PUBLICIDADE

Topo

Erika Januza: "Uma mulher negra conseguir ser atleta no Brasil é difícil"

Universa

08/03/2020 04h00

Erika Januza interpreta a tenista Marina em "Amor de Mãe" (Isabella Pinheiro/ Gshow)

Cite três tenistas mulheres negras brasileiras. Difícil? Pois a novela "Amor de Mãe" vem retratando essa realidade por meio da personagem Marina, interpretada por Erika Januza. "Serena e Venus [Williams] sofreram preconceito no início da carreira. Não vai ser diferente no Brasil", afirma a atriz, citando duas estrelas norte-americanas, grandes campeãs da modalidade.

Serena, especialmente, é uma atleta bastante engajada. Fala muito de feminismo, maternidade e de oportunidade para as mulheres. Já discutiu publicamente também o racismo. "Sinto que as pessoas me acham má. Realmente dura e má. […] Mas Maria Sharapova, que pode não falar com todo o mundo, é percebida pelo público como mais legal. Por que isso acontece? Por que eu sou negra pareço má?", questionou a atleta em entrevista à revista Vogue, em 2017. "Esta é a sociedade em que vivemos. Esta é a vida. Dizem que os afro-americanos precisam ser duas vezes melhor, especialmente as mulheres. Estou bem por ter que ser duas vezes melhor."

Veja também:

Erika, que afirma nunca ter praticado esporte antes de começar a treinar tênis para a novela, diz que já acompanhava Serena e Venus nas redes sociais e concorda com a tenista. "Para uma mulher negra é difícil. Para quem tem origem humilde é mais difícil ainda", opina.

No Dia Internacional da Mulher, a atriz fala com exclusividade ao blog sobre seu encontro com o tênis, por causa da novela, de como se apaixonou pelo esporte e da falta de incentivo que ainda existe no país.

*

Como você se preparou interpretar Marina, em "Amor de Mãe"?

Erika Januza – Eu nunca tinha pegado numa raquete na vida. Seguia Serena e Venus [Williams, tenistas] nas redes sociais, mas nunca tinha nem pensado na possibilidade de jogar. Quando recebi o convite para a novela, falei: "Tenho que aprender". Porque quando eu vou fazer algum personagem, por mais que tenha dublê, eu quero fazer. Comecei a ter aulas e a treinar todos os dias. Se eu viajava, já procurava com antecedência uma quadra e um professor particular. No fim, não precisei de dublê. Até tenho uma, mas no geral sou eu que faço tudo. Fui aprendendo, fui me apaixonando.

Qual era a sua relação com o esporte antes disso?

Eu não praticava nenhum esporte. Faço academia, mas só. E agora o tênis é um esporte para mim. Gosto de assistir, de jogar, de saber o que está acontecendo nos campeonatos mundiais, estou atenta.

A atriz treinou tênis cerca de um ano para atuar na novela (João Miguel Junior/Divulgação)

No Brasil e de forma geral, no mundo, o tênis é uma modalidade que tem poucos atletas negros. Qual é a importância de mostrar isso na novela?

As pessoas têm uma falsa impressão de que é um esporte para rico, de que é caro. Os materiais até são, uma boa raquete custa caro. Mas os atletas têm dificuldade por falta realmente de patrocínio, de investimento. Além disso, não é um esporte tão popular quanto o futebol, então as pessoas não o procuram. Têm aquela sensação de que não é esporte para elas. E o fato de ter menos atletas negros pode ter relação com isso, com a falta de estrutura, de investimento, de condições para a prática. É um esporte que precisa de dedicação. Como é o caso da minha personagem: ela tem que trabalhar e treinar. As pessoas de origem simples, que a maioria é infelizmente de população negra, acaba saindo atrás nessa corrida. Fico muito feliz de mostrar na novela que a minha personagem, apesar de tudo, corre atrás do sonho dela, que é o sonho de muita gente no esporte. Sei que é dificil, tem preconceito –como Serena e Venus enfrentaram no início da carreira delas– e não vai ser diferente no Brasil, que é um país extremamente racista e preconceituoso. Para uma mulher negra conseguir ser atleta no nosso país é difícil, se for de origem humilde, mais ainda.

A Marina desistiu de uma grande oportunidade profissional por amor. Você já fez algo semelhante?

Na novela está todo o machismo exposto. A Marina deixou de aproveitar uma oportunidade, e o Ryan [Thiago Martins] abandonou ela pelo caminho. É complicado abrir mão do seu sonho pelo outro, porque lá na frente a conta vem. Fica a frustração de ter aberto mão daquele sonho. Não pode deixar a oportunidade passar.

Quando aconteceu situação semelhante na sua vida, você se arrependeu da sua decisão?

Eu me arrependi. Porque talvez hoje a minha carreira estivesse em um outro lugar. Perdi uma grande oportunidade de trabalho por ouvir outra pessoa. Hoje eu entendo que se você ama alguém, se você quer o bem do outro de verdade, você tem que estar com ele nos sonhos. A vida de cada um também pesa para que os dois estejam bem. A minha relação não deu certo, mas não me arrependo por isso, me arrependo justamente de ter perdido uma grande oportunidade. Mexer com o sonho do outro é complicado, é muito sério.

Num capítulo exibido na semana passada, a Marina comenta que paga as contas trabalhando no bar, e não por meio do tênis. Como vê a realidade do esporte no Brasil?

Patrocínio vem quando o atleta é bom –mas para ele ser bom precisa de treino, de tempo para se dedicar. Nosso país não investe em esporte. Nossas escolas mal dão uma boa base na educação física. Às vezes, a criança vê até como obrigação. Não temos essa cultura de ser atleta, o esporte ainda é para poucos, para quem tem tempo e condições. É um pensamento que tem de ser mudado, as pessoas precisam ver o esporte com outros olhos, precisam saber que é, sim, importante praticar. Por que não podemos ter mais atletas no Brasil nos representando no topo?

O que você espera do futuro da Marina?

Marina vai conseguir seu patrocínio de volta e vai embora para São Paulo. Vai ter uma segunda chance na vida, vai ter uma grande oportunidade. Mais do que isso ainda não sei. Mas espero que ela volte poderosa, campeã, com um boy para dar uma balançada no Ryan. Mas acho que ela tem que ser bem-sucedida no esporte. Até para mostrar que ela conseguiu se reerguer, para dar um exemplo de esperança.

Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Quais você acha que são as grandes conquistas que ainda faltam?

Igualdade em todos os setores, no esporte, no mercado de trabalho. Que a mulher possa andar pela rua com a roupa que ela quiser, sem ser constrangida. Valorização do esporte feminino. Que essas pequenas grandes diferenças desapareçam.

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

Extraordinárias