Extraordinárias http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo Fri, 19 Jul 2019 07:00:11 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Elas vão comentar o Pan na Record: veja as apostas das ex-atletas http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/elas-vao-comentar-o-pan-na-record-veja-as-apostas-das-ex-atletas/ http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/elas-vao-comentar-o-pan-na-record-veja-as-apostas-das-ex-atletas/#respond Fri, 19 Jul 2019 07:00:11 +0000 http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/?p=816 Em uma semana acontece a abertura do Pan-Americano de Lima, no Peru, que reunirá disputas em 39 esportes, em 62 modalidades –embora já haja competições a partir do dia 24. Quem gosta de acompanhar e torcer pelo esporte do Brasil pode seguir a cobertura pela Record, que está prometendo mais de mil horas de transmissão.

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O futebol brasileiro está fora do campeonato, mas modalidades em que o Brasil tem tradição, como vôlei, natação e ginástica artística estão no páreo. Para saber quais as reais chances do Time Brasil, o blog conversou com três ex-atletas que atuarão como comentaristas na emissora e estão por dentro do que vem por aí: Virna, Luisa Parente e Fabiola Molina.

As expectativas são grandes: no Pan de 2015, o Brasil ficou em terceiro lugar no ranking de medalhas, atrás de EUA e Canadá.

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Virna, ex-jogadora de vôlei

(Antonio Chahestian/Record TV)

O que você vai comentar e como está se preparando?

Eu vou comentar vôlei de quadra e de praia, feminino e masculino. Eu fui atleta e, hoje, tenho acesso aos atletas e à comissão técnica. Então, ser comentarista é contar um pouco das minhas experiências e apresentar uma leitura para que o público possa entender o que está acontecendo. Eu adoro. Já é meu terceiro Pan como comentarista.

Qual é a sua expectativa para as equipes femininas?

A seleção feminina indoor ainda não sabe se vai, o Zé Roberto ainda não definiu. Esta é uma época delicada, são os pré-olímpicos, que classificam para as Olimpíadas. O feminino joga na primeira semana de agosto, e as partidas no Pan começam dia 7. A minha expectativa é que ele leve algumas jogadoras de destaque para dar peso. Todos os países estão com essa estratégia, não é só o Brasil. E isso, por outro lado, é superbom para as seleções B, que podem ganhar experiência. É importante fortalecer essa nova geração. A seleção feminina está se reestruturando, e não sei ainda quais times estão vindo do outro lado. Se os países forem também com seus times B, acho que temos chance de medalha e até de quebrar recordes na somatória total.

Qual é a sua melhor lembrança de um Pan-Americano?

Tenho três grandes lembranças da minha carreira. A primeira medalha, na Olimpíada de Atlanta em 1996; a conquista da Superliga em 1999, entre Flamengo e Vasco, pois sou flamenguista roxa; e os Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, nesse mesmo ano, quando vencemos as cubanas. Foi inesquecível.

O que falta para o esporte feminino no Brasil?

Aqui no Brasil precisamos ter uma consciência maior da importância do incentivo do esporte na escola. Você viaja para fora e é bonito de ver isso em outros países, como é cultural.

Sobre vôlei, leia: “Depois de mim, mulheres ganharam direitos iguais aos homens no vôlei”
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Fabiola Molina, ex-nadadora

(Antonio Chahestian/Record TV)

O que você vai comentar e como está se preparando?

Vou comentar a natação. Sempre acompanho os campeonatos, de forma geral, mas estou lendo bastante, conversando com os atletas, preparando bastante informação e conteúdo. Além disso, fiz um preparo mais técnico, digamos assim, na Record, com acompanhamento de fono.

Qual é a sua expectativa para as equipes femininas?

Sinto que o mundo, de maneira geral, está dando muito mais atenção para o esporte feminino, não só o Brasil. E isso vem acontecendo em todas as áreas. Mas o esporte é muito baseado em resultado. A Etiene medeiros é um das nossas melhores atletas e tem grande potencial de medalha. A Jhennifer Alves está forte no peito, modalidade em que o Brasil tem pouca tradição, mas que vem evoluindo muito. E uma grande força é o nosso revezamento. A gente tem uma geração jovem, mas com maturidade, e isso ajuda a ter bons resultados.

Qual é a sua melhor lembrança de um Pan-Americano?

A memória mais forte é do Pan do Rio, quando ganhei medalha de prata. Foi um sentimento misto de felicidade e tristeza, porque eu tinha chance de ganhar o ouro e perdi por 17 centésimos. Conquistar uma medalha no Brasil foi muito marcante, apesar de não ter sido o resultado que eu queria. Mas foi uma prata suada que, para mim, valeu como ouro.

O que falta para o esporte feminino no Brasil?

A natação é um esporte individual, que exige muito esforço do atleta e das famílias. E, lá fora, é mais competitivo. Aqui não tem esse histórico, e há pouca base no Brasil. Ainda dependemos muito de verbas governamentais, o que faz com que ciclos sejam interrompidos. O atleta, para ter resultado, depende de um trabalho contínuo. E a natação demanda uma estrutura grande, tem que ter uma boa piscina para treinar e um bom treinador. Além disso, as confederações têm muitos problemas. Por tudo isso sempre digo que quem chega lá, quem sobe no pódio, deveria ganhar medalha dupla. É muito difícil.

Sobre natação, leia: Aos 15 anos, promessa da natação feminina acumula recordes

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Luisa Parente, ex-ginasta

Antonio Chahestian/Record TV

O que você vai comentar e como está se preparando?

Vou comentar ginástica artística feminina e masculina, que são bastante distintas, têm códigos de pontuação diferentes, por isso demandam muito estudo. Recebi bastante material da equipe de produção da Record e isso ajuda também a qualificar mais o comentário, a não ficar apenas no aspecto técnico da modalidade. Além disso, tenho buscado informações com atletas, treinadores, coordenação do Time Brasil, e tenho estado antenada com o dia a dia da equipe, para acompanhar treinos e a rotina. Tudo isso vira informação.

Qual é a sua expectativa para as equipes femininas?

A ginástica feminina sempre teve mais resultado e mais visibilidade, mas ultimamente a equipe masculina está equivalente. De forma geral minha expectativa é de pódio por equipes. O Brasil tem nível para disputar até a primeira colocação, mas é um ano pré-olímpico, e o mundial é em outubro. Mas o Brasil vai para o Pan com muito foco, até para saber quem vai compor a equipe do mundial. E vamos tentar superar a marca que já conquistamos no quadro de medalhas.

Qual é a sua melhor lembrança de um Pan-Americano?

Em Havana, em 1991, foi uma emoção muito grande, porque sempre somos muito bem recebidos em Cuba. Ganhei duas medalhas de ouro, é uma lembrança muito querida. Outra memória tem a ver com a convivência com outros atletas. No começo era era a caçula, a mascote da turma, e ficava admirada com todos aqueles atletas experientes. E depois, no final, quando me transformei na veterana, foi muito legal poder transmitir essa experiência que vivi.

O que falta para o esporte feminino no Brasil?

Ainda existe preconceito, e acho que esse paradigma tem que cair. O esporte é o esporte, não tem que haver distinção entre feminino e masculino. Todo o mundo precisa de estrutura para performance de alto rendimento da mesma forma. O esporte é um fenômeno sócio-cultural. Se no mundo tem todos os gêneros, no esporte também vai ter. E as regras vão se adaptando.

