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Débora Miranda

"Quero jogar futebol": menina abusada pode encontrar acolhimento no esporte

Débora Miranda

23/08/2020 04h00

Incentivar a prática esportiva na infância é essencial e um direito (Choreograph)

A frase da menina de 10 anos que passou pela interrupção de uma gravidez após ser vítima de estupro comoveu muita gente. E comigo não foi diferente. A ideia de uma pessoa tão nova enfrentar tantos terrores e, depois de tudo, sonhar com algo tão simples quanto jogar futebol revela uma resiliência que chega a doer. Joga na nossa cara a inocência e a falta de perspectiva de tantas crianças sofrendo violência de todos os tipos no Brasil –da bala perdida ao crime sexual.

Mas vai além. O desejo dessa menina em melhorar logo e jogar futebol revela também a importância do esporte na vida de tanta gente. Me arriscaria até a dizer na vida de toda gente. E especialmente das meninas e mulheres, que, por tanto tempo, encontraram impedimentos para jogar, torcer e trabalhar com o futebol.

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"Montamos uma estratégia para distrair a menina, ela estava muito abalada emocionalmente e precisávamos preservá-la. Começamos a conversar, e ela me disse que gostava de futebol, que gostava de brincar com bola. Como eu também gosto muito de futebol, foi fácil distraí-la. Falamos sobre times, sobre jogo, e ela se mostrou muito entendida, se interessou pelo assunto. Assistimos futebol em geral, filme e desenhos animados. Logo que ela saiu da sedação, disse que agora ia poder jogar bola, que estava louca pra voltar para casa para brincar de bola com o tio, que ela chama de irmão", contou Paula Viana, enfermeira integrante da coordenação colegiada do grupo Curumim, que esteve com a criança.

O futebol, a princípio, pode ser isso mesmo: lazer, distração. Algo que entretém, ali na tela da televisão. Mas acompanhar o esporte com paixão ensina lições importantes e pode ser uma poderosa ferramenta de transformação. Na infância, especialmente, o incentivo à prática esportiva é essencial.

A Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) destaca que "o jogo e o esporte seguro e inclusivo" são direitos de toda criança e todo adolescente, assegurados na Convenção sobre os Direitos da Criança, na Constituição Federal brasileira e no Estatuto da Criança e do Adolescente. "E mais: são também estratégias para garantir outros direitos e meios poderosos de inclusão e mobilização por uma infância e adolescência mais saudável, participativa e cidadã."

A isso chamamos de Esporte para o Desenvolvimento, um direito de todas as meninas e todos os meninos, que, além de fazer bem à saúde, contribui para melhorar a autoestima, o equilíbrio físico e psíquico, a capacidade de interação social, a afetividade, as percepções, a expressão, o raciocínio e a criatividade. Com isso, é possível melhorar o controle do corpo e a capacidade de brincar, aprender e fazer amigos.

O esporte pode também ajudar a aumentar o interesse e o desempenho na escola. Mas é importante que seja leve e divertido. A prática de esportes pode ainda ajudar a transmitir valores como respeito a regras e limites, estimular a aceitação da vitória ou da derrota, e ajudar a fortalecer as relações de solidariedade."

Quando falamos de meninas, incentivar a prática esportiva desde cedo é ainda mais importante. Durante muito tempo, algumas modalidades –como o futebol– foram consideradas "coisa de homem". As garotas não encontravam possibilidade de praticar essas atividades, mesmo que as adorassem e que demonstrassem talento para aquilo. Elas não eram incentivadas a correr, a ralar o joelho, a desenvolver a força e o físico e a aprender a disputa saudável. Havia uma mentalidade de que deviam se conter, "se comportar".

Aos poucos isso está mudando. E quem está mudando são as próprias mulheres. Passamos de quatro décadas de proibição da prática do futebol para um país que está aprendendo a reconhecer o talento feminino –em campo e fora dele. Foi preciso que Marta fosse eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo? Foi preciso que a TV começasse a contratar mulheres como comentaristas? Foi preciso que os grandes times fossem obrigados a criar e manter equipes de mulheres?

Foi. Mas tudo isso teve seu valor. E é por isso que a menina de 10 anos que foi estuprada e teve de enfrentar uma interrupção de gravidez pode, hoje, encontrar acolhimento no futebol. Por isso ela pode, sim, gostar de jogar bola, ter referências femininas no esporte que ela admira, torcer livremente e pensar em ser jogadora quando crescer. Por que não? Até (e inclusive) a possibilidade de sonhar foi amplificada pelas conquistas femininas no esporte.

É claro que ela precisa também de acompanhamento, de tratamento, de amor. Não estou dizendo que o futebol por si só vá curá-la do trauma que viveu, que vá estancar suas feridas ou que vá ser suficiente para tratar suas dores. Mas ele pode, sim, ser importante e valioso nesse processo.

Em última instância, o futebol pode ser "só" paixão. E ainda assim é capaz de transformar vidas. Aquele amor que nos leva a torcer, nos emociona, nos une a outras pessoas. A dor da derrota, que nos faz crescer e encontrar acolhimento entre os nossos. O futebol é uma grande metáfora da vida e, como o simples fato de existir, nos leva a experimentar, a aprender, a saber ganhar e perder. Nos conduz por crises e nos ensina o caminho da superação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?