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"A polícia nos levou para fora da cidade", diz iraniana barrada no futebol

Débora Miranda

21/11/2018 04h00

 

Iraniana se emociona em jogo da Copa do Mundo da Rússia (Fifa)

Desde 1981 as mulheres iranianas foram proibidas de ir ao estádio ver esportes –especialmente o futebol, que grande parte delas ama. A Revolução Islâmica, que aconteceu em 1979, marcou a chegada dos aiatolás ao poder e fez do país uma república baseada nos preceitos religiosos do islamismo, que se sobrepõem aos valores democráticos.

"O regime islâmico passou a restringir a liberdade das mulheres, o hijab [véu islâmico] se tornou obrigatório e as leis da família se tornaram as leis islâmicas." Quem conta é Sara, iraniana integrante do movimento Open Stadiums, que luta pelo direito feminino de ir a jogos de futebol. Sara não é seu nome verdadeiro. Sua identidade é mantida em sigilo por medo de repressão e até cadeia.

Em entrevista exclusiva ao Extraordinárias, ela fala da sofrida luta pela reconhecimento dos direitos das mulheres no Irã. Ela lembra de um amistoso contra a Costa Rica, em 2006, em que a polícia não permitiu que as mulheres se aproximassem do portão do estádio.

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"Nos enganaram dizendo que tínhamos que entrar em um ônibus, que esse ônibus nos levaria ao portão. Então, entramos no ônibus e eles nos levaram para fora da cidade", lembra.

Ela também critica a postura da Fifa e da AFC (Confederação Asiática de Futebol), que sabem do que ocorre no país e não agem para que as mulheres possam, finalmente, ter liberdade de frequentar arquibancadas e torcer pelos seus times do coração.

Leia, abaixo, trechos da entrevista.

*

Cinco de outubro de 1981 foi o último dia em que as iranianas puderam ir a um jogo de futebol, correto? O que houve desde aquele dia? Por que foram banidas dos estádios?

Sim, 1981 foi o ano em que as mulheres foram banidas de ir aos estádios no Irã. O último jogo era um derby. Mas desde a Revolução Islâmica de 1979 o regime islâmico passou a restringir a liberdade das mulheres, o hijab se tornou obrigatório e as leis da família se tornaram as leis islâmicas. Além disso, no início dos anos 1980 estávamos em guerra com o Iraque e não era seguro ir a eventos públicos. Então, acabou virando rotina que as pessoas não fossem aos estádios, pois estavam ocupadas com outros problemas em suas vidas.

A proibição se aplica apenas a jogos de futebol ou também a outros esportes?

A proibição se aplica a várias partidas masculinas, especialmente nas modalidades que são nossas principais, como futebol e wrestling. São os times mais vitoriosos que temos.

Vi um vídeo na página de vocês no Twitter em que uma mulher aparecendo chorando e há uma mensagem: "A mesma coisa aconteceu a jovens fãs de futebol 12 anos atrás, quando o Irã jogou um amistoso contra a Costa Rica". Pode contar o que houve?

Nossa campanha começou em 2005, quando protestamos durante uma partida eliminatória para a Copa da Alemanha contra o Bahrein, em que pudemos assistir a metade da partida. Desde então, tentamos protestar em qualquer partida nacional jogada no Tehran Azadi Stadium. Em março de 2006, aconteceu um amistoso contra a Costa Rica. Compramos entradas e nos reunimos em frente ao estádio. A polícia não nos deixou chegar perto do portão e nos enganou dizendo que tínhamos que entrar em um ônibus, que esse ônibus nos levaria ao portão. Então, entramos no ônibus, e eles nos levaram para fora da cidade. O Azadi Stadium fica do lado oeste de Teerã e, depois dele, há apenas estradas. É um local meio perigoso para nós, mulheres. Mas pegamos outro ônibus e voltamos para perto do estádio. E eles começaram a nos bater para que voltássemos para casa. Naquele vídeo que eu postei no Twitter, a menina chora e diz que durante a final da Ásia, a mesma coisa aconteceu e não puderam assistir à partida que era muito importante para elas.

Ir a jogos de futebol era uma atividade tradicional entre as mulheres iranianas antes de 1981?