Sobre ginástica artística, leia: Aos 33 anos, Daniele Hypolito busca sua sexta Olimpíada

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Shubi Guimarães: o namorado duvidou, mas ela virou corredora de aventura http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/07/12/shubi-guimaraes-o-namorado-duvidou-mas-ela-virou-corredora-de-aventura/ http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/07/12/shubi-guimaraes-o-namorado-duvidou-mas-ela-virou-corredora-de-aventura/#respond Fri, 12 Jul 2019 07:00:14 +0000 http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/?p=805 Quando um namorado de Shubi Guimarães disse que ela não deveria disputar uma prova de corrida de aventura, ela fez três coisas: “Fiquei indignada, terminei o namoro e fui participar da prova. Ele disse que eu não ia conseguir, pois faltavam apenas três meses, e que eu teria de treinar uns três anos para conseguir. Imagina!”.

Shubi Guimarães criou a primeira equipe de corrida de aventura só com mulheres (Reprodução/Instagram)

Shubi, hoje com 43 anos, criou a primeira equipe feminina de corrida de aventuras –depois de ter disputado a fatídica prova que levou ao fim do seu relacionamento.

“A corrida de aventura é um esporte em equipe que inclui trekking, remo e bike. Mas pode ter rapel, tirolesa, depende de onde acontece. É sempre em contato com a natureza e sempre com orientação [mapa]. Montei a equipe Atenah em 2000, só com mulheres. A gente começou a ganhar as provas e aí mudaram as regras. Hoje é obrigatório ter pelo menos um integrante do sexo oposto.”

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Shubi conta que praticou esportes a vida toda. “Nunca fui excelente em nada, mas sempre fui boa em tudo”, define ela, que estudava em uma escola que tinha aula de educação física todos os dias. “Só assim para me acalmar”, diverte-se.

Ela nadou e fez nado sincronizado dos 13 aos 15 anos. Aos 17 começou o triátlon. Aos 21, a corrida de aventura. Aos 24, fez o primeiro ironman. Além disso, jogou vôlei, basquete e handebol. “Sou habilidosa e aprendo rápido. Não sou muito veloz, mas tenho força”, conta ela, que quase não faz musculação.

A atleta comemora o aumento de mulheres no esporte (Reprodução/Instagram)

“Quando eu era mais nova, achava que precisava ficar mais bombada. Hoje, faço pouca musculação e com quase nada de peso, senão fico parecendo um armário. Sou uma vaidosa engraçada. Sou zero de comprar roupa, sou muito básica, estou sempre de tênis. Mas sempre faço sobrancelha, unha, ando de cabelo arrumado”, conta ela, que segue uma rotina pesada de treinos –normalmente em dois períodos do dia.

“Nos finais de semana é quando eu treino mais, porque tenho mais tempo. Eu amo treinar, meu corpo pede. Preciso correr.”

Há seis anos ela teve Antonio, que desde cedo demonstrou empolgação pelo esporte, como a mãe. “Ele pedala desde os dois anos, surfa, anda de skate, faz natação. Sempre quis muito ter filhos, e minha gravidez foi ótima e tranquila, mas tenho amigas que falam que esse período é a coisa mais linda da vida da mulher. Não acho. É limitante. Pelo menos para mim foi, inclusive no trabalho. Tive que parar de fazer um monte de coisas, não conseguia correr. Mas rapidinho voltei a treinar e, sempre que posso, levo ele para as viagens comigo.”

Antonio é aficionado por esportes como a mãe (Reprodução/Instagram)

Shubi comanda um acampamento de férias para crianças de 5 a 16 anos, que funciona em janeiro e em julho, e incentiva a prática de esportes e a ligação com a natureza. Ela também atua em um projeto da Olympikus que tem como objetivo levar as pessoas para conhecer o Brasil por meio de provas de corrida. A primeira etapa aconteceu no Jalapão e as próximas serão no Pantanal e em Alter do Chão. Shubi atua como diretora de prova, ou seja, ela decide o percurso, a largada, onde haverá pontos de hidratação etc.

A atleta comemora o aumento da participação das mulheres em provas de corrida e diz que isso tem acontecido no esporte de forma geral. “Rola um empoderamento. Ao participar, elas se sentem capazes, percebem o quanto o esporte faz bem, que é um remédio para tudo, para a pele, para o corpo e para o psicológico.”

E completa: “O esporte guia a minha vida. É uma ferramenta importante, que dá autonomia. Você aprende a ser forte, a cair e a levantar, a ter resiliência e coragem. E tudo isso vai para a vida inteira. Ao praticar esporte, a mulher se sente forte para enfrentar os desafios da vida, do trabalho e do relacionamento. Inclusive para terminar com o namorado, se for o melhor a fazer”, ri, lembrando da própria decisão.

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Tradição x revelação: o que esperar da final entre EUA e Holanda na Copa? http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/07/05/tradicao-x-revelacao-o-que-esperar-da-final-entre-eua-e-holanda-na-copa/ http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/07/05/tradicao-x-revelacao-o-que-esperar-da-final-entre-eua-e-holanda-na-copa/#respond Fri, 05 Jul 2019 07:00:31 +0000 http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/?p=797 Foram 50 partidas até aqui. Restam duas! E emoção não faltou a esta histórica Copa do Mundo da França, que termina no domingo. A final será disputada por Estados Unidos e Holanda, às 12h, em uma partida com duas técnicas mulheres no comando das equipes: Sarina Wiegmann pela Holanda e Jill Ellis pelos EUA. Esta é a primeira vez que isso acontece em 16 anos!

Vivianne Miedema, craque da jovem seleção da Holanda (Reprodução/Instagram)

As duas equipes finalistas têm currículos bastante distintos –diria que opostos. Enquanto os EUA já possuem longa tradição na modalidade, acumula títulos e tem um time de craques, a Holanda é uma equipe bastante jovem na disputa, com conquistas recentes e que pode ser definida quase como uma surpresa desta Copa. França, Inglaterra e Alemanha, por exemplo, eram equipes mais bem cotadas para estar nesta final.

Em comum, além de técnicas mulheres, ambas as seleções têm investimento forte de seus países, especialmente nas categorias de base e na formação de atletas.

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A Copa 2019 teve, até aqui, 141 gols marcados, uma média de 2.8 por partida, e revelou ao mundo um futebol feminino de altíssimo nível e em crescente evolução. Mas o melhor ainda está por vir: o jogo que decidirá qual é a maior seleção feminina do mundo. O que esperar dessa partida?

A volta de Megan Rapinoe, Alex Morgan incendiando o jogo e a poderosa seleção dos EUA

A seleção dos EUA, já há alguns anos, é um fenômeno do futebol feminino. E, nesta Copa, provou que não à toa é tricampeã do mundo (em 1991, 1999 e 2015). O time nunca foi eliminado antes de uma semifinal. Em seis partidas até aqui, balançou a rede 24 vezes.

Alex Morgan (à esq.) e Megan Rapinoe: estrelas da seleção dos Estados Unidos (Reprodução/Instagram)

A equipe tem muitas estrelas, entres elas a atacante Alex Morgan, uma das artilheiras desta Copa, com seis gols marcados. A seu lado, joga a experiente Megan Rapinoe, uma das líderes da seleção americana, que tem cinco gols nesta Copa.

Famosa por seu ativismo –ela não canta o hino do próprio país, como forma de protesto, e já disse que não vai à Casa Branca se vencer a Copa–, Megan foi uma das finalistas do prêmio de melhor do mundo da Fifa em 2018. Ela ficou de fora do último jogo por lesão, mas já disse que está bem melhor e que deve voltar a campo no domingo.

Definitivamente, os EUA são o time a ser batido neste mundial.

