Extraordinárias

"Mulheres precisam ter espaço no futebol", diz chefona da seleção croata

Débora Miranda

04/07/2018 04h00

Gol da Croácia! Jogadores comemoram e correm em direção ao banco de reservas. Atletas, técnico e auxiliares se abraçam… E uma mulher! Trata-se de Iva Olivari, 49 anos, gerente da seleção croata, que vem fazendo história ao ficar no banco de reservas de seu time durante a Copa do Mundo –espaço ocupado raríssimas vezes por mulheres. “É uma grande honra para mim, e estou muito orgulhosa de ser a primeira mulher na história da Croácia a se sentar no banco da seleção masculina nacional”, afirma ela que está em seu quarto Mundial, mas que pela primeira vez entra em campo com o time.

A gerente da seleção croata Iva Olivari (Reprodução/Instagram)

Em entrevista exclusiva ao “Extraordinárias”, ela fala de sua longa trajetória na Federação Croata de Futebol, onde atua há mais de 25 anos. Afirma que já sofreu preconceito, mas diz que não liga. “Mesmo que as coisas estejam lentamente mudando, é um processo que não acontece da noite para o dia. Sinto que é mais fácil hoje do que era há 25 anos, quando eu comecei. No meu ambiente de trabalho, sou tratada da mesma forma que os homens.”

Iva jogou tênis na adolescência, mas se aposentou cedo por causa de uma lesão. Diz que não esperava acabar trabalhando com futebol, mas hoje é bastante reconhecida na Croácia e mantém com competência um cargo importante –comparando com a seleção brasileira, ela ocupa posto equivalente a Edu Gaspar.

Classificada para as quartas de final, a Croácia enfrenta no sábado, às 15h, a Rússia. E Iva está esperançosa quanto ao desempenho do time. “Sinto que podemos ir muito longe. Se você tivesse me perguntado sobre o possível campeão há alguns dias, eu provavelmente teria dito Alemanha. Mas veja onde eles estão agora: em casa, como Portugal e Argentina. Este será um torneio muito incerto até o fim.”

Leia, abaixo, trechos da entrevista:

Fale sobre sua carreira no esporte. Quando começou a jogar tênis e como acabou trabalhando com futebol?

Eu jogava tênis quando criança. Fui várias vezes campeã juvenil da Croácia e da Iugoslávia. Passei dois anos nos Estados Unidos, mas tive que parar de jogar aos 16 anos, por causa de uma lesão no pulso. Foi quando retornei à Croácia. Eu nunca pensei que acabaria trabalhando com futebol. Isso simplesmente aconteceu na minha vida.

Você gostava de futebol e já acompanhava antes de trabalhar na área?

Cresci numa família bem ligada a esportes, e a Croácia é um país bastante voltado a isso. Todos da minha família sempre acompanharam diferentes modalidades, incluindo futebol, mas também basquete, polo aquático e handebol –esportes em que a Croácia vai bem.

Qual exatamente é o seu trabalho na Federação Croata e há quantos anos trabalha lá?

Eu comecei a trabalhar na Federação Croata há mais de 25 anos, em 1992. Depois que a Croácia conseguiu sua independência da Iugoslávia, a nova federação de futebol croata se formou, e passei a atuar no departamento internacional, que lidava com a transferência de jogadores, organização de partidas internacionais, ligação com a FIFA e a UEFA. Trabalhei lá até a eleição de Davor Šuker [o maior goleador da história da seleção croata, artilheiro da Copa de 1998 e eleito pela FIFA o terceiro melhor jogador do mundo naquele ano, atrás de Zidane e Ronaldo] para presidente da federação [em julho de 2012], quando a divisão de futebol foi formada. Então, fui transferida para ela e me tornei gerente da seleção nacional. Sou encarregada de toda a parte administrativa que tem relação com o time:  fretar voos, acomodação nos hotéis, comunicação com associações de futebol com as quais jogamos, com a FIFA e a UEFA. Há muitas coisas a serem feitas para que os jogadores possam entrar em campo e jogar.

Comemoração após a vitória contra a Dinamarca e a classificação para as quartas (Reprodução/Instagram)

Como você avalia a participação da Croácia nesta Copa? Quais são suas expectativas?

Sinto que podemos ir muito longe. Se você tivesse me perguntado sobre o possível campeão há alguns dias, eu provavelmente teria dito Alemanha. Mas veja onde eles estão agora: em casa, como Portugal e Argentina. Este será um torneio muito incerto até o fim.

Sua presença nesta Copa chamou a atenção por você ser uma das únicas mulheres dentro de campo. Vê isso como uma conquista pessoal e também histórica?

Esta é a minha quarta Copa do Mundo. A primeira foi em 2002, no Japão. Mas é o primeiro Mundial em que estou me sentando no banco, com o time. Minha primeira partida no banco foi no nosso primeiro jogo da Euro 2016, na França, quando o ex-treinador Ante Čačić me admitiu como membro do staff. É uma grande honra para mim, e estou muito orgulhosa de ser a primeira mulher na história da Croácia a se sentar no banco da seleção masculina nacional.

Sua família apoia o seu trabalho?

Sou casada e tenho dois filhos: a Lea, que tem 30 anos, e o Fran, que tem 21 anos.  Meu marido é jornalista esportivo e também está aqui na Copa, trabalhando. Sendo esposa e mãe, às vezes é muito difícil conciliar minha vida profissional com a privada, especialmente quando as crianças eram mais novas. Mas sem o apoio da minha família e uma boa organização eu não poderia realizar esse trabalho.

Você enfrentou dificuldades ou preconceito até conseguir reconhecimento no futebol?

É fato que a Croácia é uma sociedade muito tradicional no que se refere à igualdade entre homens e mulheres, e o futebol ainda é considerado um esporte masculino. Mesmo que as coisas estejam lentamente mudando, é um processo que não acontece da noite para o dia. Leva tempo mudar a mente das pessoas. Sinto que é mais fácil hoje do que era há 25 anos, quando comecei a trabalhar com futebol. Eu enfrentei preconceito em diversas ocasiões, mas, falando honestamente, não me importo com isso. No meu ambiente de trabalho, na Federação Croata de Futebol, sou tratada da mesma forma que os homens.

Iva Olivari no banco de reservas da seleção croata: “É uma grande honra” (Reprodução/Instagram)

Apenas alguns times têm mulheres entre seus profissionais e quase nenhuma entra em campo. Não há árbitros mulheres na Copa. Mulheres jornalistas ainda são minoria. Por que você acha que isso ainda acontece? Vê mudanças a curto prazo?

Como já disse, leva tempo mudar a cabeça das pessoas. Não tenho certeza de que veremos em breve árbitros mulheres na Copa. Provavelmente demorará até que isso ocorra. Quanto às jornalistas esportivas, vejo mais e mais a cada evento, e muitas delas realizam seus trabalhos de forma brilhante, até melhor do que seus colegas homens.

Aqui no Brasil tem se discutido muito sobre feminismo nesta Copa do Mundo. Considera importante falar disso, especialmente durante um evento que está sendo realizado na Rússia, um país ainda tão conservador com as mulheres?

Acho que chegou a hora de nós finalmente pararmos de falar sobre diversidade e começarmos a agir nessa direção. De forma alguma mulheres devem ser inferiores aos seus colegas se são profissionais e estão fazendo seus trabalhos bem. O mundo do futebol ainda é conservador, mas eu vejo as coisas mudando e estou feliz por isso. As mulheres precisam ter seu espaço no futebol, dentro e fora de campo.

*

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Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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