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Após câncer aos 8 anos, fisioterapeuta virou campeã mundial de bicicross

Débora Miranda

26/05/2019 04h00

A bicicleta entrou na vida de Janaína Cintas no pior momento. Após ser diagnosticada com câncer no fêmur aos oito anos e passar um ano de gesso, sua perna estava atrofiada, e o joelho não dobrava.

Como a menina sentia muita dor, sua fisioterapeuta aconselhou o pai que desse a ela uma bicicleta, como forma de exercitar a perna e recuperar o movimentos. Janína acabou virando bicampeã mundial de BMX.

A fisioterapeuta Janaína Cintas (Divulgação)

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Sua ligação com o esporte fez com que ela se tornasse, segundo sua própria definição, uma apaixonada pelo movimento. E sua vivência após a doença a levou à faculdade de fisioterapia. Hoje, trabalha com questões ligadas à saúde da mulher. Com base na ginástica hipopressiva (que diminui a pressão abdominal, muitas vezes causada pelo excesso de exercícios físicos), Janaína –que trabalha com pilates desenvolveu um método que atua desde a diminuição de sequelas do pós-parto até a prevenção e o controle de incontinência urinária.

Leia, abaixo, seu depoimento ao Extraordinárias:

"O esporte entrou na minha vida por conta de algo ruim a princípio: um câncer no fêmur da perna esquerda, diagnosticado quando eu tinha oito anos. Fui submetida a uma cirurgia para a remoção do tumor e ganhei um gesso, do quadril ao tornozelo, com o qual fiquei durante um ano. No final do tratamento, após muita fisioterapia, eu ainda não conseguia flexionar o joelho.

Na época, a fisioterapia tinha pouquíssimos recursos, estava começando. A profissional que me atendia, então, sugeriu ao meu pai que me presenteasse com uma bicicleta para que pedalando eu ganhasse mais amplitude do movimento final do joelho –algo que nas sessões de fisioterapia era muito dolorido, já que havia ficado um ano sem mexer a perna, com gesso. A perna estava completamente atrofiada. Para a fisio, pedalar seria uma forma lúdica de recuperação do movimento e da força ao mesmo tempo.

Janaína quando criança, bicampeã mundial de BMX (Arquivo Pessoal)

Por conta dessa limitação no joelho ganhei um diferencial enorme no ciclismo. Fui adquirindo uma técnica só minha para lidar com a falta do movimento na perna esquerda, o que acabou me dando um domínio muito grande da bicicleta.

Depois de sofrer um ano de cama em casa, poder pedalar era maravilhoso, era tudo o que eu queria. Por causa do filme "E.T. – O Extraterrestre", pedalar virou uma febre na época. Todo o mundo queria a bicicleta do garoto do filme. Todos os meninos tinham a azul, a minha era a rosa. Nós pedalávamos na rua e queríamos pular rampas, igual acontecia no filme.

Meu pai, então, descobriu que iria acontecer uma competição e me inscreveu. Venci! Um técnico de uma empresa grande de bicicleta, o Almir Heleno, estava lá, me viu e disse ao meu pai que eu tinha talento. Perguntou se ele não me deixaria competir outras vezes, e ele topou. Assim decolei no esporte.

Fiquei muito entusiasmada, e isso proporcionou uma grande transformação em mim e uma mudança radical na minha vida. Me federei e comecei minha carreira como atleta de BMX. O primeiro mundial de que participei foi em 1987, no Chile, e o segundo, no ano seguinte, na Bélgica. Fui a primeira brasileira a ser campeã mundial nessa categoria. Foi uma fase inigualável da minha vida, a sensação de ser campeã mundial é absurda.

No começo, por ser um esporte masculino, era muito difícil. Bicicleta de uma forma geral era muito ligada a homem. Eram poucas as categorias no BMX e, muitas vezes, eu tinha que competir com meninas muito mais velhas do que eu. E em várias vezes competi com meninos. Mas isso, por outro lado, acabou me tornando uma atleta mais competitiva.

Como nunca sabia quem seriam meus adversários, treinava sempre muito forte para estar preparada para tudo. Isso foi legal, porque acabei desenvolvendo uma maneira de lidar com os imprevistos muito peculiar e também uma concentração muito grande, pronta a enfrentar todas as adversidades. Nunca fui vítima de machismo ou de qualquer outro tipo de discriminação, ao contrário, sempre os meninos me ajudam muito e protegiam. Foram duas décadas de treinos e campeonatos. Você coloca a criança para pedalar, e ela deslancha.