A surpreendente Holanda

Apesar de ter um time de craques e de ser a atual campeã da Eurocopa feminina, a jovem seleção da Holanda não vinha sendo apontada como um dos times favoritos deste Mundial.

As conquistas da equipe ainda são bastantes recentes. Disputou sua primeira Copa do Mundo apenas em 2015 e jamais se classificou para uma Olimpíada –mas estará no Japão, em 2020. E vem numa crescente forte que já a colocou em local de destaque no futebol feminino mundial.

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O time conta com Lieke Martens, jogadora do Barcelona eleita melhor do mundo pela Fifa em 2017, que marcou dois gols nesta Copa. Outro destaque é a atacante Vivianne Miedema, com três gols, que joga pelo Arsenal da Inglaterra e é a maior artilheira da seleção holandesa de todos os tempos –masculina e feminina. Shanice Van de Sanden completa o trio ofensivo.

A Holanda não venceu nenhum dos jogos deste Mundial por um placar muito elástico, mas fez a lição de casa e está disputando o ouro pela primeira vez! Será o jogo da vida das holandesas contra a seleção americana.

A favor delas ainda está sua animada torcida, que vem enchendo as ruas da França com uma onda laranja, sempre animada, e que vem conquistando os fãs de futebol.

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Se empolgou com a Copa e quer ajudar o futebol feminino? Veja como fazer http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/06/28/se-empolgou-com-a-copa-e-quer-ajudar-o-futebol-feminino-veja-como-fazer/ http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/06/28/se-empolgou-com-a-copa-e-quer-ajudar-o-futebol-feminino-veja-como-fazer/#respond Fri, 28 Jun 2019 07:00:03 +0000 http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/?p=779 “Tínhamos oito meninas participando do projeto. Depois que começou o Mundial, apareceram 15.” Quem conta é Priscila Beatriz de Moura Pereira, professora de educação física e responsável pela modalidade feminina da Academia de Futebol Pérolas Negras.

Ligado à ONG Viva Rio, que trabalha pela construção da paz e pela inclusão no Rio de Janeiro, o projeto é um clube de futebol criado para gerar impacto social e trabalhar com jovens carentes, que atua também com a possibilidade de formação de atletas.

Priscila, as atletas da Academia de Futebol Pérolas Negras e a jogadora Formiga, da seleção (Reprodução/Facebook)

Foi de Priscila a ideia de criar a modalidade feminina, que agora vem crescendo, mas ainda sem todo o apoio necessário. “A Copa do Mundo deu a visibilidade que o futebol feminino não tinha. Sempre vivemos nas sombras”, avalia.

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Como a Pérolas Negras, existem tantas outras iniciativas ligadas ao futebol feminino, que trabalham socialmente junto a crianças e jovens carentes, mas que formam atletas. Há quem já tenha descoberto jogadoras que atuaram na seleção e mesmo esportistas que receberam convites para jogar na Europa, na China ou nos Estados Unidos.

Em comum, todas elas possuem duas característica: estão agora ganhando espaço e precisam de apoio nas mais variadas frentes –financeira, espaço para treinos, parcerias e material esportivo. Mas como é possível ajudar?

A esperança renasceu

Priscila jogou no Fluminense entre 1999 e 2000 e, depois, foi treinadora do Vasco da Gama de 2009 a 2012, mas acabou desistindo pela falta de incentivo. “Aquilo não ia para lugar nenhum, não tinha retorno. Era um sonho para mim, como atleta, mas não havia estrutura”, lembra. Saiu do Rio de Janeiro e se mudou para Paty do Alferes, no interior do estado, onde idealizou um projeto cuja intenção era trabalhar com meninas e fechar parcerias para que elas pudessem jogar nos Estados Unidos.

Quando soube da atuação do Viva Rio junto à Academia Pérolas Negras, conta que sua esperança renasceu. “A ONG não quer necessariamente que a criança dê resultado como atleta, quer contribuir com crescimento e oportunidade. Mas eles abriram as portas para a minha iniciativa junto ao futebol feminino”, conta ela, que treina meninas de 12 a 20 anos.

Hoje, ela trabalha com o projeto Adote um Atleta, em que a pessoa interessada em ajudar paga R$ 90 mensais. Com o dinheiro, as meninas podem bancar a condução até o espaço de treinos, além de uniforme e alimentação. “O principal é que elas possam sair de casa, passear, comer um lanche. Mas sempre levando a sério o futebol”, diz Priscila, que já formou duas atletas que atuam no Flamengo.

Para que tudo isso seja possível, parcerias e doações também são necessárias. A PUC-Rio recentemente fez um jogo beneficente em Paty e doou material esportivo à equipe. A prefeitura cede ônibus quando as meninas vão jogar. E Priscila ainda trabalha junto a pequenas empresas locais, buscando patrocínios pontuais quando precisa. “Em cidade pequena é mas fácil de captar, pois todo o mundo se conhece e conhece também o projeto.”

Minha filha, minha craque

Rogério Davi dos Anjos, pedagogo e fundador da ANE (Associação Nova Esperança), de Mogi das Cruzes (interior de São Paulo), concorda. Ele iniciou seu trabalho social há 20 anos e já trabalhava com o futebol, inicialmente voltado apenas para meninos. “Minha filha sempre jogou futebol, desde os cinco anos, e, nessa época, treinava com eles. Quando chegou aos 14 anos, ela não podia mais participar. Aí tive a ideia de investir na modalidade feminina. Divulguei o projeto e formamos a equipe”, lembra ele. A filha, Andressa Anjos, virou jogadora profissional e já atuou inclusive pelos times de base da seleção brasileira. Hoje é atleta do São Paulo.

A ANE tem hoje vários núcleos em Mogi e um em Guararema (Arquivo Pessoal)

A ANE atua em vários núcleos espalhados por Mogi e também em Guararema. Há uma parceria com a prefeitura, mas que não é suficiente para manter o projeto –hoje são 80 meninas treinando. Então, Rogério conta com a parceria de comerciantes e empresários locais.

“Buscamos apoio para cada necessidade, nos mantemos por meio de doações. Eu dou a mão de obra, a proposta de trabalho e de mudança. E vou atrás de apoio. As comunidades normalmente acolhem muito o projeto. Convenci um empresário a pagar uma das professoras, por exemplo.”

Material esportivo também falta. A ANE eventualmente recebe doação de material que vem de empresas ou mesmo de condomínios, que descartam bolas em bom estado de conservação.

O time, hoje, representa a cidade em diversos campeonatos, como os Jogos Regionais. Ainda é preciso dinheiro para a logística de viajar com a equipe para campeonatos, mas o transporte, normalmente, é cedido pela prefeitura. “Quando as pessoas veem que o trabalho é sério, apoiam e ajudam”, conclui ele, que já teve atletas na Ponte Preta, no São Paulo e no futsal do Corinthians.

“A intenção do projeto é, primeiro, proporcionar para crianças e adolescentes uma atividade que ocupe o tempo ocioso delas. Mas também é importante ser fonte de esperança para aquilo que elas têm como sonho, que, muitas vezes, é ser jogadora de futebol. Antes disso, no entanto, ensinamos valores. Que elas devem ser boas cidadãs, bons seres humanos, e que precisam estudar.”

Chuteiras usadas

As mesmas carências tem o Projeto Social FutVida, iniciado neste ano, que atende 17 meninas entre 6 e 14 anos usando o futebol como ferramenta de inclusão social. A região de atuação é o bairro Jardim São Norberto, próximo de Parelheiros, na zona sul de São Paulo.

