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"Vai lavar roupa!": Vamos fazer uma coisa diferente, Edílson?

Débora Miranda

26/11/2019 15h41

"Vai lavar um prato, vai lavar roupa. Quer fazer alguma coisa diferente? Vai engraxar o sapato." Ontem foi a vez de o ex-jogador Edílson achar por bem ridicularizar Leila, conselheira do Palmeiras e presidente da Crefisa, por causa de um vídeo em que ela aparece brincando de cobrar pênalti no Allianz Parque.

BRIN-CAN-DO. Não é que ela invadiu o campo numa final de Libertadores, arrancou a bola da mão do Dudu e quis cobrar. Ela fez uma brincadeira, com o campo vazio e o mascote do Palmeiras como goleiro. Chutou a bola lentamente e comemorou a vitória. Só isso. Simples assim. Quase infantil.

O vídeo virou assunto do programa Os Donos da Bola, apresentado por Neto na Band, e Edílson quis dar sua opinião. "Isso é ridículo! Isso aí não pode acontecer nunca. Isso é ridículo! Será que não tem ninguém aí no Palmeiras para chegar e falar para essa mulher não fazer isso? Tem gente que tem dinheiro e não tem fama, e quer ser famoso de qualquer jeito. É o caso dela. Ela quer ser famosa de qualquer jeito. Não é possível! Vai lavar um prato, vai lavar roupa. Quer fazer alguma coisa diferente? Vai engraxar o sapato, qualquer coisa que ninguém veja. Mas ir bater pênalti? Vai viajar, vai gastar o dinheiro que tem", disse o ex-jogador.

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No programa, ninguém interrompeu. Ninguém se manifestou. Ninguém mandou um péra lá. Enquanto isso, na internet, o mundo começou a cair. Naturalmente. Não é preciso ter um nível sobrenatural de gentileza para entender que não se chama ninguém de "essa mulher". Não é preciso ter elevação espiritual para saber que não se manda ninguém lavar prato, lavar roupa ou engraxar sapato. Até porque, Edílson, isso não é fazer nada diferente.

O diferente vem agora. O diferente é cobrar pênalti em vez de lavar louça. É ser presidente de uma grande empresa e não lavar roupa. É ser conselheira de time de futebol em vez de engraxar sapato. Leila, ao contrário do que você acha, Edílson, está fazendo tudo de diferente.

No último bloco de Os Donos da Bola, talvez alertados pela má repercussão do discurso inflamado, Neto e o jogador tentaram contornar a situação.

"O Edílson falou aqui em relação à Leila, negócio de lavar roupa… Não é lavar roupa de preconceito. Não é nada disso", disse Neto. "Lavar a roupa dela, fazer algo diferente. Eu gosto da Leila, ela é guerreira, mas não pode fazer uma matéria dessa… De bater pênalti", completou o Capetinha. "E não tem nada de preconceito aqui não, muito pelo contrário. O que ele quis dizer é para ela lavar a roupa dela de uma maneira geral, como eu lavo a minha. Quem não lava roupa? Todo mundo lada roupa. Ninguém falou nada de preconceito, não. Vamos também parar com essas coisas de levar tudo a ferro. […] Edílson não quis falar nada, não. Para aí dos caras já ficarem ligando, enchendo o saco."

Eu não liguei, mas vou continuar enchendo o saco. E quero deixar aqui uma proposta para o Edílson. Que tal fazer um esforço e se despir de tantos preconceitos?

Em fevereiro do ano passado, o ex-jogador virou notícia ao dar uma declaração racista se referindo ao goleiro Jailson, também do Palmeiras. Num programa do canal Fox Sports, ele disse que goleiros negros são mais propensos a falhar. Ainda completou com a pérola: "O Dida não era negão. É pardozinho. (…) Tem coisas no futebol que vocês não jogaram, vocês não entendem".

Não, Edílson, eu não entendo mesmo. Não entendo qualificar pessoas por sua cor. Não entendo classificar o que cada um pode fazer de acordo com seu gênero. Não, goleiros negros não são piores do que brancos. Sim, as mulheres podem cobrar pênalti quando quiserem, onde quiserem e sempre que quiserem. E, não, não estamos mais no mundo para lavar roupa, nem "de maneira geral".

Vamos fazer uma coisa diferente e aprender a respeitar o outro?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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