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O que aprendi ao correr a São Silvestre pela primeira vez

Débora Miranda

01/01/2020 04h00

"Minha meta é chegar até a Brigadeiro. Se, depois, eu não conseguir subir a avenida, chamo um Uber." Estava combinando com minha amiga Camila Brandalise —repórter de Universa— de irmos correr a São Silvestre e, ciente do meu pouco preparo, fiz a piada do Uber.

Quem conhece o trajeto da São Silvestre sabe que a subida da avenida Brigadeiro Luís Antônio, que dá na avenida Paulista e encerra a prova, é um dos maiores desafios para todos os corredores. E eu não me sentia pronta para encará-lo.

Camila é corredora mais experiente do que eu. Já havia estado em uma São Silvestre antes e, recentemente, correu uma meia maratona. "Eu sei que é brincadeira, mas você não deveria falar assim", ela me disse, não achando graça da minha piada. ˜Trabalhar a sua mente para a prova é tão importante quanto trabalhar o físico. E, já que você vai correr, precisa acreditar que conseguirá", ela me disse. Coberta de razão.

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Correr não é apenas algo que eu faça em busca de saúde e de melhora na forma física. É uma atividade que eu gosto e que tem me levado, nos últimos anos, a me desafiar e a superar limites que para mim, até então, pareciam intransponíveis. Mas, verdade seja dita: não sou uma atleta dedicada. Aliás, não me considero nem uma atleta.

A prova mais longa que eu já havia corrido era de 10k. No início deste ano havia participado de uma em que cheguei a 12k. Mas 15k –total do percurso da São Silvestre– era uma distância nova. E conseguir subir a Brigadeiro, no meu mundo, era um tabu.

Acontece que, se 2019 deixou lições, diria que uma das mais importantes é: tabus estão aí para ser quebrados. A própria São Silvestre só permitiu a participação de mulheres a partir de 1975 –50 anos após a primeira edição, realizada em 1925. E foi assim que decidi encarar com seriedade esse sonho antigo que eu, até este ano, não tinha tido coragem de tentar realizar.

Melhorar a minha forma física em três dias não seria possível, então segui o conselho de Camila: abandonei a ideia do Uber, criei uma estratégia e defini que eu chegaria, sim, até o final. Se tivesse que caminhar pela Brigadeiro, que fosse. Mas eu ia de verdade fazer o meu melhor. Olhei para o desafio com respeito, mas chutei o tabu para longe.

Acordei cedo, me alimentei bem, peguei o metrô rumo à Paulista. O dia estava lindo –o que nem sempre é favorável para quem vai correr, pois o calor aumenta o desgaste físico. A ansiedade só crescia. O meu pelotão era o último, e levei uns minutos até chegar à largada. Tocava o tema do filme "Carruagens de Fogo" (1981) e me emocionei assim que cruzei a linha que marcava o início do percurso.

Mesmo já tendo visto na TV, me surpreendi com a multidão –cerca de 35 mil pessoas. Um mar de gente na minha frente, a mesma coisa atrás de mim. Nas calçadas, as pessoas celebravam nossa passagem. Muitas estendiam as mãos em um gesto de apoio lindo e gentil.

Fantasias, pantufas, asas de fadas, homens-aranhas e mulheres maravilhas aos montes. Muitos idosos. Um grupo grande de cadeirantes. Vi até uma família empurrando um carrinho de bebê. Logo antes de chegar à avenida Rio Branco, bandeiras de duas torcidas organizadas do Corinthians tremulavam, dando boas-vindas aos corredores, que retribuíam com gritos de "vai, Corinthians!".

Camila e eu, após o fim da corrida, orgulhosas com nossas medalhas

Na metade do percurso o cansaço começou a me pegar. Pensava em Camila me dizendo: "Se a sua perna doer, pensa que a minha estará doendo também". Ela sempre repete que correr é difícil para todo o mundo, competidores novos e experientes. Quando você começa, é comum achar que não vai conseguir, mas consegue. Depende de treino e insistência. "A sua cabeça vai te dizer várias vezes que você precisa parar."

Algumas pessoas começaram a caminhar, diminuí meu ritmo, mas não parei. Cruzei com um senhor que vinha andando e, nas costas de sua camiseta, estava estampada a mensagem: "Grite 'Vai, José Mario!"'. Gritei, obviamente, e aplaudi José Mario ao passar por ele.

Conforme a distância aumentava, as pessoas incentivavam mais umas às outras. Passar pelo centro da cidade foi um show à parte. E finalmente cheguei à temida Brigadeiro. A multidão perto de mim gritava. Acho que era uma forma de encorajamento, mas desta vez silenciei. Não queria gastar energia à toa, e a minha já estava acabando.

Na parte mais íngreme da avenida, caminhei. Esse é o ponto com maior concentração de torcida, talvez pela dificuldade imensa que é escalar aquela montanha de asfalto depois de correr tanto. Passei por uma menininha que gritou para mim, vibrando: "Força! Falta pouco!".

Olhei para a frente e enxerguei a Paulista. O restinho de pique que me sobrava eu resgatei sei lá de onde e corri. Corri como não havia corrido ainda naquela prova toda. E assim que virei à direita na Paulista, chorei.

O esporte tem dessas coisas. Faz a gente descobrir que pode mais do que achou que podia. E foi assim que decidi entrar neste 2020: com a certeza de que eu não preciso de Uber nenhum para subir as Brigadeiros da vida.

Feliz ano novo a todos!

Sobre a autora

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Apaixonada por cultura. Acredita no poder transformador do esporte. Ginástica olímpica na infância. Pilates, corrida e krav maga na vida adulta. Futebol desde sempre. Corinthians até o fim.

Sobre o blog

Espaço para as histórias das mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo. A ideia é reunir depoimentos sobre determinação, superação e empoderamento. Acima de tudo, motivar umas às outras. Vamos juntas?

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