Crianças treinam na região de Parelheiros, em São Paulo (Arquivo Pessoal)

“Hoje temos pouco material. O que conseguimos comprar foi alguns cones, chapéus e duas bolas. Muitas das meninas começaram a treinar descalças. Ficávamos com receio, mas também com o coração partido de impedi-las de jogar. Hoje, graças ao apoio de muitos amigos, a maioria já tem sua chuteira, mesmo que usada”, conta Maria Amorim, que joga futebol de várzea e idealizou o projeto junto ao marido, Luís Alberto Amorim.

Hoje, as maiores necessidades do time, segundo Maria, são bolas iniciantes de futsal, cones, chapéus e bambolês. Além de dois kits de goleira. Ela ainda planeja marcar um amistoso e quer presentear as meninas com medalhas, além da confecção de camisas. E, para isso, precisa do apoio de parceiros.

Gente grande também pode aprender

As mulheres que gostam de jogar bola –ou sonham em aprender– também têm espaço: o projeto Joga Miga. “Ainda não conseguimos funcionar de forma gratuita, mas atuamos sem fins lucrativos. O objetivo é que mais mulheres possam jogar, aprender do zero, ou mesmo achar um time do qual possam participar”, conta Nayara Perone, idealizadora do projeto com Nathalia Santiago.

O valor cobrado mensalmente é o rateio para bancar aluguel da quadra e aulas. “Mantemos a transparência e sempre divulgamos as contas no fim de cada mês. Elas pagam o valor mais baixo possível para ter aulas com parte técnica, tática e física. E há jogos uma vez por semana.”

Mulheres do projeto Joga Miga, que acontece em São Paulo e em Belém (Reprodução/Instagram)

Material esportivo é uma das carências do projeto, e o grupo vende camisetas para tentar arrecadar dinheiro. Além disso, conseguiu fechar uma parceria recente com a Guaraná, que viabilizará a abertura de duas turmas gratuitas por um ano.

Quem quiser participar do Joga Miga só precisa ser maior de 18 anos. “Temos atletas com mais de 45 anos”, conta Nayara.

O projeto tem seis turmas em São Paulo, em regiões diversas da cidade, e uma em Belém (Pará) e já conta com 180 mensalistas fixas. “Temos também aos sábados um preparador de goleiras com treinos especiais para elas.”

:: Como ajudar

Academia de Futebol Pérolas Negras
Tel. (24) 98180-5511 com Priscila
Colaborações podem ser depositadas no Bradesco: agência 2921, conta corrente 20934-1, em nome de Priscila Beatriz de Moura Pereira

ANE (Associação Nova Esperança)
Tel. (11) 99926-1499 com Rogério ou pelo email roger_zelo@hotmail.com

Projeto Social FutVida
Tel. (11) 96756-9025 com Maria

Joga Miga
Não aceita colaboração em dinheiro, mas trabalha com apoio e parcerias, como patrocínio de camisetas e material esportivo. Contato pelo site jogamiga.com.br ou pelas redes sociais.

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“Seleção tem muito potencial, mas preparo não foi correto”, diz ex-jogadora http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/06/21/selecao-tem-muito-potencial-mas-preparo-nao-foi-correto-diz-ex-jogadora/ http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/06/21/selecao-tem-muito-potencial-mas-preparo-nao-foi-correto-diz-ex-jogadora/#respond Fri, 21 Jun 2019 07:00:30 +0000 http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/?p=772 Em dezembro de 2018, a meio-campista Francielle anunciou sua aposentadoria do futebol. Um ano antes, já havia se despedido da seleção brasileira, cheia de críticas à CBF –que se mantêm até hoje quando fala do preparo da atual equipe feminina.

“Eu acredito na seleção e sei que o time tem muito potencial. Mas não acredito que o trabalho tenha sido realizado de forma correta para chegar a uma final. Não foi como tinha que ser”, desabafa. “As outras seleções são muito melhores taticamente. A gente depende muito do individual, de uma Marta, de um bom momento da Cristiane, ou de uma bola parada. Não temos muitas variações de jogada. Isso deixa a desejar.”

Francielle, quando ainda atuava pela seleção brasileira (Reprodução/Instagram)

Francielle não acredita, no entanto, que as lesões de jogadoras importantes, como Formiga ou Andressa Alves, sejam consequência de falta de preparo físico. “Isso tem a ver com o momento que a atleta está vivendo. A Andressa, por exemplo, estava em final de temporada pelo Barcelona, com muito desgaste [o time disputou a final da Champions League há um mês]. Sair de lá e ir para uma Copa do Mundo exige muito da atleta. Há outras seleções passando pelo mesmo problema.”

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Francielle aprovou o jogo contra a Itália, que classificou a seleção para as oitavas de final do Mundial e diz que o time pode chegar à próxima etapa mais confiante. “O começo desta Copa já foi um recomeço, para apagar a preparação que não havia sido boa, com muitas derrotas. Gostei desse jogo e da atitude do Brasil. Mesmo com resultado magrinho, acredito que a seleção chega com o moral mais alto, fortalecida e confiante. No mata-mata, tudo pode acontecer.”

Segundo ela, os testes realizados por Vadão foram positivos. A atuação de Andressinha no meio-campo foi elogiada pela ex-atleta, assim como a atuação de Ludmila.

Francielle também se animou ao falar da torcida pelas Guerreiras do Brasil. “Quando eu jogava não tinha essas coisas de as pessoas se reunirem para ver o jogo. Acho superimportante”, afirma ela, que esteve na sede do Banco Votorantim para assistir ao jogo contra a Itália ao lado dos funcionários. A empresa foi uma das que decidiram exibir o jogo durante o expediente para os trabalhadores.

“Todo o mundo está com a mesma energia. Às vezes a pessoa nem entende muito de futebol, mas está lá, torcendo. Essa movimentação está acontecendo aqui no Brasil e fora também. E esse interesse só comprova a alta qualidade do futebol feminino”, disse ela, confessando que sofre muito ao acompanhar as partidas de longe.

“Sofro muito quando estou de fora, meu Deus do céu!”, conta, rindo. “É difícil porque, quando a gente está lá, tem como ajudar de alguma maneira, jogando, orientando. Aqui não tem como.”

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“Árbitro também chora”: como foi o caminho de Renata Ruel até a TV http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/06/14/de-arbitra-a-comentarista-como-foi-o-caminho-de-renata-ruel-ate-a-tv/ http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/06/14/de-arbitra-a-comentarista-como-foi-o-caminho-de-renata-ruel-ate-a-tv/#respond Fri, 14 Jun 2019 07:00:54 +0000 http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/?p=759 O sonho de atuar dentro de campo nasceu ainda na adolescência. Apaixonada por futebol, Renata Ruel gostava de repetir o que seria quando crescesse: árbitra. “Nunca passou pela minha cabeça ser jogadora”, afirma, em entrevista ao Extraordinárias.

Renata Ruel deixou a arbitragem para ser comentarista da ESPN (Divulgação)

Ela conta de como foi bem recebida no curso da Federação Paulista de Futebol, mas destaca a resistência que as federações ainda têm de escalar mulheres nas séries principais dos campeonatos –tanto estaduais quanto no Brasil. “Eu já escutei que o receio deles em colocar uma mulher é porque, se ela errar, o erro se torna muito mais visível e mais grave do que um erro de homem. Então, eles nem arriscam.”

Fala também sobre as exigências físicas quase inalcançáveis: há metas para homens e para mulheres, mas, para aptar um jogo do masculino profissional, a árbitra precisa alcançar o tempo masculino. O que, segundo ela, além de criar barreiras para atuação de mais mulheres no esporte, não tem relação com a realidade dos campos de jogo.