Antes da revolução islâmica, era comum que as famílias fossem assistir às partidas de futebol ou de qualquer outro esporte. E, desde 1998, jogar futebol se tornou mais comum e a atividade favorita das meninas. Se você estiver seguindo o noticiário, verá que nosso time feminino de futsal se tornou campeão da Ásia pela segundo ano.

Pode explicar o que houve recentemente na final da AFC Champions League? Quem eram as mulheres que puderam assistir àquele jogo?

É um padrão que a Federação Iraniana de Futebol aprendeu com a nossa federação de vôlei, porque no vôlei eles fazem algo parecido: convidam apenas algumas mulheres ou familiares dos jogadores para assistir aos jogos e fingem que liberaram a entrada de mulheres para contornar as críticas. Na partida entre Persepolis e Kashima Antlers, eles convidaram algumas pessoas próximas à federação e aos clubes, mas não venderam ingressos. A AFC e a Fifa  sempre ficam sabendo desses episódios, mas não reagem. E além disso ainda divulgam declarações agradecendo ao governo do Irã pelo que, na verdade, não é uma realidade. Ir a jogos é direito da mulher segundo o estatuto da Fifa, então eles têm que cuidar disso e olhar mais atentamente à situação. Uma das coisas que mencionamos durante o encontro com a secretária geral da Fifa, Fatma Samoura, foi que assistir a partidas de futebol virou crime para as mulheres no Irã.

Apareceram na internet fotos de mulheres vestidas como homens para entrar no estádio e ver jogos de futebol. O que pode acontecer se essas meninas forem pegas?

Se fossem presas e levadas à polícia, primeiro pediriam aos pais que assinassem para que elas fossem liberadas. Se fossem pegas novamente seriam levadas à corte. E isso não é bom para a reputação, porque pode impedir no futuro que você se candidate a trabalhos. E tudo por ser fã de futebol! Sempre foi importante para nós ir ao estádio com nossa identidade feminina e, por causa disso, nunca usamos roupas masculinas. Mas essas meninas chamaram a atenção para a proibição, especialmente por meio das mídias sociais, e mostraram o que as iranianas fãs de futebol passam para ver uma simples partida.

Torcedoras iranianas se vestiram de homens para entrar em partida de futebol (Reprodução)

Os homens iranianos apoiam a batalha de vocês?

Acho que nossa principal conquista nessa campanha é que agora todos, inclusive os homens, acreditam que as mulheres devem entrar nos estádios.

Vocês podem se manifestar livremente ou precisam se esconder? Que tipo de ações a Open Stadiums realiza?

Eu escondi minha identidade por muitos anos, pois existiam ameaças de prisão e de ir a interrogatório. Mas a beleza da nossa campanha é que, recentemente, a nova geração se uniu a nós e tem se mostrado muito ativa. Não é mais necessário que nós nos organizemos para cada partida importante. As meninas vão aos portões do estádio para mostrar que querem ver um jogo. Nossa ação, principalmente, é advogar e fazer lobby com autoridades do futebol. Mandamos cartas e evidências para Fifa, AFC e organizações de direitos humanos para mostrar que, como mulheres, sofremos discriminação no esporte.

Qual é a relação de vocês com a Fifa?

A Fifa respondeu nossa carta e tivemos diversas reuniões. Eles reconhecem nossos direitos, mas não fizeram nada ainda pois preferem manter as relações de negócios com o futebol iraniano.

Vocês recebem apoio de mulheres ao redor do mundo?

Sim, desde que eu comecei essa conta de Twitter em inglês tenho recebido muito apoio de todas as partes. Neste ano, fizemos parte de uma exposição na Alemanha chamada "Fantastic Fans, que mostrou o quanto estamos lutando para ver uma partida de futebol, que significa muito para nós. Especialmente durante a Copa do Mundo, muitos jornalistas de todas as partes do mundo demonstraram interesse pelas nossas histórias, por esse que sempre foi o nosso sonho.

O que você acha que ainda é preciso para que as mulheres iranianas finalmente conquistem o direito de ver um jogo de futebol?

Acho que preparamos nossa sociedade para aceitar esse direito e que nossa federação é perfeitamente capaz de criar condições para que as mulheres possam ir aos estádios. Agora é a hora de a Fifa e a AFC colocarem a última pressão no Irã para permitir a liberação feminina. Mas não só das VIPs, precisamos que eles vendam ingressos para que possamos finalmente dizer que as mulheres puderam comparecer a um jogo de futebol.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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