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Por que é normal programa de esporte sem mulher?, diz comentarista da Globo

Universa

09/08/2020 04h00

Renata Mendonça diz que não se lembra de como começou sua relação com o esporte. "Parece que ele sempre esteve ali." Contratada pela TV Globo como comentarista de futebol –posto atualmente ocupado por apenas uma mulher, a jornalista Ana Thaís Matos–, ela estreia neste domingo, acompanhando o início do Campeonato Brasileiro.

Renata Mendonça, nova comentarista de futebol da Globo (Divulgação)

O sonho de trabalhar com esporte, segundo ela, vem sendo desde o primeiro dia de faculdade. O caminho, no entanto, não foi sempre fácil. Renata conta que, por ser mulher, enfrentou a desconfiança de chefes e chegou a duvidar de que conseguisse se realizar profissionalmente. Conseguiu. A recém-conquistada vaga de comentarista é o reconhecimento desse trabalho e ela vê como uma grande responsabilidade.

"Não posso nem dizer que eu sonhei com isso, porque realmente não era algo que eu poderia me imaginar fazendo. Na minha infância inteira, nunca vi uma mulher comentando. Não se trata só de assumir um novo emprego ou uma nova função. É um espaço muito importante de se ocupar para fortalecer mais a voz das mulheres. Para que isso não pare na Ana Thaís nem na Renata. A gente quer mais."

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Renata passou por redações como ESPN e BBC, mas virou referência por ser uma das criadoras do blog Dibradoras, do UOL Esporte, que trata do protagonismo feminino no esporte, dando grande destaque ao futebol.

"Eu cresci vendo jogos de futebol e nunca me questionei por que não tinha nenhuma mulher ali. Essa ideia de que o esporte é um espaço masculino é muito bem-aceita. E esse é o problema. Quando a gente naturaliza algo que não é natural, a gente simplesmente aceita a realidade como ela é –mesmo que não seja uma realidade justa. Por que a gente acha normal assistir a um programa de esporte que tem cinco caras e nenhuma mulher? Por que a gente não vê nenhuma mulher na televisão falando de futebol?"

Em entrevista ao Extraordinárias, Renata fala de sua trajetória, da importância de inspirar meninas –desde a infância—a se relacionarem ao esporte e de como ocupar espaços inéditos é essencial para inspirar e abrir espaço para mais mulheres apaixonadas por futebol.

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Gostar do que quisesse gostar

"A minha relação com o futebol é muito difícil dizer como começou. Eu sempre estive ligada ao esporte. E isso é um diferencial, por eu ser mulher. Acho que sou bastante sortuda e privilegiada por ter nascido em uma família que não esperou que eu cumprisse os padrões esperados para meninas. Sempre tive liberdade para gostar do que eu quisesse gostar. E por eu ter um irmão mais velho, com quem eu sempre brinquei muito, eu tinha um pouco dessa liberdade que os meninos têm de brincar de tudo. Eu jogava bola com ele, jogava vôlei. Com meu pai sempre assistia aos jogos de futebol na televisão. Enfim, é uma relação que eu não consigo lembrar o ponto de partida, parece que o esporte sempre esteve ali."

Como é a regra do impedimento?

"A gente cresceu sendo julgada por gostar de futebol. Sempre vinham aquelas perguntas 'como é a regra do impedimento?' ou então 'fale a escalação do seu time'. E o Dibradoras surgiu de uma necessidade nossa, como mulheres que gostavam de esporte, de nos sentirmos representadas pela cobertura esportiva. Começamos com um grupo de discussão no Facebook, não tínhamos a ideia de ser um grande veículo sobre esporte.

Depois disso veio um convite para fazer um podcast na rádio Central 3, porque ia ter Copa do Mundo de futebol feminino, em 2015. A ideia era que fossem só os episódios para a Copa, mas o negócio deu certo. Na época, não tinha condição de fazer um podcast para falar só de futebol feminino. Nem a CBF atualizava os resultados do Campeonato Brasileiro no site dela. Então a gente decidiu ampliar o tema para mulheres no esporte. Percebemos que os problemas e o preconceito que as mulheres sofriam no futebol eram os mesmos que elas sofriam em todas as áreas do esporte. Vimos que havia uma demanda por aquele conteúdo, que havia muitas mulheres que, como a gente, não se sentiam representadas pela cobertura esportiva."

A gente cresceu vendo jogos onde só homens estão jogando, onde só homens estão narrando, onde só homens estão comentando. Isso automaticamente passa uma mensagem de que aquele lugar não é um lugar para mulher. Essa é a ideia que a gente queria quebrar. E isso precisa acontecer lá na infância, quando a menina ganha uma boneca e o menino ganha a bola.

