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Se empolgou com a Copa e quer ajudar o futebol feminino? Veja como fazer

Débora Miranda

28/06/2019 04h00

"Tínhamos oito meninas participando do projeto. Depois que começou o Mundial, apareceram 15." Quem conta é Priscila Beatriz de Moura Pereira, professora de educação física e responsável pela modalidade feminina da Academia de Futebol Pérolas Negras.

Ligado à ONG Viva Rio, que trabalha pela construção da paz e pela inclusão no Rio de Janeiro, o projeto é um clube de futebol criado para gerar impacto social e trabalhar com jovens carentes, que atua também com a possibilidade de formação de atletas.

Priscila, as atletas da Academia de Futebol Pérolas Negras e a jogadora Formiga, da seleção (Reprodução/Facebook)

Foi de Priscila a ideia de criar a modalidade feminina, que agora vem crescendo, mas ainda sem todo o apoio necessário. "A Copa do Mundo deu a visibilidade que o futebol feminino não tinha. Sempre vivemos nas sombras", avalia.

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Como a Pérolas Negras, existem tantas outras iniciativas ligadas ao futebol feminino, que trabalham socialmente junto a crianças e jovens carentes, mas que formam atletas. Há quem já tenha descoberto jogadoras que atuaram na seleção e mesmo esportistas que receberam convites para jogar na Europa, na China ou nos Estados Unidos.

Em comum, todas elas possuem duas característica: estão agora ganhando espaço e precisam de apoio nas mais variadas frentes –financeira, espaço para treinos, parcerias e material esportivo. Mas como é possível ajudar?

A esperança renasceu

Priscila jogou no Fluminense entre 1999 e 2000 e, depois, foi treinadora do Vasco da Gama de 2009 a 2012, mas acabou desistindo pela falta de incentivo. "Aquilo não ia para lugar nenhum, não tinha retorno. Era um sonho para mim, como atleta, mas não havia estrutura", lembra. Saiu do Rio de Janeiro e se mudou para Paty do Alferes, no interior do estado, onde idealizou um projeto cuja intenção era trabalhar com meninas e fechar parcerias para que elas pudessem jogar nos Estados Unidos.

Quando soube da atuação do Viva Rio junto à Academia Pérolas Negras, conta que sua esperança renasceu. "A ONG não quer necessariamente que a criança dê resultado como atleta, quer contribuir com crescimento e oportunidade. Mas eles abriram as portas para a minha iniciativa junto ao futebol feminino", conta ela, que treina meninas de 12 a 20 anos.

Hoje, ela trabalha com o projeto Adote um Atleta, em que a pessoa interessada em ajudar paga R$ 90 mensais. Com o dinheiro, as meninas podem bancar a condução até o espaço de treinos, além de uniforme e alimentação. "O principal é que elas possam sair de casa, passear, comer um lanche. Mas sempre levando a sério o futebol", diz Priscila, que já formou duas atletas que atuam no Flamengo.

Para que tudo isso seja possível, parcerias e doações também são necessárias. A PUC-Rio recentemente fez um jogo beneficente em Paty e doou material esportivo à equipe. A prefeitura cede ônibus quando as meninas vão jogar. E Priscila ainda trabalha junto a pequenas empresas locais, buscando patrocínios pontuais quando precisa. "Em cidade pequena é mas fácil de captar, pois todo o mundo se conhece e conhece também o projeto."

Minha filha, minha craque

Rogério Davi dos Anjos, pedagogo e fundador da ANE (Associação Nova Esperança), de Mogi das Cruzes (interior de São Paulo), concorda. Ele iniciou seu trabalho social há 20 anos e já trabalhava com o futebol, inicialmente voltado apenas para meninos. "Minha filha sempre jogou futebol, desde os cinco anos, e, nessa época, treinava com eles. Quando chegou aos 14 anos, ela não podia mais participar. Aí tive a ideia de investir na modalidade feminina. Divulguei o projeto e formamos a equipe", lembra ele. A filha, Andressa Anjos, virou jogadora profissional e já atuou inclusive pelos times de base da seleção brasileira. Hoje é atleta do São Paulo.

A ANE tem hoje vários núcleos em Mogi e um em Guararema (Arquivo Pessoal)

A ANE atua em vários núcleos espalhados por Mogi e também em Guararema. Há uma parceria com a prefeitura, mas que não é suficiente para manter o projeto –hoje são 80 meninas treinando. Então, Rogério conta com a parceria de comerciantes e empresários locais.