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Renata abre também a disparidade de salários entre as modalidades. Apesar de árbitros homens e mulheres ganharem o mesmo, quem apita jogos femininos recebe muito menos. “A desvalorização do futebol feminino já vem daí”, opina.

Hoje com 40 anos, decidiu pendurar as chuteiras após receber o convite da ESPN para comentar o futebol na emissora. “Achei que não tinha mais para onde ir, a arbitragem não estava me agregando mais nada.”

Leia, abaixo, trechos da entrevista.

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O que te motivou a buscar a formação de árbitro, a trabalhar com isso?

Sabe a paixão pelo futebol? Todos os árbitros têm. Eu venho de uma família apaixonada pelo futebol, e isso foi me encantando. Naquela época, a gente brincava na rua, e eu queria jogar bola. Ia para a escola, eu queria jogar futebol. Mas nunca passou pela minha cabeça virar jogadora. Eu sabia que ia trabalhar no meio do futebol e, de repente, aos 14 anos, surgiu a vontade de ser árbitra. Eu ligava na federação (Federação Paulista de Futebol) e perguntava como poderia fazer o curso e quando. Eles falavam que só quando terminasse o ensino médio, com 18 anos. Não me pergunte como surgiu esse desejo, só sei que eu falava “Quero ser árbitra!”.

E como as pessoas reagiam quando você falava isso?

Entre os amigos e a família eu nunca sofri nenhum preconceito. Ao contrário, sempre me apoiaram. Mas assim que eu acabei o ensino médio, disse que ia fazer curso. E a minha mãe não deixou. Disse que eu precisava ir para a faculdade primeiro. Mas a faculdade me trouxe muito conhecimento, foi importante, sim. Assim que acabei, a primeira coisa que eu fui fazer foi o curso. Porque era o meu sonho, era um desejo absurdo.

Como foi recebida no curso?

Primeiro eles fazem uma pré-seleção. Então tem uma prova, lembro que foi no Pacaembu. Aí veio a aprovação. Éramos em quatro turmas de 50 alunos e teve um “boom” de mulheres. Se não me engano, éramos em quase 20 mulheres. A recepção de todos foi muito legal, foi uma época em que as mulheres chegaram muito bem-vindas nos cursos de arbitragem. Logo procurei o Sindicato dos Árbitros para saber como funcionava o futebol na prática e passei a atuar. Então, antes de estrear na federação, eu já fazia jogos amadores e várzea.

Como era apitar esses jogos?

A várzea e o futebol amador são as melhores escolas, porque são realidades totalmente diferentes. Você não tem a segurança de um jogo da federação. Você tem que realmente aprender a trabalhar sob pressão, sem medo. E se você não aguenta o amador, não vai aguentar um jogo profissional. Eu vi colegas desistindo por ter torcedor xingando, ameaçando. Você tem, às vezes, 30 mil pessoas atrás de você te ofendendo e precisa manter a sua concentração no campo.

Mas você enfrentou algum caso mais grave?

Eu não posso falar que eu passei por situações gravíssimas de preconceito. Teve aquele episódio em que o jogador [o meia Leandro Zanoni, do Tupã] me encarou rosto a rosto –e o pessoal até brincou que parecia UFC. Acho que aquele lance foi o mais forte da minha carreira. Eu fico me perguntando se fosse um homem se ele faria a mesma coisa. Há muito preconceito, não dá para dizer que acabou. E o que mais me entristece é quando percebo preconceito das próprias mulheres. Já estive em estádio em que ouvia gritos das mulheres na torcida: “Vai lavar louça!”. Isso me doía, vindo de uma mulher machucava mesmo. E são mulheres que gostam de futebol!

Renata ficou cara a cara com um jogador do Tupã (Foto: Mario C. Gonçalves/ Divulgação)

A gente vê menos árbitras apitando jogos nas categorias principais do masculino porque tem menos mulheres ou há resistência das federações em escalá-las?

Ainda tem resistência, sim. Agora eu posso falar. Não é generalizando, não posso falar de todas as federações, não posso falar de todos os dirigentes de arbitragem, mas ainda tem preconceito. Eu já escutei que o receio deles em colocar uma mulher é porque, se ela errar, o erro se torna muito mais visível e mais grave do que um erro de homem. Então, eles nem arriscam. Mas para mim tem um outro agravante que é importante de falar: o que eles exigem hoje da mulher? Nós temos o teste físico com tempo feminino e masculino. Eles querem que, para a mulher atuar em jogos profissionais masculinos, ela faça o tempo masculino nos testes. Essa é uma das exigências, e isso dificulta muito [o acesso das mulheres]. Porque fisiologicamente a mulher é diferente do homem. Então, é um obstáculo a mais, na minha visão, que já colocam para a mulher para não chegar em jogos profissionais.

Como funciona esse teste?

A parte mais bruta do teste: são 40 tiros de 75 metros, com 25 metros de recuperação. Só que você tem um tempo. O homem tem que fazer o tiro de 75 metros 15 segundos, com recuperação de 20 segundos. A mulher, para o teste do feminino, tem que correr 75 metros em 17 segundos, com recuperação ativa de 22 a 24 segundos. Na minha opinião, após tantos anos no meio e depois de tentar entender e de conversar com especialistas, vejo que o teste físico não é a realidade do campo de jogo. O assistente, por exemplo, não dá um tiro de 75 metros nunca, porque o espaço dele é menor do que esse, é de no máximo 50 metros. É um obstáculo que eles colocam a mais.

Na arbitragem, o salário para homem e mulher é o mesmo?

É, porque o que é determinado na arbitragem é a taxa do jogo. Então, depende da categoria, não de quem está arbitrando. O que muda, por exemplo, é que temos Brasileirão masculino e feminino. Aí, a diferença de taxa é absurda. Um árbitro Fifa ganha R$ 5.000 no masculino. O feminino paga entre R$ 700 e R$ 800. E aqui na Federação Paulista é a mesma coisa. O árbitro que vai apitar um jogo feminino ganha R$ 300. Se vai apitar o Paulistão masculino, em torno de R$ 3.000 a R$ 4.000. A diferença é mais gritante ainda. A desvalorização do futebol feminino já vem daí.

A Copa do Mundo masculina nunca teve árbitra mulher?

Não. Nessa última tínhamos uma esperança de que entrasse alguém pelo menos no VAR, mas não teve.

Renata em ação; foram 15 anos de arbitragem (Reprodução)

Qual é a sua expectativa para a seleção feminina nesta Copa?

A minha expectativa é enorme. Eu sou uma pessoa que levanta a bandeira do futebol feminino e vejo um progresso enorme das equipes, uma melhora no investimento, um comprometimento maior, uma evolução dentro de campo. A minha felicidade é imensa de ter podido comentar a final da Champions League feminina pela ESPN e de ver que o Brasileirão e o Paulista estão sendo transmitidos agora pela TV aberta. E com boa audiência! Torço muito pela seleção, e acho que quem não acompanha o futebol feminino pode ver o quanto ele evoluiu.

O Brasil tem um trio de arbitragem representando o país?

Sim. A Edina [Alves Batista], que é uma grande árbitra, sensacional, merecedora de estar lá. E as duas assistentes, a Neuza Back e Tatiane Sacilotti, que também são grandes assistentes. Neste ano, por convite da federação, elas vieram para São Paulo e estavam atuando pela FPF para já chegar na Copa com um entrosamento grande. A CBF investiu muito nas três, fizeram um grande trabalho dentro da Granja Comary, e elas vão representar o Brasil da melhor maneira possível. Se a seleção não jogar a final, elas têm total condição de atuar nesse jogo.

