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Coletivo fortalece o skate feminino: "Chegamos em bonde para impactar"

Débora Miranda

20/10/2019 04h00

Fortalecer meninas e empoderá-las por meio do skate. Esse é o ideal do coletivo Britney's Crew, que nasceu no Rio de Janeiro, em 2016, com o objetivo de movimentar a cena do skate feminino. "Nossa intenção é dar ênfase para as meninas que não estão sendo vistas, porque o coletivo, hoje, tem muita visibilidade. Queremos abraçar quem não tem espaço, a lésbica, a mina que já é mãe, a que está mocada no interior, a nordestina… A galera que não é vista", afirma Thayná Gonçalves, 23 anos, uma das criadoras do movimento.

Thayná Gonçalves, do Britney's Crew (Divulgação)

Outro trabalho que as meninas fazem é ajudar as skatistas que participam de campeonatos e, muitas vezes, não têm dinheiro para a inscrição, para a passagem ou hospedagem. O dinheiro conseguido pelo grupo vindo de parcerias com marcas é usado para financiar isso, além de ajudar financeiramente as próprias meninas que trabalham pelo funcionamento do coletivo e nas ações que ele promove. Elas agem, ainda, como intermediárias entre skatistas que precisam de apoio e empresas que podem se interessar por investir no esporte.

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"Tem os casos da Giovana Dias e da Atali Mendes, por exemplo. A Atali tem mais de 90 mil seguidores no Instagram e as marcas não chegam nela para parcerias. Ou então chegam, mas não no valor que ela merece, não oferecendo o suporte de que ela precisa. Então, trabalhamos nisso também, criamos apresentações das skatistas e entramos em contato com as marcas. Queremos ajudar e fazemos isso como podemos", conta Thayná.

Além do apoio financeiro, ela diz que é importante manter a união das meninas no skate –modalidade em que os homens ainda têm muitos privilégios. "Muita coisa já mudou, mas ainda há muito a ser mudado. No ano passado, por exemplo, teve uma competição em que o menino ganhou o triplo do prêmio da menina. Temos que continuar batendo nessa tecla, expor essa situação, cobrar as marcas. Temos o mesmo potencial que eles, não queremos ganhar menos. Estamos aqui para ganhar igual", decreta.

Ela diz que os próprios homens ainda oferecem resistência às meninas que se aventuram no skate. "Principalmente se a menina vai andar sozinha. Por isso sempre vamos juntas. Ou eles dão em cima, ou dizem que a gente é modinha. Recebemos relatos diários sobre isso. Precisamos chegar em bonde para impactar."

Apesar disso, Thayná lembra que teve sorte. Começou a andar de skate aos 13 anos, quando morava perto de uma pista. "Eu via a galera andando e queria também. A galera me abraçou demais, eu era a mascotinha, a única menina, e os meninos sempre cuidavam de mim. Fizeram o possível para me ajudar", conta ela, destacando que foi uma "criança muito feliz" e que sempre pôde contar com o apoio dos pais.

Skate elitizado

Em 2020, o skate vai estrear como esporte olímpico, nas Thayná não vê a novidade –celebrada por tantos atletas– como algo totalmente positivo. "Tem o pró e o contra", pondera. "O skate olímpico é muito elitizado, é difícil ter oportunidade. No ano passado, a Ana Julia foi selecionada para disputar o mundial na China e não tinha dinheiro para a passagem. Tem coisas que ainda são muito inacessíveis para quem não tem uma marca que chega junto."

Thayná diz, ainda, que não gosta mais de competições, porque são "calcadas na tristeza de outra pessoa". E destaca que grande parte das celebridades do skate feminino não apoiam os coletivos espalhados pelo país e quem está começando.

"Quem ajuda é a Pamela Rosa. Ela diariamente manda mensagem, ajuda nas vaquinhas que fazemos. As outras só fazem por elas mesmas", afirma.

Outras ações que o coletivo faz estão centradas em comunidades do Rio, como na Maré ou em Cidades de Deus, onde atuam junto a projetos sociais, levando a cultura do skate às crianças.

Ao falar da nova geração, Thayná destaca o talento de Rayssa Leal, 11 anos, que recentemente se tornou a atleta mais jovem a vencer no SLS World Tour (competição da liga de street, em que a pista tem obstáculos imitando ruas) –e que ficou conhecida ao viralizar na internet com um vídeo em que andava de skate vestida de fada.

Rayssa e o troféu que a alçou à segunda posição no ranking mundial de skate feminino (Reprodução/Instagram)

"Ela é o presente e o futuro do skate. Está quebrando demais e ainda é pequena, nova, não tem tanta força nas pernas. Mas manda inúmeras manobras de cair o queixo. Ela é bem esforçada, e os pais estão na cena com ela, o que é importante. O futuro dela vai ser surreal, quero ver os próximos capítulos."

Enquanto os próximos capítulos não chegam, Thayná e o Britney's Crew trabalham para revelar novos nomes do futuro do skate feminino. Nesta semana, elas participaram da Skate Copa Classics, evento promovida pela Adidas que mistura esporte e cultura. O coletivo organizou uma programação toda voltada às meninas, tanto de esporte quanto de bate-papos e música.

"Não tenho palavras para descrever esse evento, porque era algo que a gente estava esperando muito. Ser skatista e produzir um evento para skatistas é surreal, estamos muito felizes. E ainda por cima tendo sido tudo comandado por mulheres", afirmou, orgulhosa. "Ainda escutamos muitas perguntas machistas e ouvimos frases como: 'Você anda de skate que nem homem'. A gente não anda que nem homem, mas, sim, como mulher, confortáveis nas roupas que queremos usar. Deixa as meninas em paz."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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