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Caso Ronaldo Giovaneli: carta aberta de uma corintiana ao ídolo

Débora Miranda

2013-03-20T19:12:07

13/03/2019 12h07

(Reprodução/ Instagram)

Querido Ronaldo,

É bom poder falar com você de novo. Havia anos que não nos falávamos. Não ache estranho. Sei que nunca me viu na vida, mas eu conversei com você milhões de vezes. Em tantos jogos, tantos momentos na arquibancada, tantos "sai, zica!", tantas defesas históricas. Conversamos e comemoramos muito nesta minha vida. Eu e você, juntos. E mais 30 milhões de torcedores fiéis.

Você é ídolo, como não haveria de ser? Sua história de mais de 600 jogos defendendo a camisa do Timão. Sua estreia defendendo um pênalti contra o São Paulo. Foram tantos "espaaaaalma, Ronaldo!" a minha infância e adolescência toda. Tantas vitórias, alguns campeonatos. Como eu chorei em 1995, no Santa Cruz de Ribeirão Preto, na minha primeira final ao vivo, no estádio!

Talvez você não tenha ideia disso, Ronaldo, mas você ajudou a criar uma geração inteira de mulheres apaixonadas por futebol. E pelo Corinthians. De mulheres que iam para o estádio, que acompanhavam os jogos, que sabiam, sim, escalação, impedimento, hino ou qualquer outra bobagem que os homens gostavam de usar para testar nosso conhecimento sobre futebol.

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E, quase 25 anos depois, pouco mudou. Continuamos tendo que mostrar, todo santo dia, que somos dignas de estar nessa bolha sagrada chamada futebol que vocês, homens, ainda acreditam que pertence a vocês. Como torcedoras, como atletas, como jornalistas, como narradoras, como comentaristas.

Desvalorizar o comentário de uma mulher dizendo que ela não entende de futebol é discriminação pura e simples. E foi isso o que você fez ao escrever esse tuíte se referindo a Ana Thaís Matos, do SporTV, uma profissional reconhecida e com conquistas tão importantes –única mulher comentarista de futebol em programas e agora em jogos dentro da Unidade de Esportes do Grupo Globo.

(Reprodução/Twitter)

Que tal colocar seu argumento na mesa e abrir uma discussão honesta sobre o assunto? Tentar diminuí-la valorizando outra profissional é, mesmo que involuntariamente, a repetição de um dos mais prejudiciais comportamentos masculinos: diminuir uma mulher elogiando outra e incentivando a rivalidade entre elas. Não acreditamos mais em nada disso, acreditamos, ídolo?

É o velho: "Eu não sou machista, mas". Amigo, se tem um "mas", você é, sim, machista. E ter um ídolo machista, para tantas de nós, que estamos nessa luta por respeito há décadas, é o mais triste que pode haver.

É difícil mudar hábitos. Mas é um grande esforço que vale a pena. Especialmente para quem tem voz ressonante dentro do futebol, como você. É uma luta NECESSÁRIA! E para quem tem a humildade que eu sei que você sempre teve, não será tão difícil assim.

Ninguém precisa voltar a 1995 para saber disso. Recentemente, nessa tola discussão que surgiu sobre quem era o maior goleiro da história do Corinthians, você foi o primeiro a dizer: Cássio. E a verdade é que não precisa haver UM MAIOR GOLEIRO DA HISTÓRIA DO CORINTHIANS. Nossa história é longa demais, linda demais e tem espaço para todos os ídolos que ajudaram a transformá-la e a escrevê-la.

E você, ainda hoje, é um deles. Vamos, então, continuar escrevendo e transformando essa história? Vamos mostrar que não precisamos sempre concordar, mas que sabemos respeitar IGUALMENTE todas as pessoas que quiserem falar, torcer, trabalhar ou participar de qualquer forma do nosso tão amado futebol?

Sempre bom conversar com você, querido Ronaldo.

Saudações corinthianas com carinho,
Débora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do jornal Agora São Paulo. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?