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Débora Miranda

Brasileira faz vaquinha para jogar nos EUA: 'É ato político não desistir'

Débora Miranda

16/08/2020 04h00

Chegou um ponto na vida de Joane Ribeiro Garcia, hoje com 23 anos, em que seu amor pelo futebol virou trauma. Na infância, única menina a jogar bola no meio dos garotos, sofreu com bullying e preconceito. "Tudo era motivo. O jeito que eu me vestia, meu cabelo, como eu me comportava. Eu era muito agressiva, sentia raiva desse bullying."

Joane está tentando arrecadar o dinheiro de que precisa para ir aos EUA (Arquivo Pessoal)

Na adolescência, decidiu sair de casa, em Jaraguá do Sul, interior de Santa Catarina, para tentar uma chance no esporte. "Joguei pelas cidades de Joinville e Blumenau, morando em alojamento. Essas foram as épocas mais difíceis. Vi de fato como funciona a falta de estrutura dos clubes brasileiros. Éramos em dez meninas, três em cada quarto, não tínhamos nenhum acompanhamento, nenhum patrocínio, fisioterapia, nutricionista, nada. Era muito complicado. Todo o mundo tinha saído de casa com esse sonho de jogar bola. Fiquei dos 16 aos 18 anos, até que falei 'Não dá mais'."

A decisão, no entanto, durou pouco. Hoje, Joane treina, trabalha como garçonete em uma pizzaria e batalha para conseguir realizar outro sonho: estudar e jogar bola em uma universidade dos Estados Unidos. Ela conseguiu uma bolsa parcial em uma escola na Califórnia, mas precisa de R$ 60 mil para pagar o restante dos estudos mais a moradia.

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"Era um sonho antigo. Já havia recebido uma proposta semelhante aos 15 anos para estudar e treinar lá, mas minha família é muito humilde e não tínhamos recursos financeiros." Agora, incentivada pelos amigos, lançou uma vaquinha virtual para conseguir o dinheiro de que precisa. A mãe vem tentando, ainda sem sucesso, um empréstimo.

"Eu comecei a aplicar para bolsas nos EUA em dezembro, mandei para mais de 300 universidades. Muitas não responderam, mas recebi uma proposta muito boa para jogar na Flórida. Acontece que, com a pandemia, essa bolsa foi cortada. Mais uma frustração. Fiquei muito mal, quase desisti. Mas decidi tentar de novo. Agora consegui na Califórnia, na Westcliff University. Vou fazer acontecer."

Além de jogar futebol, Joane vai cursar Business (semelhante a administração), com foco em esporte. "É um plano meu estudar e ocupar lugares em que hoje não tem mulheres, como federações de futebol, por exemplo. Quero poder facilitar o acesso a outras mulheres", planeja.

Coração bate com emoção

Joane tentou por duas vezes fazer faculdade, cursou um ano de jornalismo e um ano de psicologia, com Fies (Fundo de Financiamento Estudantil). A mãe sempre a incentivou a estudar, e ela pensou em seguir uma vida acadêmica. "Mas nunca foi meu sonho nem minha vontade de fato. Estava sempre sentindo que não era o que eu queria."

O futebol faz meu coração bater com emoção. É o que eu sinto, em essência, que eu nasci para fazer. E eu amo fazer isso. É um ato político para mim não desistir. A desigualdade ainda é muito grande, há muito preconceito. É algo que eu quero tornar mais acessível, que a gente tenha melhores salários, mais visibilidade, que a próxima geração possa ter o que eu não tive. Que as coisas melhorem. Quero que a gente tenha um reconhecimento como o dos homens.

Além de incentivar a filha a estudar, a mãe de Joane a apoiou desde pequena no esporte. "Ela sempre me incentivou. É superfeminista e sempre me deixou livre para eu gostar do que quisesse." Quando um professor da escola aconselhou que Joane, então com 9 anos, fosse treinar em uma escolinha, pois estava se destacando entre as crianças, a mãe dela levou.

Joane diz que o machismo no futebol ainda é estrutural e levará tempo para que mude (Arquivo Pessoal)

A separação dos pais fez com que a menina se mudasse com a família para Belo Horizonte. Lá, conseguiu uma bolsa de estudos e teve sua primeira experiência em um colégio particular. "Meus horizontes se expandiram. Vi nessa época que tinha a possibilidade de ir para os EUA jogar e estudar. Lá conheci a minha primeira namorada, mas quando descobriram, cortaram minha bolsa. Era um colégio batista. Foi uma época muito difícil. Chamaram a minha mãe e tive que me assumir para ela. Eu tinha 15 anos."

O machismo, ela diz, ainda é estrutural no futebol e levará anos para ser desconstruído.

Hoje treino com homens e, quando algum deles faz algo errado, logo já dizem: 'Está chutando como uma garota'. Vai levar um tempo, a gente vai ter que batalhar mais e se posicionar para que isso mude de fato.

Mas as jogadores começarem a falar mais sobre preconceito, segundo ela, já é uma evolução. Joane lembra de Megan Rapinoe, craque da seleção americana e homossexual, que durante a Copa do Mundo da França, no ano passado, levantou discussões importantes ligadas não apenas ao universo LGBT, mas também à equidade.

"Minhas referências são a Megan; a Marta, pela humildade, por ser a melhor do mundo tantas vezes, pela história dela; e a Cristiane, que é uma jogadora incrível, muito precisa. O futebol masculino eu não acompanho, virou um ato político para mim. É muita desigualdade. Eu dou meu ibope para o futebol feminino, acompanho as ligas e os times."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?