Como se deu a decisão de deixar a arbitragem para virar comentarista da ESPN?

Eu ainda estava atuando quando eles me convidaram. Eu tinha 15 anos de arbitragem, é muito tempo dentro do campo. É algo que realmente eu amo, que me realizou, a que eu dediquei a minha vida profissional, e nunca pensei que um dia eu pudesse falar: “Cansei, preciso de outra coisa”. Só que eu achei que não tinha mais para onde ir. Foram 15 anos de realizações, de muitas alegrias e tristezas –porque os árbitros também choram bastante, apesar de as pessoas não saberem. Não é fácil. Mas quando veio o convite da ESPN eu não tive dificuldade nenhuma em decidir. É um desafio enorme, que eu acredito que vá me agregar muito mais e me fazer crescer como pessoa. Se eu já estudava antes, agora tenho que estudar muito mais, porque eu quero passar a informação correta. Se eu via jogos antes, hoje eu tenho que assistir muito mais.

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Copa Feminina de Futebol: vencer é o mais importante? http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/06/09/copa-feminina-de-futebol-vencer-e-o-mais-importante/ http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/06/09/copa-feminina-de-futebol-vencer-e-o-mais-importante/#respond Sun, 09 Jun 2019 07:00:59 +0000 http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/?p=744 Campeão ou não, és minha paixão. Essa é uma das frases que mais marcaram minha vida e minha relação tão estreita e apaixonada pelo futebol. No meu caso, pelo Corinthians, mas que, eu acho, deveria servir para torcedores de todo time e esporte.

Todo o mundo quer e ama ser campeão, obviamente. A alegria de ver seu time conquistar um campeonato, fase a fase, degrau por degrau, não existe em nenhum outro espaço ou contexto. Não tem tamanho e é indescritível. Acompanhar a superação de cada etapa e fazer parte dela é uma sensação mágica. O orgulho de ver seu maior amor vencer e de ser um pouquinho campeão junto dele só sabe quem já sentiu.

Marta é uma das estrelas da seleção feminina de futebol (Divulgação/CBF)

 

E esse sentimento é tão especial justamente porque ele não é cotidiano nem fácil. Tampouco depende de algo específico. Quando acontece, a vitória é sempre uma combinação de muitos fatores, do conjunto, do ambiente, da potência, do desejo. E até da sorte, claro que sim. E ainda assim, ainda que o mundo conspire, que a garra entre em campo, que o universo queira, nem sempre dá para ser campeão.

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Estamos em plena Copa do Mundo de futebol feminino e tenho me sentido ansiosa com a estreia da seleção brasileira –domingo, às 10h30, contra a Jamaica. Não dá para negar, é um momento especial. O espaço das mulheres no esporte vem crescendo e sendo valorizado.

Ainda falta muito a ser conquistado, mas já temos uma camisa desenhada para nossas atletas –em vez daquele uniforme masculino reaproveitado–, poderemos assistir aos jogos pela televisão aberta e com comentários de mulheres. Muitas empresas pela primeira vez estão liberando seus funcionários do trabalho –como sempre acontece na Copa masculina– para torcer e prestigiar os jogos. Há marcas que de forma inédita se engajaram com a modalidade, investindo e apostando em seu sucesso. O futebol feminino no Brasil, apesar do machismo e da discriminação ainda tão frequentes, está finalmente ganhando visibilidade.

É bonito de assistir. E antes mesmo de a seleção entrar em campo, eu já sinto um pouco o gostinho de ser campeã com ela. Porque eu –como tantas pessoas que prestigiam e amam o futebol, masculino ou feminino– esperei muito por este momento. Por este reconhecimento. O time brasileiro nem pisou ainda no gramado, mas já pode saborear a sensação mágica de superação.

Nenhum jogo ainda foi disputado nem vencido, mas foi difícil chegar até aqui. Pergunte a qualquer uma das jogadoras que representarão o nosso país. Não é por puro marketing que elas estão sendo chamadas de Guerreiras do Brasil. A maioria teve uma vida de enfrentamentos, socialmente e profissionalmente. São mulheres que brincaram de bola na infância com cabeças de boneca e tiveram que fugir das aulas de balé. Encararam apelidos. Trabalharam sem estrutura e sem salário. E não tem ser humano nesta terra chamada Brasil que sonhe mais com o primeiro título de Copa do Mundo do que elas mesmas.

Andressa Alves é atacante da seleção (Divulgação/CBF)

Temos uma seleção vitoriosa e considerada uma das melhores do mundo. Temos sete títulos de Copa América, já ficamos em segundo e em terceiro nas Copas de 2007 e 1999, e conquistamos duas medalhas de prata em Olimpíadas (2004 e 2008).

Além disso, entre as nossas jogadoras temos Formiga, única jogadora de futebol do mundo a ter participado de seis Jogos Olímpicos, todas as edições desde que o futebol feminino passou a participar da disputa e a atleta –entre homens e mulheres– com maior participação em mundiais, totalizando sete. Contamos ainda com Marta, eleita seis vezes melhor do mundo, a maior artilheira das Copas com 15 gols. Sem esquecer de Cristiane, a maior goleadora de Olimpíadas, com 14 gols.

Mas a campanha pré-Mundial não foi boa, e a seleção vem de nove derrotas. Pode parecer desanimador. Você pode pensar que não vale a pena ver os jogos, que não temos chances de ser campeãs. Mas será que isso é o mais importante neste momento?

Quando a seleção brasileira entrar em campo, eu vou estar torcendo para que ela vença. Mas cheia de certeza de que as maiores batalhas estão sendo enfrentadas ainda fora de campo. E nada pode apagar as conquistas que marcaram essa caminhada –para as mulheres e para o esporte feminino.

Agora temos voz.
E eu vou usar a minha para continuar dizendo: campeão ou não, és minha paixão.

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Crivella, mulher entende de futebol. Mas não entende comentário machista http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/30/crivella-mulher-entende-de-futebol-mas-nao-entende-comentario-machista/ http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/30/crivella-mulher-entende-de-futebol-mas-nao-entende-comentario-machista/#respond Thu, 30 May 2019 21:01:23 +0000 http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/?p=735

(Foto: Lula Marques/Folhapress)

Marcelo Crivella (PRB), atual prefeito do Rio de Janeiro, achou de bom tom fazer piada com a ciclovia Tim Maia, cuja estrutura já caiu várias vezes, em uma delas causando a morte de duas pessoas. Durante um evento há dois dias, afirmou:

“Tem muito vascaíno aqui, não? Eu queria até consultar vocês. O pessoal está me sugerindo colocar o nome da ciclovia de Vasco da Gama. Está caindo muito”, disse ele, referindo-se aos rebaixamentos sofridos pelo time carioca — três no total.

Houve quem achasse graça. O Vasco soltou uma nota oficial dizendo o que para a maior parte das pessoas era óbvio: “O Club de Regatas Vasco da Gama repudia a descabida declaração do prefeito Marcelo Crivella e lamenta que o chefe do Poder Executivo Municipal, eleito para zelar pelo bem público e, sobretudo, pela vida dos cidadãos, tenha se referido de forma tão desrespeitosa a uma tragédia com perdas humanas. O Vasco da Gama se solidariza com os parentes e amigos das vítimas da queda da ciclovia Tim Maia”.

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O próprio Vasco, que poderia ter se irritado com a “zoeira” do prefeito botafoguense diante de momentos dramáticos de sua história, preocupou-se apenas em deixar o recado da sensibilidade e da empatia.

Hoje, em um outro evento a que compareceu, Crivella foi questionado por uma repórter se pediria desculpas pela “brincadeira”.

