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Ela quase morreu, fez transplante de coração e virou triatleta

Débora Miranda

03/01/2019 04h00

Em Salt Lake City, nos EUA: uma vencedora (Arquivo Pessoal)

"Eu renasci na mesma vida." É assim que a economista Patricia Fonseca, 33 anos, define sua existência. Ela nasceu com problemas no coração e sempre teve uma vida bastante limitada, sem poder brincar, sem poder fazer educação física, sem poder praticar um esporte. "Meu Deus, de onde vem essa energia que entra no corpo das pessoas para fazer elas correrem desse jeito?", ela se perguntava.

Aos 30 anos, já sem nenhum tratamento possível, foi finalmente aceita na fila de transplante. E foi aí que sua vida mudou. Com um novo coração, Patricia passou a poder tudo o que não podia antes. E virou triatleta.

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Em um depoimento cheio de alegria ao "Extraordinárias", ela conta sobre os momentos difíceis e mostra como rejuvenesceu aos 30 anos. "Eu já fui velha, eu sei o que é andar de cadeira de rodas, sei o que é ter alguém me dando banho, me limpando. O que eu não sabia era isso: nadar no mar, andar de bicicleta. Agora que eu sou jovem."

*

"Nasci com um problema de coração e, com 20 dias de vida, já estava numa UTI. Os médicos, na época, falaram que eu tinha múltiplas insuficiências. Minha mãe conta que eu ficava roxa, não tinha forças nem para mamar. Passei meses internada e consegui sobreviver. Os médicos, no início, diziam para os meus pais que eu não passaria nem de um ano de idade.

Não dava para fazer tudo quando eu era era criança. Com 14 anos, eu precisei operar. Com 20 anos, fiquei internada novamente por causa de uma arritmia e tive que parar a faculdade. Fiquei um ano de cama. Tive uma vida com internações, idas e vindas, altos e baixos. Eu nunca pude fazer exercício, eu assistia à aula educação física na escola da arquibancada. Eu pensava: "Meu Deus, de onde vem essa energia que entra no corpo das pessoas para fazer elas correrem desse jeito?". Eu não tinha força nem para levantar de uma cadeira.

Com 20 anos de idade eu fui negada para o transplante, porque eu tinha hipertensão pulmonar. Por eu ter um coração fraco a vida toda, o meu pulmão se adaptou e aprendeu a jogar o sangue com mais força. O novo coração não aguentaria essas pancadas do pulmão e entraria em falência. Então, nem pude entrar na lista. O médico chegou a me dizer que eu só tinha mais seis meses de vida. E eu ainda aguentei mais dez anos, só eu sei como.

Eu nunca me fiz de vítima nem de coitada por causa das questões da minha vida, mas, sim, eu tinha vontade de fazer outras coisas. Até que chegou uma hora em que realmente não havia mais o que fazer no meu caso. Eu já tomava todos os medicamentos em doses máximas, já tinha tentado todos os tratamentos, não havia mais cirurgia que pudesse ser feita, eu já estava com uma insuficiência cardíaca tão avançada que eu não tinha força para falar. Os pensamentos começaram a ficar guardados na minha cabeça. É um cansaço que, graças a Deus, a maioria das pessoas não consegue entender que existe.

A esta altura a medicina já tinha evoluído e havia um medicamento que poderia controlar os meus pulmões na hora da operação, se eu fizesse transplante. E foi inevitável. Entrar na fila era a minha única saída. Eu já não conseguia mais ficar em casa, tive que ir esperar na UTI. Passei meses lá, dependia dos aparelhos para viver. Até que o coração chegou no dia mais perfeito que ele podia chegar: o dia do meu aniversário de 30 anos. Nesse dia, a primeira ligação que recebi foi do médico dizendo: "Patricia, o coração chegou".

Quando eu estava internada, eu escrevi uns papeizinhos sobre o que eu queria da vida e pedi para colarem na UTI, na parede que ficava na minha frente. Eles diziam "sucesso", "recuperação" e tinha um que era "coração de atleta". As pessoas me perguntavam o porquê daquilo. "Vou ter que trocar de coração, então eu quero fazer tudo o que eu não pude fazer a vida toda. Quero correr, quero nadar."

O primeiro papelzinho que eu realizei foi "recuperação recorde". Eles me deram 15 dias no mínimo de UTI, mas eu fiquei cinco. Com um mês eu já estava na academia do hospital. Tive que reaprender a sentar, reaprender a andar. Eu ria e chorava de alegria a cada conquista.

