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Ouro no Pan, estrela do handebol promete raspar cabelo por medalha em 2020

Débora Miranda

09/08/2019 04h00

Duda Amorim e sua medalha de ouro no Pan-Americano (Reprodução/Instagram)

Em um jogo emocionante, o time de handebol feminino brasileiro conquistou, na semana passada, seu sexto ouro consecutivo em Jogos Pan-Americanos. A vitória –de virada contra a Argentina–, aconteceu diante de um ginásio lotado e vibrante, e garantiu a vaga olímpica à equipe no ano que vem.

Referência no handebol brasileiro, a experiente Duda Amorim, 32 anos, tem quatro das seis últimas medalhas de ouro conquistadas pelo Brasil. Estava com a equipe em 2007, 2011, 2015 e agora, em 2019. Em 2013 foi campeã mundial e, em 2014, eleita a melhor do mundo.

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A armadora brasileira vive hoje na Hungria, onde joga pelo Györi AUDI ETO KC. Foi um dos destaques da final da Liga dos Campeões da Europa neste ano, artilheira com sete gols e pentacampeã. Determinada, diz que se levanta todo dia com vontade de ser melhor.

Em entrevista ao Extraordinárias, ela comenta a crise atual da CBHb (Confederação Brasileira de Handebol), fala do sonho da primeira medalha olímpica e promete raspar o cabelo case ganhe uma medalha em Tóquio, na Olimpíada do ano que vem. "Pode anotar aí!", diverte-se.

*

Você foi eleita a melhor jogadora do mundo em 2014 e segue se destacando com a conquista de títulos importantes, como a Liga dos Campeões e o Pan. Como se manter no topo por tanto tempo?

Um dos meus objetivos é aproveitar o máximo da minha carreira. Conquistar títulos, trazer resultados expressivos para o Brasil. Levanto todo dia com vontade de ser melhor, acredito que isso me mantenha no topo.

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A seleção brasileira de handebol tem títulos importantes e uma sequência de conquistas bastante estável. Você sente reconhecimento do seu trabalho no Brasil?

Não acredito que nossas conquistas sejam estáveis no parâmetro mundial. Talvez a nível pan-americano. Hoje vivemos um momento delicado de investimento no esporte. Existe o Bolsa Atleta [projeto do governo federal], que é uma grande ajuda, mas poderia chegar a um maior número de pessoas. E, no momento, recebemos ajuda do COB [Comitê Olímpico do Brasil] para manter nosso calendário. Nossa confederação está num momento bem delicado, praticamente sem recurso para fazer crescer o handebol brasileiro.

Acha que o Brasil pode ficar conhecido também como o país do handebol feminino?

Tudo depende dos nossos resultados. Se vier alguma medalha mundial ou olímpica, talvez possa se tornar o país do handebol. Depois do futebol, lógico [risos].

Como foi a sua decisão de jogar fora? O que motivou isso e como é a sua vida hoje na Hungria?

O que me motivou foi meu sonho de me tornar uma atleta profissional, de ir jogar e evoluir na Europa, onde existe atualmente o melhor handebol do mundo. Minha vida é boa, jogo num clube com uma estrutura ótima. Sinto saudade da família e da vida social do Brasil, mas sacrifico esses momentos por causa da minha carreira.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou ao longo da sua carreira e especificamente no período em que atuava no Brasil?

A situação do handebol brasileiro era melhor quando eu morava no Brasil. Eu tinha um bom salário, jogava e estudava. Não havia grandes dificuldades. Hoje, muitos clubes estão acabando por falta de recursos. A liga nacional não tem uma organização boa de calendário e falta investimento tanto na categoria de base quanto na adulta.

Após a conquista da vaga para a Olimpíada de Tóquio, quais são as suas expectativas?

São boas. Queremos fazer dois bons campeonatos –o Mundial e a Olimpíada. Espero ficar entre os dez melhores no Mundial para obter mais confiança. E tenho esperanças de conseguir uma medalha olímpica. Já prometi raspar o cabelo se ganhar medalha na Olimpíada. Pode anotar aí [risos]. Acredito que estamos com um grupo talentoso, mas que tem muito trabalho ainda pela frente.

Você está com 32 anos. Até que idade pretende atuar como atleta? Já tem planos para o que quer fazer depois?

Pretendo atuar mais dois anos. Não tem nada definido ainda quanto ao que farei depois, vai depender das oportunidades que aparecerão no final da minha carreira. Mas, a princípio, quero continuar trabalhando com handebol.

Brasileiras do handebol no pódio do Pan 2019 (Pedro Pardo/AFP)

Você é uma referência importante para a seleção, é conhecida por sua liderança e por sempre dizer o que pensa. Como lida com a nova geração e que legado quer deixar para a modalidade?

Lido de uma maneira muito natural. Tento inspirar, compartilhar minhas experiências. Provei inúmeras vezes que vale a pena trabalhar muito e se sacrificar pelo handebol. Dessa forma, as conquistas chegam. Então, além de conversas, mostro me comportando como exemplo. Gostaria de ser lembrada pela minha paixão pelo handebol e pela minha luta, por tudo o que fiz para elevar o nome do Brasil no mundo inteiro.

Você já sofreu discriminação por algo ligado ao seu trabalho no esporte? 

Não pelo fato de ser mulher no esporte, mas já sofri preconceito por ser estrangeira. Nós, brasileiras, demoramos muito mais tempo para sermos aceitas nos times, na maioria das vezes. Tem que ser persistente.

Você se considera feminista? Acha importante que as mulheres busquem equidade e respeito no esporte?

Sim, acredito ser muito importante. No momento não participo de nenhuma organização, mas gostaria de participar, no futuro. Principalmente para lutar pela espaço da mulher no esporte. Assuntos como gravidez, equidade salarial e até mesmo oportunidades pós carreira merecem mais atenção.

Para encerrar, gostaria que você comentasse se o esporte transformou sua vida e de que forma.

Com certeza. O esporte ensina valores como respeito, disciplina, persistência. Te permite sonhar, compartilhar momentos, inspirar, emocionar pessoas. Ganhei muito com o esporte. Sou feliz, me sinto realizada, fiz amigos ao longo da minha jornada, reconheço quem realmente me apóia e quem torce de coração por mim. Isso não tem preço.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?