Vocês são meninas, não entendem nada. Pelo menos na minha época não entendiam. Mas os meninos a vida inteira brincaram. Flamengo contra Fluminense, Botafogo e Vasco. Domingo tem jogo do Botafogo e Vasco e se eu ficar fazendo crítica do Vasco pode dar azar para o meu time”, declarou o prefeito.

Parênteses rápido para lembrar o seguinte episódio: em debate com Marcelo Freixo, na campanha de 2017, na Rede TV!, durante os comentários finais, Crivella disparou:

“Eu quero agradecer a você, Mariana [Godoy] e dizer que esse sucesso todo é por causa de vocês. Com certeza a beleza de vocês encantou os telespectadores e a todos”, afirmou o candidato, achando oportuno destacar a beleza da jornalista em vez de sua inteligência e de seu profissionalismo no comando do debate. Mariana encerrou o programa com ironia: acenando aos telespectadores com um tchauzinho de miss.

Marcelo Crivella é de 1957. Isso significa que, quando ele nasceu, mulher era proibida de jogar futebol no Brasil. E assim permaneceu até 1979 –quando Crivella já tinha 22 anos e provavelmente acompanhava os jogos do Botafogo há anos. Muitas mulheres que amavam o esporte –desde antes de 1941, quando o governo decretou o veto, há registros de mulheres apaixonadas por futebol, jogando e torcendo– não tiveram oportunidade de fazer o mesmo.

Desde a liberação do futebol feminino, que aconteceu de forma mais efetiva nos anos 1980, as mulheres vêm numa longa batalha por espaço e reconhecimento. Dentro de campo, nas arquibancadas, como profissionais do esporte e também no jornalismo. As pioneiras enfrentaram preconceito, descrença e ironia. E resistiram.

E a resistência segue forte até hoje, pois ela é necessária. Nos comentários deste post, aqui embaixo, logo aparecerão frases desmerecendo o talento feminino, dizendo que as mulheres só reclamam, que futebol feminino é ruim etc etc etc. E ninguém precisa gostar, ninguém precisa assistir, mas todo o mundo precisa respeitar.

Hoje não tem mais veto –pelo menos não na lei– e vai ter mulher jogando bola, sim, prefeito. Vai ter mulher falando de futebol, vai ter mulher nas arquibancadas do Botafogo, vai ter mulher comentarista na Copa em TV aberta. Porque tem algumas coisas de que a gente não entende nada mesmo –como piadas insensíveis e reprodução de discurso machista em pleno 2019–, mas com certeza entre elas não está futebol.

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Após câncer aos 8 anos, fisioterapeuta virou campeã mundial de bicicross http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/26/apos-cancer-aos-8-anos-fisioterapeuta-virou-campea-mundial-de-bicicross/ http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/26/apos-cancer-aos-8-anos-fisioterapeuta-virou-campea-mundial-de-bicicross/#respond Sun, 26 May 2019 07:00:34 +0000 http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/?p=721 A bicicleta entrou na vida de Janaína Cintas no pior momento. Após ser diagnosticada com câncer no fêmur aos oito anos e passar um ano de gesso, sua perna estava atrofiada, e o joelho não dobrava.

Como a menina sentia muita dor, sua fisioterapeuta aconselhou o pai que desse a ela uma bicicleta, como forma de exercitar a perna e recuperar o movimentos. Janína acabou virando bicampeã mundial de BMX.

A fisioterapeuta Janaína Cintas (Divulgação)

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Sua ligação com o esporte fez com que ela se tornasse, segundo sua própria definição, uma apaixonada pelo movimento. E sua vivência após a doença a levou à faculdade de fisioterapia. Hoje, trabalha com questões ligadas à saúde da mulher. Com base na ginástica hipopressiva (que diminui a pressão abdominal, muitas vezes causada pelo excesso de exercícios físicos), Janaína –que trabalha com pilates desenvolveu um método que atua desde a diminuição de sequelas do pós-parto até a prevenção e o controle de incontinência urinária.

Leia, abaixo, seu depoimento ao Extraordinárias:

“O esporte entrou na minha vida por conta de algo ruim a princípio: um câncer no fêmur da perna esquerda, diagnosticado quando eu tinha oito anos. Fui submetida a uma cirurgia para a remoção do tumor e ganhei um gesso, do quadril ao tornozelo, com o qual fiquei durante um ano. No final do tratamento, após muita fisioterapia, eu ainda não conseguia flexionar o joelho.

Na época, a fisioterapia tinha pouquíssimos recursos, estava começando. A profissional que me atendia, então, sugeriu ao meu pai que me presenteasse com uma bicicleta para que pedalando eu ganhasse mais amplitude do movimento final do joelho –algo que nas sessões de fisioterapia era muito dolorido, já que havia ficado um ano sem mexer a perna, com gesso. A perna estava completamente atrofiada. Para a fisio, pedalar seria uma forma lúdica de recuperação do movimento e da força ao mesmo tempo.

Janaína quando criança, bicampeã mundial de BMX (Arquivo Pessoal)

Por conta dessa limitação no joelho ganhei um diferencial enorme no ciclismo. Fui adquirindo uma técnica só minha para lidar com a falta do movimento na perna esquerda, o que acabou me dando um domínio muito grande da bicicleta.

Depois de sofrer um ano de cama em casa, poder pedalar era maravilhoso, era tudo o que eu queria. Por causa do filme “E.T. – O Extraterrestre”, pedalar virou uma febre na época. Todo o mundo queria a bicicleta do garoto do filme. Todos os meninos tinham a azul, a minha era a rosa. Nós pedalávamos na rua e queríamos pular rampas, igual acontecia no filme.

Meu pai, então, descobriu que iria acontecer uma competição e me inscreveu. Venci! Um técnico de uma empresa grande de bicicleta, o Almir Heleno, estava lá, me viu e disse ao meu pai que eu tinha talento. Perguntou se ele não me deixaria competir outras vezes, e ele topou. Assim decolei no esporte.

Fiquei muito entusiasmada, e isso proporcionou uma grande transformação em mim e uma mudança radical na minha vida. Me federei e comecei minha carreira como atleta de BMX. O primeiro mundial de que participei foi em 1987, no Chile, e o segundo, no ano seguinte, na Bélgica. Fui a primeira brasileira a ser campeã mundial nessa categoria. Foi uma fase inigualável da minha vida, a sensação de ser campeã mundial é absurda.

No começo, por ser um esporte masculino, era muito difícil. Bicicleta de uma forma geral era muito ligada a homem. Eram poucas as categorias no BMX e, muitas vezes, eu tinha que competir com meninas muito mais velhas do que eu. E em várias vezes competi com meninos. Mas isso, por outro lado, acabou me tornando uma atleta mais competitiva.

Como nunca sabia quem seriam meus adversários, treinava sempre muito forte para estar preparada para tudo. Isso foi legal, porque acabei desenvolvendo uma maneira de lidar com os imprevistos muito peculiar e também uma concentração muito grande, pronta a enfrentar todas as adversidades. Nunca fui vítima de machismo ou de qualquer outro tipo de discriminação, ao contrário, sempre os meninos me ajudam muito e protegiam. Foram duas décadas de treinos e campeonatos. Você coloca a criança para pedalar, e ela deslancha.

Meu pai sempre me incentivou e guardava todas as reportagens que saíam sobre mim, gravava em vídeo as reportagens de TV, e as de rádio, em fita cassete. Como o esporte veio dessa forma transformadora na minha vida, meus pais sempre apoiaram muito. Para eles, ver a filha virar a página de uma doença tão séria –da qual o primeiro diagnóstico era amputação– para virar uma atleta de alto nível era uma vitória muito grande.

