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"Dentro do estádio, meu filho cego se transforma", conta torcedora

Débora Miranda

2001-10-20T18:04:00

01/10/2018 04h00

A imagem de uma mãe narrando ao pé do ouvido do filho cego as cenas do jogo entre Palmeiras e Corinthians, há cerca de duas semanas, no estádio Allianz Parque, viralizou e comoveu o Brasil. Mas a história da empresária Silvia Grecco, 56 anos, e de seu filho, Nickollas, 11 anos, vai além desse episódio –que, para ambos, é cotidiano.

Silvia narra o jogo do Palmeiras para o filho Nickollas, que é cego (Reprodução)

Silvia cresceu ouvindo os jogos do Palmeiras com o pai, no radinho de pilha. Passou a juventude indo aos estádios e, quando adotou Nickollas, desejava que ele virasse seu companheiro de futebol. Já que o menino era fã de Neymar, argumentou que o próprio craque já havia afirmado ser palmeirense na infância. E levou o garoto ao estádio.

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Lá, Nickollas, que tem autismo leve, se encontra. Se apaixonou pela vibração da torcida e, segundo a mãe, ele se transforma. Não há timidez que o faça parar de pular e sorrir. Lado a lado com Silvia, vive a emoção de ser fã de futebol. Aprende que pode fazer parte dessa grande festa, quaisquer que sejam as circunstâncias. O garoto, que tem em Dudu seu ídolo, também ama música e já foi a dois Rock in Rios e a dois Lollapaloozas.

No dia 31 de outubro, Nickollas completará 12 anos e sua mãe já viu que o Palmeiras pode, nesse dia, estar jogando pela Libertadores. "Estaremos em algum lugar comemorando", ela planeja.

Leia, abaixo, a história de mãe e filho, narrada por Silvia.

*

"Fui criada com meu pai palmeirense e, na época, ele ouvia o jogo pelo rádio. Sempre que tinha jogo do Palmeiras, eu me sentava com ele e ficávamos ouvindo pelo radinho de pilha. Cresci nesse ambiente e, por incrível que pareça, em uma família de nove irmãos, sendo cinco homens, eu, a mulher caçula da casa, fui a que mais me dediquei ao futebol. Na minha juventude ia sempre aos estádios com os amigos e quis transmitir isso para o meu filho, Nickollas.

Ele desde pequenininho ganhava roupa de time de todo o mundo, e eu assistia os jogos do Palmeiras com ele pela televisão. Mas quando perguntavam para quem ele torcia, ele dizia sempre Neymar. Então levei ele para conhecer o Neymar. Colocou a camisetinha do Santos, o Neymar pegou ele no colo. Mas aí usei com ele o argumento de que o Neymar era palmeirense, pois ele sempre declarou isso. E comecei a levar o Nickollas no estádio.

Aí não teve jeito de ele optar por outro time, porque ficou envolvido com a torcida. Ele sentiu o que era estar ali, ficou contagiado. Até mesmo pelas duas deficiências: por ele ser cego e por ter um autismo leve também.

Nickollas nasceu prematuro de cinco meses, de uma gravidez interrompida. A mãe biológica dele tomou alguns comprimidos para abortar e foi parar no hospital, com hemorragia. Quando fez a curetagem, a enfermeira percebeu que a criança estava viva. Ele tinha só meio quilo e não deu tempo de formar a retina, por isso é cego. O problema chama retinopatia da prematuridade grau 5, que é cegueira total. Ele ficou quatro meses na UTI e foi para adoção.

 

Nickollas e a mãe são companheiros de todas as horas; além de futebol, gostam de ir juntos a shows (Arquivo Pessoal)

Eu estava na fila para adotar uma criança, pois sempre tive muita vontade, era um desejo antigo. Quando fui chamada pela juíza, numa sexta-feira, ela falou: "Vai lá no hospital e conversa com o médico. Se você achar que está apta a adotar essa criança, volte na segunda-feira para a audiência. Quando eu cheguei ao hospital, enquanto o médico me contava sobre a saúde do Nickollas, já peguei ele no colo. Naquele momento tive certeza absoluta de que ele seria o meu filho. Era como se eu tivesse tendo a dor do parto. Assim que ele teve alta, foi direto para a minha casa.

A minha única preocupação não tinha a ver com a cegueira. Quis saber se havia probabilidade de ele vir a óbito. Falei para o médico: "A única coisa para a qual não tenho preparo é perder um filho". Ele falou que não podia me dar garantia nenhuma, então decidi que teria que ser na minha fé. E rezei pedindo muito muito a Deus para que nada acontecesse.

A primeira vez que levei o Nickollas ao estádio foi na abertura da Copa do Mundo aqui em São Paulo. E foi até engraçado porque hostilizaram a presidente, na época. E ele me perguntou: "Mamãe, pode falar palavrão aqui?" (risos). Aquilo chamou a atenção dele. E eu falei: "Não, filho, não pode. É muito feio isso que eles estão fazendo. Não se faz isso para ninguém". Mas foi engraçado porque ele ficou com aquela imagem que ali podia tudo, falar palavrão, xingar o juiz (risos).

Ele gostou muito dessa experiência, então comecei a levá-lo aos jogos do Palmeiras no Allianz Parque. Não conheço bem os demais estádios, mas faço questão de dizer que o Palmeiras tem de ser referência para as pessoas com deficiência. Somos sempre muito bem recebidos. Seria tão bom se todos os locais fossem assim para que as pessoas tivessem essa mesma oportunidade!

Estar no estádio, para o Nickollas, é muita emoção. Ele fica pulando o tempo todo. Antes de irmos, ele já fica ansioso, vai se preparando. Na quinta ele diz: "Está chegando o dia do jogo". Lá dentro ele é outra pessoa. Não tem timidez, nao tem nada. É até engraçado, porque a mãozinha, o corpo dele vai se transformando totalmente. Fica com aquele sorriso largo, é muito bacana.

Sempre levo o fone de ouvido na bolsa e pergunto se ele quer ouvir o jogo no rádio, mas é muito raro ele aceitar. Ele prefere que eu vá narrando o que está acontecendo. E falo tudo para ele com muita emoção. Também conto detalhes do ambiente, faço tipo uma audiodescrição mesmo. Falo que tal jogador está com o cabelo tingido, o outro está de manga comprida, o outro usando chuteira de tal cor. O jogador favorito dele é o Dudu.

O futebol já acrescenta muito na vida dele e vai continuar acrescentando. A socialização de estar incluído ali, no meio de todos, isso é muito importante. Além da emoção de estar naquele lugar. Faz uma grande diferença ele saber que ele pode conviver e participar de tudo, independentemente de qualquer circunstância.

Sempre busco coisas que tragam prazer para ele, vou oferecendo as oportunidades. Agora ele está fazendo teatro. Ensaiou bastante e teve uma temporada de duas semanas em cartaz. Foi maravilhoso, ele cantou, foi uma experiência que o transformou muito. Ele também é extremamente sensível a música. Já fomos dois anos para o Rock in Rio e dois anos para o Lollapalooza. Vamos sempre assistir a Orquestra Sinfônica no Teatro Municipal ou na Sala São Paulo. Somos aventureiros mesmo! Mas eu sinto que ele pode ser meu companheiro e eu a companheira dele em qualquer situação."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?