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O que aconteceu na Paulista domingo não foi briga de torcida, foi luta

Débora Miranda

01/06/2020 14h28

Olhares desconfiados e cheios de incompreensão observaram de longe a manifestação que torcedores –em sua maioria do Corinthians– fizeram na avenida Paulista neste domingo, em prol da democracia. De fato, torcidas organizadas são bem mais conhecidas pela violência que já causaram do que pelo papel engajado que historicamente foi fundamental na fundação e na manutenção de muitas delas.

Manifestantes carregam faixa pela democracia (Roberto Casimiro/Estadão Conteúdo)

Os Gaviões da Fiel –que não convocaram oficialmente os protestos de domingo, mas tiveram muitos de seus associados e lideranças históricas presentes– é uma dessas torcidas. Um dos breques (gritos entoados nas arquibancadas) da torcida diz: "Contra todo ditador que no Timão quiser mandar/ Os Gaviões nasceram para poder reivindicar".

A torcida foi fundada em 1969, em pleno regime militar, e tem suas raízes muito associadas às origens operárias do próprio Corinthians, desde sempre. Com a frase: "O Corinthians é o time do povo, e é o povo quem vai fazer o time", Miguel Battaglia, alfaiate e primeiro presidente alvinegro, definiu a trajetória que o Timão deveria ter de 1910 em diante: um espaço democrático, em que o povo teria espaço e voz para decidir.

Nem sempre foi assim. Muitos regimes excludentes, elitistas e antidemocráticos se estabeleceram no clube. E isso motivou a criação de algumas torcidas organizadas –que entenderam desde cedo que apoiar nas arquibancadas era tão importante quanto questionar nas salas de reunião do Parque São Jorge.

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São famosas as histórias de torcedores agredidos pelo então presidente Wadih Helú, alinhado com os princípios da ditadura militar vigente e que ficou no poder por uma década. Mais conhecidas ainda são as histórias da Democracia Corinthiana, que se estabeleceu no clube nos anos 1980 sob a liderança de jogadores como Casagrande e Sócrates, criando uma espécie de autogestão no departamento de futebol. E a participação ativa de tantos jogadores no movimento Diretas Já.

O jogador Sócrates, com a camisa da Democracia Corinthiana, abraçado a Casagrande, comemora com o habitual braço erguido a conquista do Campeonato Paulista de 1983, contra o São Paulo (Jorge Araújo – 14.dez.1983/Folhapress)

Houve também o Fora Dualib, que encerrou a gestão de Alberto Dualib, depois de 14 anos e inúmeras acusações de corrupção. E, finalmente, a instauração das eleições diretas para presidente, dando ao associado o direito de eleger seu mandatário.

Pouco antes das eleições presidenciais de 2018, o presidente da Gaviões da Fiel, Rodrigo Gonzalez Tapia, divulgou uma nota oficial dizendo que apoiar o então candidato Jair Bolsonaro ia contra a ideologia da agremiação.

"Você, que é associado dos Gaviões, sabe da história da sua torcida? Você sabe que na nossa fundação, em 1969, vivíamos em plena ditadura militar? Você sabe que no período da nossa fundação tínhamos como principal objetivo derrubar um ditador dentro do nosso clube? Você sabe que os nossos fundadores sofreram muita opressão por levantar a bandeira em favor da democracia e dos direitos do povo?"

A mensagem de Digão encerrava com o recado: "Somos uma torcida que defende os direitos do nosso povo e não podemos deixar que o nosso maior representante seja contra nós e contra tudo aquilo que lutamos".

A nota causou uma polêmica gigante dentro da entidade. Muitas lideranças estavam apoiando Bolsonaro e não concordaram com a iniciativa de a torcida se posicionar pública e oficialmente contra o candidato. A luta por democracia sempre esteve enraizada no Corinthians, mas isso não significa que sua torcida não tenha visões políticas opostas. Há direita e esquerda atuando dentro do Parque São Jorge e também na condução das torcidas organizadas.

Talvez por entender que a democracia preveja a convivência entre diferentes, talvez apenas para evitar problemas, os Gaviões da Fiel não se posicionaram até agora oficialmente sobre a manifestação de domingo. Ainda assim, grande parte de seus associados reconhece nela uma luta essencial –inclusive justificando o rompimento da quarentena estabelecida pelo governo por causa do coronavírus.

Tostão já disse tudo: "O futebol é uma metáfora da vida". E é preciso entender isso para compreender o que esses torcedores –organizados ou não, corinthianos ou não– foram fazer na avenida Paulista neste domingo. Não se trata de romantizar torcidas nem mesmo de esquecer atitudes violentas, inaceitáveis e injustificáveis.

Mas frequentadores de arquibancadas são células vivas e atuantes da sociedade. Está tudo lá. Tem direita e tem esquerda, tem favelado e tem elite, tem violência e tem amor, tem evangélico, muçulmano, católico e ateu. Tem homem, mulher, criança, idoso. Tem respeito e desprezo. Tem quem se preocupe com a liberdade, tem quem não.

O que precisa ficar claro é: o que assistimos na avenida Paulista neste domingo não foi briga de torcida. Foi luta. Foi apenas mais um passo do futebol na luta por um valor que, independentemente de posicionamento político, não pode ser esquecido: a democracia.

Antes da final entre São Paulo e Corinthians pelo Campeonato Paulista, os jogadores do time alvinegro seguram faixa enaltecendo a democracia (CLAUDINE PETROLI – 14.dez.1983 – ESTADÃO CONTEÚDO/AE)

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?