Janaína com o pai, que sempre a incentivou no esporte (Arquivo Pessoal)

O esporte também me trouxe disciplina, equilíbrio emocional, aprendi a saber perder, saber ganhar. O esporte me tirou da rota de qualquer coisa que não fosse boa e saudável. A ajuda esportiva acabou por gerar uma mulher bacana.

No entanto, como o ciclismo não era viável financeiramente, tive que ir estudar. Optei por cursar fisioterapia, já que a carreira de educação física naquela época era bem limitada e basicamente se resumia a dar aulas. No esporte, sempre convivi muito com os fisioterapeutas, e era uma área de que eu gostava e que tinha a ver com movimento, o que sempre me fascinou.

A fisioterapia foi, então, um caminho natural. Ela foi um agente transformador de algo que poderia ter sido muito ruim na minha vida –a minha doença– para algo que acabou sendo maravilhoso –que foi o esporte de alto rendimento, que me levou a várias conquistas. 

Mas, quando me formei, estava meio perdida. É normalmente assim, e a gente acaba indo para onde a vida nos leva. Eu havia parado o esporte de alta performance, mas não consegui parar de fazer esporte e comecei a participar de corridas de rua. Foi quando me deparei com questões como a alta pressão abdominal, a incontinência urinária e muitas dores –dores que já eram comuns para mim no esporte. Então, comecei a pesquisar e a estudar para entender melhor o que estava acontecendo.

Quando o pilates chegou ao Brasil, há 15, 18 anos, veio como mais uma opção de tratamento para o fisioterapeuta, mas com uma pegada esportiva. E, quando eu fui para o pilates, me apaixonei. Daí veio minha ligação forte com a saúde da mulher –já que a maioria dos praticantes de pilates ainda é mulher. O princípio do pilates é que se você fortalecer as costas e o abdome, a sua dor lombar vai sumir. E eu era extremamente forte, alongada, e ainda assim eu sofria de dor lombar. Falei: ‘Tem alguma coisa errada e preciso achar o que falta’.

E me deparei com as questões internas, comecei a estudar muito fortemente as vísceras, as glândulas e por aí vai. Porque nosso corpo que não consiste apenas no sistema músculo esquelético, é um corpo que contém vísceras, contém emoções. Não somos máquinas. Conheci a professora francesa de ioga Bernadette de Gasquet e o método dela, muito usado nas maternidades de toda a França, e os métodos hipopressivos. Fiquei uma temporada na Europa estudando tudo isso.

Por isso chamo a atenção para o aumento dos exercícios abdominais entre os jovens do mundo todo e, consequentemente, o aumento da incontinência urinária por esforço. A técnica que desenvolvi, chamada MAH (Método Abdominal Hipopressivo), pode ajudar as mulheres em diversas fases da vida. Pode prevenir e tratar incontinência urinária por esforço, pode ajudar quem está insatisfeita com sua postura, pode diminuir a circunferência abdominal, para quem entrou ou está prestes a entrar no climatério aumenta a libido, e também auxilia em casos de depressão, pois gera dopamina, o hormônio do orgasmo.

Às vezes, a gente pensa que esses problemas não são nada, mas, quando passa por isso, percebe o quanto tiram nossa qualidade de vida. E estamos falando em incontinência urinária de mulher jovens, de até 40 anos. Existem pesquisas que dizem que entre as mulheres maratonistas, quase 80% tem incontinência urinária, pelo esforço e pelo impacto. Isso afeta em todos os aspectos: socialmente, psicologicamente e na autoestima, que vai lá para o chão. Ouço muitos depoimentos de pessoas dizendo, após o tratamento, o quanto a vida delas está melhor, e isso não tem preço. Não é ego, mas querer proporcionar mais qualidade de vida para essas mulheres.”

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“No futebol era a gordinha; no rúgbi, a mais forte”, diz capitã da seleção http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/17/no-futebol-era-a-gordinha-no-rugbi-a-mais-forte-diz-capita-da-selecao/ http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/2019/05/17/no-futebol-era-a-gordinha-no-rugbi-a-mais-forte-diz-capita-da-selecao/#respond Fri, 17 May 2019 07:00:16 +0000 http://extraordinarias.blogosfera.uol.com.br/?p=711 Raquel Kochhann sempre amou esportes e, desde pequena, sonhava em ser jogadora de futebol. Até a adolescência, atuou no Esporte Clube Juventude, mas a verba que financiava o time feminino foi cortada, e a equipe acabou.

Um dia, foi convidada pela amiga de uma amiga a ir conhecer o rúgbi. “Quando cheguei lá, foi amor ao primeiro contato”, lembra ela, brincando com uma das características dessa modalidade esportiva: o contato físico.

“Quando eu jogava futebol, era a mais gordinha. No rúgbi, vi que isso era uma vantagem. Lá, eu era a mais forte, não a mais gorda.”

Raquel Kochhann é a capitã da seleção de rúgbi feminina (Divulgação)

Raquel, hoje com 26 anos, diz que a inclusão foi importante para se envolver no esporte. “Quando comecei, tinha 19 anos. Pode parecer tarde para iniciar um esporte. Mas o rúgbi tem espaço para isso, tem espaço para todo o mundo. O importante é ter vontade de treinar. Ao resto a gente se adapta.”

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Ela conta que, desde que começou a praticar o esporte, sempre o levou muito a sério. “Queria investir mesmo, para ser atleta.”

E o investimento deu resultado. Hoje Raquel é capitã da seleção brasileira de rúgbi sevens (modalidade em que as equipes contam com sete atletas), que em abril foi campeã do Hong Kong Sevens Feminino. Isso significa que o time foi promovido pela segunda vez na história à elite da Série Mundial.

“Essa para mim foi a nossa conquista mais importante. Estamos entre os 11 melhores times do mundo e ganhamos vaga para o circuito mundial.” A modalidade virou esporte olímpico em 2016 e a seleção chegou a disputar a Olimpíada no Rio, em que o Brasil pegou a nona colocação. O time ainda é campeão sul-americano invicto 15 vezes seguidas e foi medalha de bronze no Pan-Americano de Toronto, em 2015.

De título em título, o rúgbi feminino vem ganhando espaço no Brasil. Desde 2011, quando o COB (Comitê Olímpico do Brasil) incluiu a modalidade em seu Prêmio Brasil Olímpico, que elege os melhores de cada esporte, apenas um homem foi premiado na categoria. Em todos os outros anos quem venceu foi sempre uma mulher –e Raquel ganhou em 2017.

Apesar de ser bem mais antiga no Brasil, a categoria masculina tem poucas conquistas quando comparada às da jovem seleção feminina. “A gente não gosta de fazer comparação. Estamos lutando e conquistando o nosso espaço”, resume Raquel, que conta sempre com o apoio maciço da família. “Mas o meu avô, até hoje, diz que é esporte de maluco”, diverte-se.

A atleta diz que nunca sofreu preconceito, pelo contrário. Que o esporte, mesmo ainda não tão conhecido no Brasil, desperta nas pessoas curiosidade e admiração. “Quando eu conto que jogo rúgbi, as pessoas dizem: ‘Nossa, sério? Vocês são fortes!’. Elas ficam bem impressionadas.”

O contato físico existente no esporte, ela garante, nunca lhe causou nenhuma lesão grave “O preparo e o condicionamento físico ajudam a evitar isso. A técnica ajuda a nos proteger. A gente aprende também a como não machucar o adversário e a respeitá-lo.”

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