"Buscamos apoio para cada necessidade, nos mantemos por meio de doações. Eu dou a mão de obra, a proposta de trabalho e de mudança. E vou atrás de apoio. As comunidades normalmente acolhem muito o projeto. Convenci um empresário a pagar uma das professoras, por exemplo."

Material esportivo também falta. A ANE eventualmente recebe doação de material que vem de empresas ou mesmo de condomínios, que descartam bolas em bom estado de conservação.

O time, hoje, representa a cidade em diversos campeonatos, como os Jogos Regionais. Ainda é preciso dinheiro para a logística de viajar com a equipe para campeonatos, mas o transporte, normalmente, é cedido pela prefeitura. "Quando as pessoas veem que o trabalho é sério, apoiam e ajudam", conclui ele, que já teve atletas na Ponte Preta, no São Paulo e no futsal do Corinthians.

"A intenção do projeto é, primeiro, proporcionar para crianças e adolescentes uma atividade que ocupe o tempo ocioso delas. Mas também é importante ser fonte de esperança para aquilo que elas têm como sonho, que, muitas vezes, é ser jogadora de futebol. Antes disso, no entanto, ensinamos valores. Que elas devem ser boas cidadãs, bons seres humanos, e que precisam estudar."

Chuteiras usadas

As mesmas carências tem o Projeto Social FutVida, iniciado neste ano, que atende 17 meninas entre 6 e 14 anos usando o futebol como ferramenta de inclusão social. A região de atuação é o bairro Jardim São Norberto, próximo de Parelheiros, na zona sul de São Paulo.

Crianças treinam na região de Parelheiros, em São Paulo (Arquivo Pessoal)

"Hoje temos pouco material. O que conseguimos comprar foi alguns cones, chapéus e duas bolas. Muitas das meninas começaram a treinar descalças. Ficávamos com receio, mas também com o coração partido de impedi-las de jogar. Hoje, graças ao apoio de muitos amigos, a maioria já tem sua chuteira, mesmo que usada", conta Maria Amorim, que joga futebol de várzea e idealizou o projeto junto ao marido, Luís Alberto Amorim.

Hoje, as maiores necessidades do time, segundo Maria, são bolas iniciantes de futsal, cones, chapéus e bambolês. Além de dois kits de goleira. Ela ainda planeja marcar um amistoso e quer presentear as meninas com medalhas, além da confecção de camisas. E, para isso, precisa do apoio de parceiros.

Gente grande também pode aprender

As mulheres que gostam de jogar bola –ou sonham em aprender– também têm espaço: o projeto Joga Miga. "Ainda não conseguimos funcionar de forma gratuita, mas atuamos sem fins lucrativos. O objetivo é que mais mulheres possam jogar, aprender do zero, ou mesmo achar um time do qual possam participar", conta Nayara Perone, idealizadora do projeto com Nathalia Santiago.

O valor cobrado mensalmente é o rateio para bancar aluguel da quadra e aulas. "Mantemos a transparência e sempre divulgamos as contas no fim de cada mês. Elas pagam o valor mais baixo possível para ter aulas com parte técnica, tática e física. E há jogos uma vez por semana."

Mulheres do projeto Joga Miga, que acontece em São Paulo e em Belém (Reprodução/Instagram)

Material esportivo é uma das carências do projeto, e o grupo vende camisetas para tentar arrecadar dinheiro. Além disso, conseguiu fechar uma parceria recente com a Guaraná, que viabilizará a abertura de duas turmas gratuitas por um ano.

Quem quiser participar do Joga Miga só precisa ser maior de 18 anos. "Temos atletas com mais de 45 anos", conta Nayara.

O projeto tem seis turmas em São Paulo, em regiões diversas da cidade, e uma em Belém (Pará) e já conta com 180 mensalistas fixas. "Temos também aos sábados um preparador de goleiras com treinos especiais para elas."

:: Como ajudar

Academia de Futebol Pérolas Negras
Tel. (24) 98180-5511 com Priscila
Colaborações podem ser depositadas no Bradesco: agência 2921, conta corrente 20934-1, em nome de Priscila Beatriz de Moura Pereira

ANE (Associação Nova Esperança)
Tel. (11) 99926-1499 com Rogério ou pelo email roger_zelo@hotmail.com

Projeto Social FutVida
Tel. (11) 96756-9025 com Maria

Joga Miga
Não aceita colaboração em dinheiro, mas trabalha com apoio e parcerias, como patrocínio de camisetas e material esportivo. Contato pelo site jogamiga.com.br ou pelas redes sociais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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