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Fera do freestyle: "A maioria dos homens não faz o que eu faço com a bola"

Débora Miranda

2025-08-20T18:04:00

25/08/2018 04h00

Raquel mostra que tem intimidade com a bola (Reprodução/Instagram)

Foram atualizadas as definições de embaixadinha, e o que existe agora é o futebol freestyle, modalidade em que as manobras com a bola beiram o inacreditável até para quem é craque no futebol tradicional. "Eu sou melhor do que a maioria dos homens, inclusive alguns jogadores de futebol. Eles não conseguem fazer o que eu faço com a bola. Nem o Neymar", diz Raquel Benetti, 28 anos. "Eu ganharia de todos eles", diverte-se, completando: "No freestyle, claro".

Raquel não está exagerando. Seu domínio da bola e as manobras que ela realiza são muito acima do que um jogador tradicional demonstra em campo. O que não impede, no entanto, que ela admire muitos deles. "Minhas referências são Maradona e Ronaldinho Gaúcho. Eles deram início ao freestyle. Mas admiro muito Cristiano Ronaldo, Neymar, Messi e Marta, claro."

Situações engraçadas ela diz que já passou várias. "Principalmente de salto alto né?", esnoba. "O pessoal olha para mim e nunca espera [que vá fazer alguma manobra]. Mas é muito gratificante, vale mais do que dinheiro esse reconhecimento. Já fui a programas de televisão e os jogadores falam 'Não me humilha ao vivo, não'. Eles ficam com medo de brincar comigo, é muito louco isso. É incrível para uma menina que saiu da periferia estar vivendo tudo isso. É muito gostoso."

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Raquel cresceu na zona leste de São Paulo, na Cohab Sapopemba, "lá para os lados de São Mateus", como ela mesma diz. "Minha mãe diz que desde os três anos eu já gostava muito de brincar com bola. Comecei aos oito anos a fazer escolinha de futebol e não parei mais. Quando você cresce na periferia, o único brinquedo que tem é a bola. Eu ficava muito na rua com os meninos jogando", diz ela, que chegou a atuar profissionalmente pelo Juventus.

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Na adolescência já demonstrava talento para manusear a bola. Até que o time Shandong Luneng, da China, viu alguns de seus vídeos no YouTube e a chamou para ir ao país fazer apresentações. "No futebol não tem muito incentivo, é difícil conseguir patrocínio. Por isso acabei saindo. Por exemplo, o que as meninas ganham mensalmente jogando eu acabo ganhando em uma apresentação de futebol freestyle, às vezes. Viajo o mundo fazendo isso. Era o meu sonho. Sempre amei futebol e poder viver disso é incrível", diz ela que teve Milene Domingues como inspiração.

O freestyle é dividido em vários estilos. Tem o upper, que são manobras feitas com o ombro e a parte superior do corpo. Nos ground moves a bola fica no chão. O lower são as manobras feitas em pé, e o sit down, sentada. Raquel treina diariamente para não perder o ritmo. "Faço academia pelo menos três vezes por semana e pratico o futebol freestyle uma ou duas horas por dia. Se não treinar todo dia perde agilidade, movimento e timing", diz ela que sonha em bater o recorde de oito horas e vinte e quatro minutos fazendo embaixadinhas para entrar no Guinness.

Raquel afirma que ainda há muito preconceito contra a mulher no universo do futebol. "A gente tem que provar dez vezes mais, tem que mostrar que sabe de futebol e que pode falar sobre isso. É difícil, é uma barreira que ainda precisa ser quebrada." Apesar disso, ela diz que o interesse das meninas vem crescendo cada vez mais pelo esporte. "Eu recebo pelas redes sociais muitas mensagens e percebo que estou influenciando as garotas. Vejo que eu e outras atletas estamos deixando um legado, criando um mundo novo em que as mulheres podem dizer que são melhores do que os homens."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?