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Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?