Parece que somos ETs

"Toda mulher que trabalha com esporte enfrenta muitas dificuldades. A primeira é que o mundo acha que você não é capaz de estar ali. Até hoje, se eu entro no táxi e peço para o motorista botar o rádio no jogo de futebol que está rolando, eu ainda ouço 'Nossa! Uma mulher quer ouvir futebol! Que diferente!'. Não é diferente, faz muito tempo que as mulheres gostam de futebol. Então, é um pouco exaustivo, o tempo inteiro parece que você é um ET.

E isso é uma rotina também, muitas vezes, no seu ambiente de trabalho. Tive, no início da carreira, um chefe que falou para mim: 'Não sinto confiança para te mandar cobrir treino, para te mandar cobrir jogo de futebol'. Hoje eu consigo ver claramente que ele falou isso para mim porque eu sou mulher. Eu nunca tinha demonstrado no meu trabalho qualquer falta de conhecimento que levasse a esse questionamento. Isso quase me fez desistir. Esses percalços são muito desagradáveis, você precisa estar forte e resiliente para não deixar se abater."

Uma conquista de todas

"Eu já participava do 'Redação SporTV' desde março de 2018 e, no ano passado, surgiu a oportunidade de fazer alguns pilotos [testes]. Não posso nem dizer que eu sonhei com isso, porque realmente não era uma coisa que eu poderia me imaginar fazendo. Na minha infância inteira, nunca vi uma mulher comentando.

Não se trata só de assumir um novo emprego ou uma nova função. É um espaço muito importante de se ocupar para fortalecer mais a voz das mulheres, dentro do maior veículo de comunicação do país. Para que isso não pare na Ana Thaís nem na Renata. A gente quer mais. É uma conquista que eu considero de todas.

Quando eu entrar para comentar um jogo, muitas meninas vão ver e falar: 'Caraca, eu posso fazer isso isso!'. É uma responsabilidade enorme. Eu cresci vendo jogos de futebol e nunca me questionei por que não tinha nenhuma mulher ali. Essa ideia de que o esporte é um espaço masculino é muito bem-aceita. E esse é o problema."

Quando a gente naturaliza algo que não é natural, a gente simplesmente aceita a realidade como ela é –mesmo que não seja uma realidade justa. Por que a gente acha normal assistir a um programa de esporte que tem cinco caras e nenhuma mulher? Por que a gente não vê nenhuma mulher na televisão falando de futebol?

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Minha Copa, meu oásis

"Cobrir a Copa do Mundo de futebol feminino da França [pelo Dibradoras] em 2019 foi a experiência mais gratificante que eu já vivi, porque conseguiu me satisfazer não só profissionalmente, mas também pessoalmente. Para mim, qualquer cobertura esportiva é o meu oásis. Sem sacanagem, eu posso ficar sem dormir todos os dias durante uma cobertura esportiva, sou vidrada nisso, é quando a minha energia está no ápice.

Tinha muitas expectativas sobre a Copa e todas elas foram absurdamente superadas. Foi incrível ver a mobilização, a quantidade de pessoas, a presença de mídia, a quantidade de crianças no estádio. Você vê muitas meninas e, para nós, que crescemos apaixonadas por esporte, é um alento ver meninas criando essa relação com o futebol.

A transmissão da Globo fez uma imensa diferença, porque foi o que mostrou o tamanho do potencial do futebol feminino. E, para a gente que estava lá, foi absolutamente incrível sentir essa energia e fazer parte dessa história. Quando a Copa do Mundo feminina acabou com a torcida gritando 'equal pay' no estádio, não consigo descrever o tamanho da emoção que foi viver isso. É muito significativo milhares de pessoas gritando por igualdade dentro de um estádio de futebol."

Pausa durante a pandemia

"Não dá para dizer que a pandemia não foi um balde de água fria. A gente estava numa crescente muito grande do futebol feminino. Teve a Copa no ano passado e, neste ano, ia ter Olimpíada. Mas 2020 veio e falou: 'Esquece todas as promessas de Ano-Novo, acabou tudo'.

Por outro lado, o futebol feminino está mais 'acostumado' a lidar com adversidades. Já enfrentou uma proibição, por lei, de quatro décadas. O futebol feminino nunca teve nada, ele nunca teve transmissão, nunca teve patrocínio, já sabe sobreviver sem essas coisas. E vai se reerguer, como sempre.

A gente tem hoje um cenário muito mais favorável do que era o de cinco anos atrás. Não tem nada perdido."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?