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Demitir Jean após caso de agressão é o melhor que o São Paulo pode fazer?

Débora Miranda

22/12/2019 04h00

"Todas as famílias têm desentendimentos, e acreditamos que foi o que aconteceu neste caso. Esperamos que os fatos mostrem que esse foi um assunto familiar privado e que nenhum crime foi cometido."

A declaração é de Jack Goldberger, advogado de Jean Paulo Fernandes Filho, e foi dada na semana passada ao UOL Esporte. O goleiro do São Paulo foi acusado pela mulher, Milena Bemfica, de tê-la agredido durante viagem aos Estados Unidos. A afirmação de Goldberger vai de encontro ao conceito que promotoras e advogadas especializadas em violência doméstica tentam mudar: o de que a agressão à mulher é um problema particular.

"Na minha opinião, houve uma evolução em todos os aspectos da sociedade que, antes, naturalizava a violência doméstica e a via como um problema privado da família. Mudou esse paradigma, e as pessoas começam a atentar para essa realidade que afeta milhares de mulheres", afirma Fabiana Dal'Mas, promotora de Justiça de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar do Ministério Público de São Paulo.

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O caso de Jean veio a público depois que Milena postou vídeos em sua rede social mostrando o rosto ferido e pedindo ajuda. A polícia foi chamada, e Jean acabou preso. Segundo o boletim de ocorrência, ele teria desferido oito socos contra a mulher, que tentou se defender com uma chapinha. Jean já foi solto e responderá em liberdade.

Enquanto isso, no Brasil, o São Paulo, clube em que Jean atua, divulgou uma nota dizendo que "tomou uma decisão sobre o futuro do atleta após averiguar detalhes do episódio". "Por questões legais que impedem qualquer iniciativa durante o período de férias, vigente neste momento, o clube tomará as medidas cabíveis tão logo esta etapa se encerre."

O blog apurou que a intenção da diretoria do clube é mesmo demitir o jogador –que, aliás, já teve outros problemas no ambiente de trabalho. Mas demitir Jean é o melhor que o São Paulo pode fazer neste momento? Na opinião de especialistas em violência doméstica ouvidas pelo blog, sim.

Jean, goleiro do São Paulo, acusado pela mulher de agressão (Orange County Public Records)

"A decisão é paradigmática e educativa. Várias entidades têm caminhado nessa direção. Por muitos anos, a violência contra a mulher foi tolerada. É importante que haja decisões de cunho educativo, que haja consequências. Isso não pode mais ser aceito. O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo. Por isso, a decisão do clube me parece adequada até em termos de política, como uma forma de dizer que ele não tolera nem apoia a violência contra a mulher", afirma Fabiana.

Flávia Merlini, promotora que atuou no enfrentamento contra a violência doméstica (inclusive no caso Neymar) e hoje está na Promotoria de Justiça Cível de São Paulo, concorda. "A decisão do São Paulo vai ao encontro de todas as políticas adotadas pela sociedade e pelo poder público na defesa dos direitos das mulheres vítimas de violência doméstica e demonstra sua intolerância com qualquer ato de agressão. A medida revela a preocupação do clube em não pactuar com qualquer forma de violência, seja ela entre torcedores, seja de condutas criminosas praticadas por seus jogadores, evidenciando que o respeito com o ser humano está acima de outros valores. E, neste caso, demonstra respeito com as mulheres submetidas a esse tipo de violência."

Para Rubia Abs da Cruz, advogada e membra da Cladem Brasil (Comitê Latino-Americano Pela Defesa dos Direitos da Mulher), é importante estabelecer medidas exemplares, em casos como esses.

"Os números de feminicídio têm aumentado, e decisões como essa [de demitir o atleta] podem ser exemplares para coibir a violência, para não naturalizá-la nem banalizá-la. Porque é isso o que acontece muitas vezes: é como se o homem tivesse esse poder de bater na mulher ou de violentá-la. Embora existam medidas protetivas, as condenações criminais ainda são ínfimas. Então, apesar de a decisão do clube não ser algo que conste na legislação, acredito que tenha uma ação bastante efetiva e positiva. São milhares e milhares de torcedores, muitos deles homens. É importante esse exemplo."

Masculinidade tóxica: como enfrentar?

Além de dispensar atletas envolvidos em casos de violência doméstica, é consenso entre as especialistas que seria importante os clubes trabalharem também na prevenção de comportamentos violentos.

"Seria interessante debater a masculinidade tóxica. Os clubes de futebol poderiam trazer essa discussão, até na formação básica de meninos mais jovens. O homem não pode chorar, não pode ter uma fraqueza, ele precisa ser forte. Estamos reforçando um padrão que é muito ruim para as mulheres e também para os homens. Estudos vêm debatendo isso nos esportes. Ter uma política educativa seria muito interessante", afirma Fabiana.

Ela cita pesquisas que mostram que em decisões de campeonatos e aos finais de semana, quando há jogos, aumenta o índice de agressão contra mulheres. "É importante ter uma mensagem correta e clara que dialogue com esse público do esporte."

Rubia lembra de uma iniciativa criada pelo deputado estadual Edegar Pretto (PT-RS), que criou a campanha Cartão Vermelho à Violência Contra a Mulher. A iniciativa contou com a colaboração de clubes de futebol de Porto Alegre, que entravam com a camiseta do projeto e com faixas. Então, além de atingir os próprios jogadores, a iniciativa chegava também à torcida.

"Esse tipo de iniciativa é muito importante e pode atingir muitos homens, porque o futebol está em todas as classe sociais. E ajuda a conscientizar as mulheres também, porque há muitas que sofrem com a violência a vida toda e precisam saber que está errado."

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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