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Atleta turca campeã mundial ouviu: “Deveria casar e cuidar dos filhos”

Débora Miranda

05/07/2020 04h00

A atleta turca Kübra Dagli, que compete de hijab (Divulgação)

Carregar no peito a medalha de ouro de melhor do mundo e, ainda incrédula com a própria conquista, voltar para casa e ter de lidar com preconceito. Foi o que viveu a lutador de taekwondo turca Kübra Dagli.

"Quando me tornei campeã mundial, disse 'É isso, atingi minha meta'. Todas as coisas que eu vivi anteriormente passaram diante dos meus olhos. Me senti tão feliz. Ainda não posso acreditar. Mas aí voltei para o meu país com minha medalha de ouro, li alguns comentários nas redes sociais e fiquei chocada. Uma parte das pessoas estava me congratulando, enquanto a outra parte estava dizendo: 'E daí que se tornou campeã? Ela deveria se casar e cuidar dos filhos'."

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O preconceito é uma constante na vida da jovem turca. A escolha de atuar profissionalmente como lutadora nem sempre é vista com bons olhos. E ainda tem o fato de competir usando hijab, véu típico das mulheres islâmicas –permitidos em competições esportivas.

Em entrevista ao "Extraordinárias", ela conta como vem enfrentando tudo isso e revela suas reflexões durante a pandemia do novo coronavírus. Leia abaixo.

Você começou fazendo caratê, ainda na adolescência, e depois optou pelo taekwondo. O que a atraiu para as artes marciais?

Desde criança, sempre tive muita energia. Não tinha interesse por jogos que me fizessem ficar parada. Em vez de brincar com bonecas, eu andava de bicicleta ou jogava bola. Quando estava na escola, os professores notaram que eu era enérgica e me mandavam para todas as competições, como uma atleta curinga. Eu jogava vôlei num dia, participava do atletismo no outro e jogava tênis de mesa no próximo. Mas minha grande chance surgiu porque meu pai e meu tio gerenciavam um clube de esportes. Meu pai era treinador de boxe e meu tio, de taekwondo. Essa foi a maior razão que me levou ao esporte. Eu tinha que escolher uma das duas modalidades e concluí que taekwondo se encaixava melhor à minha alma.

Quando você começou, havia muitas outras garotas treinando? Você sempre se sentiu bem-vinda no esporte?

Quando eu comecei havia poucas meninas, e eu achei que elas eram as maiores maravilhas do mundo naquele momento. "Por que não devo estar entre elas?" Nós íamos a demonstrações juntas para dar exemplo a outras meninas e sempre fomos muito bem recebidas.

Todo o mundo conhecia o taekwondo como um esporte masculino e ver meninas praticando surpreendia muito as pessoas. Isso nos fazia ainda mais felizes.

Como seus pais reagiram à sua opção de viver profissionalmente do esporte?

Minha família me apoiou muito! Para ser franca, o fato de eu me tornar uma mulher atleta e viajar por vários países os assustou no início. Mas sempre estiveram comigo e foram meus treinadores antes de eu me tornar atleta profissional. Meu pai, que batalhou para me levar a disputas e me me mandava correr todos os dias às cinco da manhã. Minha mãe, que preparava a minha refeição e lavava minhas roupas suadas. Tudo isso é muito especial para mim. Tentamos superar essa resistência através de nossas conquistas. Mas é difícil eliminar opiniões que as pessoas não querem renunciar. Talvez meu pai estivesse nesse lugar antes de a filha dele entrar no esporte. Mas eu mudei sua visão também.

Você percebe a existência de um obstáculo, muitas vezes invisível, contra as mulheres no esporte?

Sim, posso ser uma das pessoas que mais viram esse obstáculo. Especialmente porque eu pratico taekwondo de hijab. Primeiro eles diziam: "Você é uma garota, você faz taekwondo, que é um esporte masculino". Depois, passaram a me perguntar por que eu praticava esportes quando estou usando hijab. Encontrei obstáculos de ambos os lados. O que eu não consigo entender é como eles podem criticar uma mulher por exercitar esse direito, embora todas as pessoas do mundo sejam tão devotas de sua liberdade. Acho que isso pode ter a ver com a autoestima da pessoa. Eles se sentem mal quando veem outras pessoas chegando ao sucesso que eles não foram capazes de conquistar.

A lutadora de taekwondo fala sobre enfrentar preconceitos (Divulgação)

Como se sente quando vê mulheres enfrentando o preconceito no esporte?

Einstein dizia: 'É mais difícil quebrar o preconceito do que um átomo'. Isso é verdade e é contra isso que eu luto.

Qualquer um pode ser campeão do mundo, mas inspirar os outros e acabar com o preconceito é bem mais difícil. E acho que estou começando a conseguir isso.

Você ainda sente preconceito com suas roupas nas competições?

Em 2013-2014, competir de hijab passou a ser permitido, então entrei numa competição [usando o hijab].

Um árbitro deixou claro que ele não gostava do meu hijab e me deu 1 ponto, embora todo o resto tenha me dado 5 ou 6. Mais tarde, eu achei que era o fim, que não poderia continuar. Que eu não conseguiria ter sucesso. Nessa competição, eu cai de segundo lugar a quinto na primeira rodada e fui eliminada.

Então, eu disse para mim mesma: 'Kübra, você precisa ser tão boa que eles não vão ser capazes de te dar pontuações baixas'. Na competição seguinte, eu fiquei em segundo lugar. E fiquei em primeiro lugar no mundial. Aquele árbitro veio tirar fotos comigo depois que a competição terminou.

O que você sentiu quando ganhou a medalha de ouro no mundial? Qual foi a reação na Turquia?

Quando me tornei campeã mundial, disse: "É isso, atingi minha meta". Todas as coisas que eu vivi anteriormente passaram diante dos meus olhos. Me senti tão feliz, ainda não posso acreditar. Tudo foi ótimo.

Mas aí voltei para o meu país com minha medalha de ouro, li alguns comentários nas redes sociais e fiquei chocada. Uma parte das pessoas estava me congratulando, enquanto a outra parte estava dizendo: 'E daí que se tornou campeã? Ela deveria se casar e cuidar dos filhos'.

Eu disse a mim mesma: "Kübra, o real desafio está começando agora".

Como você tem passado esta fase de pandemia do novo coronavírus? Acredita que isso vai transformar o esporte de alguma forma?

Venho pensando muito nisso. Fiquei triste que o campeonato mundial que aconteceria na Dinamarca foi cancelado. Eu cheguei a pensar: "Já que vamos todos morrer, eu deveria parar de treinar?". Depois, percebi que nossos objetivos são mais fortes do que a covid-19, e continuo treinando em casa.

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?