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Carta de uma atleta à mãe na crise: 'Minha maior saudade sempre foi você'

Débora Miranda

10/05/2020 04h00

A surfista de stand-up paddle Nicole Pacelli (Marcelo Maragni/Divulgação)

Poucas semanas antes de disputar o Pan-Americano do ano passado, a surfista Nicole Pacelli descobriu que estava grávida. Assustada com a novidade, ela procurou orientação médica e acabou decidindo competir mesmo assim. Ganhou a medalha de bronze no stand-up paddle, comemorou a conquista inédita e, depois disso, passou a se preparar para o próximo desafio: a maternidade.

Em fevereiro deste ano, pouco antes da pandemia do novo coronavírus, o pequeno Rudá nasceu. Hoje é o primeiro Dia das Mães de Nicole. Ela está com seu filho, de três meses, mas longe da própria mãe, por causa da quarentena. E assim passará esta data.

O fato de estar acostumada com a distância da família, habituada a viver viajando e competindo em diversos cantos do mundo, não diminui em nada a saudade. E é isso que Nicole conta nesta carta escrita à sua mãe. "Quem imaginaria que no seu primeiro Dia das Mães como avó, você estaria separada do seu neto?", questiona a surfista.

Leia, abaixo, a mensagem de Nicole Pacelli à sua mãe.
Longe ou perto, feliz Dia das Mães a todos! Que seja um dia de muito carinho, mesmo a distância.

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Mãe,

Faz tempo que eu não te escrevo uma carta, né? E esta vai ser diferente: é a primeira vez que eu te escrevo uma carta de Dia das Mães, com meu filho no colo. Diferente também porque quem imaginaria que, no seu primeiro Dia das Mães como avó, você estaria separada do seu neto?

O que me conforta é saber que estamos fazendo isso por um bem maior. Para proteger as pessoas que mais amamos. E esse amor tem nome, né? Rudá! O nosso motivo da distância é também o nosso motivo da saudade.

Eu sempre tive que conviver com a saudade na minha vida. E a minha maior saudade sempre foi você (mesmo você não sabendo). Mesmo antes de eu começar a viajar, eu já sentia saudade.

Nós sempre fomos mulheres bem diferentes. Você nunca foi aquela mãe carinhosa, de ficar abraçando e mimando filho. Já eu sou muito sentimental. Quando eu reclamava, criticava ou queria conversar, você nunca tinha muita paciência. Saía andando e me deixava falando sozinha. Isso já me dava saudade de ser ouvida e de respostas que eu não tinha. Nossas diferenças me fizeram sair de casa cedo e, com 18 anos, nós já não morávamos mais juntas.

Minha saudade aumentou.

Nicole, a mãe e o pequeno Rudá, de três meses (Divulgação)

Mesmo assim, eu ainda fazia coisas para você ter orgulho de mim. Entrei na faculdade pública por sua causa! Mas não terminei por minha vontade. Larguei tudo para poder competir o Circuito Mundial de Stand-Up Paddle.

Quando comecei a viajar, percebi que várias pessoas iam com as mães ou falavam com elas todos os dias. Aquilo era muito estranho para mim, porque, às vezes, a gente ficava mais de um mês sem ouvir a voz uma da outra. Eu também não te procurava. E você sempre dizia: "Se não estamos nos falando, é porque está tudo bem".

Várias mães estavam na praia torcendo para os filhos. Você nunca conseguiu assistir a nenhum campeonato meu.

Mas esse seu jeito me fez ser a mulher que sou hoje. Precisei me tornar independente muito cedo, aprendi a ser forte e a controlar meus sentimentos. Comecei a acreditar em mim, na mulher que sou e que só eu posso ir atrás dos meus sonhos. Com certeza, foi por sua causa que eu me tornei Campeã Mundial!

Hoje, percebo que você nunca foi muita boa com palavras, mas você demonstrava o seu amor nos pequenos atos do dia a dia. Você sempre foi mulher de fazer, e não de falar. Eu que não conseguia ver isso.

E que se você não assistia aos meus campeonatos, era porque ficava muito nervosa e angustiada, e não porque não se importava. Na verdade, você se importava até demais!

Hoje, como mãe, vejo que nós, mães, somos mulheres normais. Mulheres com medos, desejos, inseguranças e incertezas! E que no meio de tudo isso, ainda temos vidas que dependem de nós e nos enxergam como super-heroínas. E que, no fundo, nós somos essas supermulheres. Mas, na loucura do dia a dia é difícil de ver.

Hoje, nós nos falamos todos os dias. Você me manda mensagens para saber como o Rudá está, e eu te ligo sempre para contar sobre ele.

Você assistiu a um campeonato meu pela primeira vez! Nos Jogos Pan-Americanos, competi grávida de três meses, e você conseguiu assistir a todas as nossas baterias. Acredita nisso?! Seu neto já foi medalhista pan-americano dentro da barriga.

Nós duas estamos em transformação constante, eu como mãe e você como avó. E eu só tenho a te agradecer pela mulher que você me ensinou a ser!

Desde que o Rudá nasceu, na fase de maior mudança da minha vida e ainda no meio de uma pandemia, estou sozinha com meu filho e bem. Estou me sentindo forte e completa, graças a você! Acho que nossa vida inteira nos prepara para momentos inesperados como este. E, hoje mais do que nunca, sinto que você me preparou para isso. Obrigada, mãe!

Estou aprendendo sozinha, a cada dia, a ser mãe. E a saudade? A saudade continua aqui…

Quando recebi o convite de escrever essa carta para você, pensei bastante sobre nós duas. Para tentar não ser somente mais uma mensagem clichê, do tipo: "Feliz dia das mães, te amo".

Mas acho que não tem como terminar essa carta de outra maneira:

"Feliz dia das mães, vovó do Rudá!"

Te amamos muito!

Nicole e Rudá

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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