Meu pai sempre me incentivou e guardava todas as reportagens que saíam sobre mim, gravava em vídeo as reportagens de TV, e as de rádio, em fita cassete. Como o esporte veio dessa forma transformadora na minha vida, meus pais sempre apoiaram muito. Para eles, ver a filha virar a página de uma doença tão séria –da qual o primeiro diagnóstico era amputação– para virar uma atleta de alto nível era uma vitória muito grande.

Janaína com o pai, que sempre a incentivou no esporte (Arquivo Pessoal)

O esporte também me trouxe disciplina, equilíbrio emocional, aprendi a saber perder, saber ganhar. O esporte me tirou da rota de qualquer coisa que não fosse boa e saudável. A ajuda esportiva acabou por gerar uma mulher bacana.

No entanto, como o ciclismo não era viável financeiramente, tive que ir estudar. Optei por cursar fisioterapia, já que a carreira de educação física naquela época era bem limitada e basicamente se resumia a dar aulas. No esporte, sempre convivi muito com os fisioterapeutas, e era uma área de que eu gostava e que tinha a ver com movimento, o que sempre me fascinou.

A fisioterapia foi, então, um caminho natural. Ela foi um agente transformador de algo que poderia ter sido muito ruim na minha vida –a minha doença– para algo que acabou sendo maravilhoso –que foi o esporte de alto rendimento, que me levou a várias conquistas. 

Mas, quando me formei, estava meio perdida. É normalmente assim, e a gente acaba indo para onde a vida nos leva. Eu havia parado o esporte de alta performance, mas não consegui parar de fazer esporte e comecei a participar de corridas de rua. Foi quando me deparei com questões como a alta pressão abdominal, a incontinência urinária e muitas dores –dores que já eram comuns para mim no esporte. Então, comecei a pesquisar e a estudar para entender melhor o que estava acontecendo.

Quando o pilates chegou ao Brasil, há 15, 18 anos, veio como mais uma opção de tratamento para o fisioterapeuta, mas com uma pegada esportiva. E, quando eu fui para o pilates, me apaixonei. Daí veio minha ligação forte com a saúde da mulher –já que a maioria dos praticantes de pilates ainda é mulher. O princípio do pilates é que se você fortalecer as costas e o abdome, a sua dor lombar vai sumir. E eu era extremamente forte, alongada, e ainda assim eu sofria de dor lombar. Falei: 'Tem alguma coisa errada e preciso achar o que falta'.

E me deparei com as questões internas, comecei a estudar muito fortemente as vísceras, as glândulas e por aí vai. Porque nosso corpo que não consiste apenas no sistema músculo esquelético, é um corpo que contém vísceras, contém emoções. Não somos máquinas. Conheci a professora francesa de ioga Bernadette de Gasquet e o método dela, muito usado nas maternidades de toda a França, e os métodos hipopressivos. Fiquei uma temporada na Europa estudando tudo isso.

Por isso chamo a atenção para o aumento dos exercícios abdominais entre os jovens do mundo todo e, consequentemente, o aumento da incontinência urinária por esforço. A técnica que desenvolvi, chamada MAH (Método Abdominal Hipopressivo), pode ajudar as mulheres em diversas fases da vida. Pode prevenir e tratar incontinência urinária por esforço, pode ajudar quem está insatisfeita com sua postura, pode diminuir a circunferência abdominal, para quem entrou ou está prestes a entrar no climatério aumenta a libido, e também auxilia em casos de depressão, pois gera dopamina, o hormônio do orgasmo.

Às vezes, a gente pensa que esses problemas não são nada, mas, quando passa por isso, percebe o quanto tiram nossa qualidade de vida. E estamos falando em incontinência urinária de mulher jovens, de até 40 anos. Existem pesquisas que dizem que entre as mulheres maratonistas, quase 80% tem incontinência urinária, pelo esforço e pelo impacto. Isso afeta em todos os aspectos: socialmente, psicologicamente e na autoestima, que vai lá para o chão. Ouço muitos depoimentos de pessoas dizendo, após o tratamento, o quanto a vida delas está melhor, e isso não tem preço. Não é ego, mas querer proporcionar mais qualidade de vida para essas mulheres."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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