Aí, após um ano de transplante eu comecei a correr. Com um ano e quatro meses eu fiz a minha primeira corrida de rua. Depois de dois anos de transplante eu fui a primeira transplantada de coração brasileira a representar o Brasil nas Olimpíadas dos Transplantados. Competi no triatlo. Por que vou fazer um esporte só se agora eu posso fazer mais? O triatlo para transplantados é adaptado, então ele não é sequencial. Num dia você nada, no outro pedala e, no terceiro, você corre. E aí os tempos são somados.

Não tenho vergonha nenhuma de falar, nas Olimpíadas eu fui a última a chegar. Mas eu comemorei tanto! Quando acabei a natação olhei para a plateia, levantei as mãos e gritei. As pessoas se levantaram, bateram palmas… Comemorei tanto que acho que pensaram: "Coitada, essa não sabe as regras" [risos].

Neste ano participei de outras competições, fui para os EUA em agosto no Transplant Games of America, que aconteceu em Salt Lake City. Eram 20 km de bike, e eu combinei comigo mesma que a cada quilômetro eu ia lembrar de alguma coisa que eu tinha passado na minha vida. Fui recordando cada coisa. Quando eu tinha 20 anos e o médico me disse: "Menina, você está no fio da navalha, não te dou nem seis meses de vida". Chegou uma hora em que eu estava voando. A minha média de velocidade foi 10 km/h acima da minha média de treino.

Foi surreal a prova. Cheguei chorando, muito emocionada. E aí fui ver meu tempo e tinha um 2 ao lado. Falei pro meu marido: "O que é 2?". E ele: "Não sei". Fui perguntar para a organização. A mulher olhou para mim e disse: "Silver" [prata]. Eu nunca tinha ganhado uma medalha. Naquele momento eu vi que também fazia parte dessa brincadeira chamada vida.

Nessa competição eu fui prata no ciclismo, prata na natação e ouro na corrida. Acabei ficando em primeiro no triatlo e ganhando o ouro. Hoje eu participo de tudo. Me chama para vôlei de praia e eu vou. Estou tirando o atraso, porque foram 30 anos doente e estou transplantada há três anos e meio. Estou tirando a barriga da miséria existencial.

Fundei uma campanha para a doação de órgãos, chama soudoador.org, e trabalhamos com informação. Onde me chamam para falar, em escolas, em hospitais, eu vou contar a minha história. Eu renasci na mesma vida. Eu não conhecia a saúde que eu tenho hoje. E percebo o seguinte: a negativa das famílias para a doação de órgãos não tem a ver com uma decisão, ou com uma opinião. Tem a ver muito mais com falta de informação.

Uma vez fui dar uma palestra num lugar e tinha uma mulher chorando muito. Fui falar com ela. O filho tinha morrido, e ela negou a doação dos órgãos dele. Depois de ouvir o meu depoimento, ela falava: "Eu podia ter doado e não doei. Que alegria eu ia sentir de saber que o coração do meu filho poderia estar com alguém como você, tão feliz por estar vivo". Naquele dia ficou concreto para mim como se trata de falta de informação. Ainda existem muitos tabus que precisam ser quebrados. É preciso mostrar a doação de órgãos como algo feliz, como um tema leve, porque ela gera vida. A morte não é uma escolha, mas a doação é.

Eu brinco que eu sou a verdadeira história de Benjamin Button [história escrita pelo americano F. Scott Fitzgerald, em que o protagonista nasce idoso e vai rejuvenescendo]. Eu já fui velha, eu sei o que é andar de cadeira de rodas, sei o que é ter alguém me dando banho, me limpando. O que eu não sabia era isso: nadar no mar, andar de bicicleta. Agora que eu sou jovem.

Meu plano para o futuro é viver. Quero viver pequenas coisas, estar com meu marido, poder ir à praia, cuidar da minha casa, trabalhar, fazer exercício. Meus planos são esses. Quero ter filhos, mas não penso nisso para agora. Eu fui tão limitada a vida toda, preciso viver um pouco. Eu tenho vontade, mas teria que viver a maternidade de outras formas. Por causa da medicação que tomo não posso engravidar.

Aprendi a não ter grandes planos, porque eu nunca imaginei como seria o futuro, como estaria minha vida com 40 anos de idade. Nunca imaginei lá na frente, porque eu não sabia se lá na frente iria chegar. Então, eu acabei aprendendo a viver no presente. Porque o que eu sempre tive foi isso mesmo."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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